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No meio da briga

A guerra comercial entre Estados Unidos e China pode ser benéfica para o Brasil se o novo governo souber negociar com as duas potências
30.11.18

A reunião é do G20, mas só se fala do G2. Neste sábado, 1º de dezembro, último dia da reunião de cúpula dos chefes de governo e de Estado das vinte economias que concentram 85% do PIB mundial, o presidente americano Donald Trump se sentará para jantar com o presidente chinês Xi Jinping em um lugar ainda não divulgado em Buenos Aires. Terrorismo, crise financeira e migração já não são os temas que mais preocupam. A questão da vez é saber o que será da guerra comercial travada entre as duas maiores potências do planeta. Guerra que lança estilhaços em todos os países direta ou indiretamente. O americano ameaça subir os impostos de produtos fabricados na China, incluindo celulares iPhone e notebooks, para 25%. O chinês pede calma, temeroso de que seu crescimento econômico, na casa de 6,5% do PIB ao ano, seja cortado em 1,5 ponto percentual. A pendenga só poderá ser resolvida pelos dois principais envolvidos: Trump e Xi. Para todos os demais que estiverem passeando pela agradável capital portenha, só restará saber como se adaptar ao que for estabelecido pela dupla.

A disputa planetária inclui, obviamente, o Brasil. Entrou nas discussões da campanha eleitoral e está na boca daqueles que comandarão a política externa brasileira a partir de janeiro. O futuro chanceler, Ernesto Araújo, já afirmou que há uma tentativa de transferir o poder econômico do Ocidente para os chineses. Trump, segundo ele, é quem teria a missão de evitar essa inversão de forças. Na semana passada, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, em visita a Washington, ecoou as afirmações que o pai, Jair Bolsonaro, proferiu durante a campanha. “Nosso primeiro sócio comercial sempre foi os Estados Unidos”, disse ele em uma entrevista para um site voltado à população hispânica. “(A China) não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil.”

São afirmações duras, que encaram a realidade como um jogo entre dois competidores em que o empate não existe. Um ganha e o outro perde. Mais do que isso, há um entendimento de que o Brasil precisa fazer uma escolha, de preferência por aquele que ganhará no final. É uma perspectiva totalmente estranha para muitos do que labutaram nas relações internacionais até hoje. “O Brasil não tem nenhum motivo para escolher um dos lados, uma vez que os motivos do antagonismo entre americanos e chineses nada têm a ver com os interesses brasileiros”, diz o embaixador Rubens Ricupero. “As queixas em relação a déficit comercial, transferências de tecnologia e presença militar no mar do sul da China não resvalam na gente.”

Yao Dawei/XinhuaYao Dawei/XinhuaTrump com Xi Jinping: divergências à mesa em Buenos Aires neste sábado
Não há, tampouco, qualquer pressão para que o país adote uma única posição. Para alguns, o mais recomendável seria trabalhar de forma aberta. “A atitude mais inteligente seria aproveitar-se dessa disputa para trazer ganhos ao Brasil, sem necessariamente escolher um lado. Seria algo como uma ambiguidade estratégica”, diz Carlos Gustavo Poggio, professor de relações internacionais na PUC e na Faap, em São Paulo. Na Guerra Fria, o mundo tornou-se bipolar e uma postura ambígua tornou-se inviável. Mas a situação atual não está fraturada por uma hostilidade semelhante à daquela época. Apesar do confronto sobre tarifas e da retórica de Trump, Estados Unidos e China não são polos opostos que sonham destruir o adversário. O maior detentor de títulos do Tesouro americano é a China, que direciona a maior fatia do seu investimento no exterior para os Estados Unidos. As trocas de bens e serviços entre as duas nações passam de 700 bilhões de dólares ao ano. A China é o maior exportador de produtos para os Estados Unidos, e o terceiro maior importador de bens americanos.

Os dois países também são hoje os que mais realizam investimentos diretos em outras nações. Desde 2010, o Brasil foi o destino de 54 bilhões de dólares da China, que não olha para a América Latina apenas como uma grande fazenda produtora de soja. Mais da metade do dinheiro que chega aqui vai para as áreas de energia, petróleo e gás e mineração. “Eles apostam principalmente em infraestrutura e logística, setores em que o Brasil tem uma necessidade crucial para crescer de forma sustentável”, diz o economista Roberto Damas, do Insper. O Brasil precisa do equivalente a 2,3% do PIB anual investidos em infraestrutura para repor a depreciação do estoque de ativos — ou seja, para evitar que viadutos caiam, como aconteceu na Marginal Pinheiros, em São Paulo, em 15 de novembro.

A disposição financeira de Pequim faz com que países da região barganhem como se estivessem em um leilão sem fronteiras. “Em Washington, um equatoriano me disse que, em muitas negociações, eles jogam com essa ambiguidade. Quando os chineses começam a fazer exigências para determinados investimentos em infraestrutura, eles sinalizam com a possibilidade de negociar com os Estados Unidos, e vice-versa”, diz Poggio.

Agência BrasilValter Campanato/Agência BrasilErnesto Araújo, o futuro chanceler, já criticou o protagonismo da China
Na ponta do lápis, manter boas relações com a China é vantajoso, uma vez que o Brasil tem com o país asiático um superávit comercial, que neste ano já passa de 24 bilhões de dólares, e os chineses não estão preocupados em reverter essa posição. Nas trocas com os Estados Unidos, exportações e importações praticamente se igualam. No acumulado deste ano, o Brasil tem um leve superávit de 131 milhões de dólares, o que não preocupa a administração Trump, ao contrário do que acontece em relação à Alemanha. As conversas com os americanos estão a todo vapor. Na quinta 29, o assessor nacional de segurança americano, John Bolton, tomou um café da manhã na casa do presidente eleito, Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro. Os dois falaram sobre o comércio entre os dois países, além de outros temas.

Quanto a outras nações da América Latina, o Brasil ainda tem a vantagem de estar em ascensão, saindo de uma crise econômica. “Venezuela e Argentina eram os países que mais atraíam a atenção dos chineses nos últimos anos, mas ambos estão enfrentando dificuldades internas”, diz o advogado Reinado Ma, da TozziniFreire, escritório responsável por cuidar dos interesses de vários grupos da China. “Recentemente, percebi que algumas empresas trouxeram times de funcionários que estavam trabalhando em Caracas ou Buenos Aires”. Atualmente, o Brasil recebe 55% do investimento chinês na América Latina.
As perspectivas são boas, e não dependem de quem vai ganhar o grande jogo.

Em meados de novembro, uma reunião da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, em Papua-Nova Guiné, terminou sem um comunicado conjunto. Estados Unidos e China não se entenderam. O vice-presidente americano Mike Pence e Xi Jinping discutiram sobre comércio e segurança e não chegaram a um consenso. “A China tirou vantagem dos Estados Unidos durante muitos e muitos anos, e esse tempo terminou”, reclamou Pence. Na reunião do G20, o Brasil precisa estar preparado para, seja qual for o resultado do jantar entre Trump e Xi, saber trabalhar com ambos em benefício próprio. Um sinal positivo nesse sentido foi dado nesta semana, com a nomeação de Marcos Troyjo para comandar a secretaria de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais, sob o guarda-chuva de Paulo Guedes. Professor de Columbia, ele conhece a fundo americanos e chineses. Tem tudo para obter acordos proveitosos com um lado e outro.

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500
  1. Se conseguirmos eliminar 70% dos corruptos e deixa-los mudo 90%, ai o Brasil tenderá a voltar mais rápido a se recuperar. Estaremos dependendo apenas da administração de nosso Presidente. E serio

  2. Qualquer coisa que for feita já é um avanço considerando a política petista como era. Mas esse negócio do Bolsonaro de ficar bitolado só com EUA e com Israel não dá. Espero que tenha mente aberte, tire proveito dos dois, e não chame problema que não é nosso lá com Israel.

  3. O interesse da China e’ GARANTIR o suprimento de todas as materias primas, minerais, petroleo e proteina vegetal e animal. O Brasil tem de negociar investimentos MINORITARIOS da China na area de infraestrutura para se beneficiar do relacionamento bilateral, mas jamais permitir o controle de quaisquer areas, para evitar que areas economicas e geograficas do pais sejam controladas pelo governo Chines (sim, todas as empresas Chinesas sao controladas pelo governo Chines).

  4. Considero que o Brasil tem MUITO a ganhar se conseguir negociar com americanos e chineses. E sem desconsiderar que a China escoondeu MUITO dinheiro que oaratos lixo roubaram de nosso país...taxação dos produtos é uma boa idéia...para podermos concorrer!!!

  5. Nada ver com as negociações conduzidas pela diplomacia dos governos petistas, que nos obrigavam a comprar médicos e agentes cubanos, ideologia venezuelana e cocaína boliviana.

  6. Sempre foi difícil agradar a gregos e troianos ! Só por intuição feminina (q é uma bobagem rsrs) aposto nos Estados Unidos !

  7. Excelente!!! Daqui a pouco Trump vira o melhor amigo de Xi e nós que sairíamos prejudicados se, eventualmente, tomarmos partido sem fundamento.

  8. Excelente matéria! Esperamos que o brilhante colaborador de CRUSOÉ, Marcos Troyjo, encontre um tempinho para continuar falando com seus leitores, de vez em quando...

  9. Se eu fosse petista eu diria q o Troyjo foi nomeado pq através desta revista fascista ele contribuiu para o golpe nas urnas 😂😂😂😂😂😂😂

    1. 👍👍👍😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂

  10. Excelente matéria. Sucinto e objetivo. Eu acredito na meritocracia e capacidade do Marcos Troyjo...estão no caminho certo!

  11. Reportagem de alto nível de conhecimento, e chegou a hora de tirarmos proveito mesmo dos dois gigantes! Lembrando que também poderíamos estar no nível dessas 2 potenciais, não tivessem tirado o Brasil dos trilhos! Mas se Deus quiser retomaremos o nosso norte rumo ao desenvolvimento! Força povo brasileiro!! Acordamos do berço esplêndido!!

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