ReproduçãoO movimento que se espalhou espontaneamente graças às redes sociais coloca em xeque o futuro do regime

O povo contra a ditadura

Pela primeira vez na história, manifestantes saem às ruas em dezenas de cidades de Cuba para pedir o fim do comunismo. Apesar da repressão brutal, o regime nunca será mais o mesmo — e sua possível queda fortaleceria a democracia em toda a América Latina
16.07.21

Sistemas totalitários se perpetuam no poder espalhando o medo e abafando todas as tentativas de oposição organizada. Há 62 anos, esse é o caso de Cuba. Qualquer manifestação nas ruas, como uma mera distribuição de panfletos, sempre foi rapidamente neutralizada por policiais uniformizados ou grupos à paisana. Para a grande maioria dos cubanos que não abandonaram a ilha, nunca existiram partidos clandestinos ou movimentos de oposição, e nunca houve uma alternativa ao Partido Comunista. Dissidentes sempre foram mais conhecidos no exterior do que dentro do país. Isso acabou no histórico domingo, 11 de julho. Sem qualquer organização, milhares de pessoas foram às ruas em mais de 80 cidades, para pedir o “fim da ditadura” e gritar “comunismo não” e “pátria e vida” — título de uma canção cubana, sucesso entre os jovens, que se contrapõe à frase de Fidel Castro “pátria ou morte”. O movimento sem precedentes, que se espalhou espontaneamente graças às redes sociais, coloca em xeque o futuro do regime. Se for derrubado, será uma explosão de dimensões tectônicas para a esquerda mundial, que estranhamente insiste em vender Cuba como caso de sucesso socialista.

Entre os motivos da insatisfação popular que desaguou nos protestos está o descontrole com a pandemia de coronavírus. Nesta semana, a crise sanitária atingiu seu momento mais crítico, com mais de 6 mil novos casos por dia. A gestão governamental é medonha. A ditadura se recusou a entrar no consórcio Covax, da ONU, apostando em duas vacinas sem eficácia comprovada. Não há analgésicos ou outros remédios para tratar os sintomas da doença e os efeitos adversos das vacinas. Para piorar o quadro, o país está sem comida e sofre apagões constantes. Curiosamente, mesmo com todas essas carências, elas não apareceram entre as principais reclamações dos manifestantes, embora tenham contribuído para engrossar o coro e ampliar o clima de insatisfação. “As pessoas estão famintas, sem remédios e sem luz, mas elas não saíram protestando como em um gesto de desespero. Elas foram pedir liberdade”, diz o historiador Boris Gonzales Arenas, de Havana. “O povo está consciente de que a causa dos seus problemas é a tirania comunista.”

A repressão foi hedionda. Ainda no domingo, 11, o ditador Miguel Díaz-Canel ordenou seus “comunistas revolucionários” a “enfrentar as provocações com determinação”. A frase soou como a convocação de uma guerra civil. Policiais atiraram em direção aos manifestantes. Centenas de pessoas foram detidas. Mais de 180 jornalistas e defensores dos direitos humanos desapareceram ou foram presos. De noite, agentes uniformizados invadiram suas casas para prendê-los. Viaturas policiais estacionaram à frente das residências de vários ativistas para impedi-los de sair. Redes sociais, aplicativos de mensagens e linhas de telefone foram bloqueados. E jovens de 17 anos foram recrutados à força para reprimir novos protestos.

Alheios ao sofrimento do povo cubano, presidentes e políticos de esquerda da América Latina declararam apoio à ditadura cubana. “O que está acontecendo em Cuba de tão especial pra falarem tanto?”, escreveu o ex-presidente Lula no Twitter na terça, 13. O bloqueio é uma forma de matar seres humanos que não estão em guerra. Do que os EUA têm medo? Eu sei o que é um país tentando interferir no outro.” Ele também afirmou que, não fosse o embargo americano, Cuba seria uma Holanda.

A frase é infame, mas não surpreende ninguém. Lula só repete a ladainha da ditadura comunista, que sempre tentou jogar nos Estados Unidos a culpa pela própria ineficiência e brutalidade. O embargo foi uma resposta ao confisco de propriedades de americanos após a Revolução de 1959. Mas a medida nunca impediu Cuba de importar alimentos e remédios dos EUA. Entre janeiro e maio deste ano, a ilha importou 134 milhões de dólares do país, incluindo a maior parte do frango que consome. “Culpar o embargo pelos problemas de Cuba não faz sentido. A ilha poderia importar muita coisa dos Estados Unidos. Só não o faz mais porque não tem dinheiro ou porque ninguém quer emprestar”, diz o economista cubano Carlos Seiglie, da Universidade Rutgers.

ReproduçãoReproduçãoPoliciais à paisana prendem manifestantes em Cuba
Cuba não tem dinheiro porque a produção local é pífia. A safra de açúcar, que já foi de 8,5 milhões de toneladas por ano na década de 1980, não chega hoje a 800 mil toneladas. “Por uma questão ideológica, o regime nunca aceitou reduzir o peso estatal na economia, que segue centralizada e ineficiente. Com isso, o governo jamais conseguiu produzir o suficiente para exportar, o que traria divisas para importar o que necessita”, afirma o economista cubano Carmelo Mesa-Lago.

Uma saída encontrada pelo governo cubano foi a exportação de serviços médicos, no modelo do extinto Mais Médicos. Contudo, a Venezuela, o principal cliente dessa mercadoria humana, está em apuros. O PIB da ditadura de Nicolás Maduro caiu 30% no ano passado. O turismo, outra fonte de divisas, despencou 90% com a pandemia.

O embargo americano também não proíbe a ilha de fazer comércio com o resto do mundo. Os chineses importam uma quantia fixa de açúcar todo ano. A Venezuela, além de pagar pelos serviços médicos, vende petróleo à ilha, que é tratado na refinaria de Cienfuegos e exportado para outras nações, contornando o embargo americano. Empresas espanholas e francesas administram os principais hotéis. As minas de cobre e níquel são exploradas pela canadense Sherritt International. O tabaco é exportado para dezenas de países. A construtora brasileira Odebrecht reformou o Porto de Mariel, onde atualmente há uma zona especial e estão instaladas 50 empresas. Entre elas, está a Souza Cruz, que envia cigarros para o Brasil.

A questão central é entender por que todos esses negócios até agora não melhoraram a qualidade de vida dos cubanos. Mas a resposta é fácil. Os cubanos que trabalham para o estado, o grande empregador da ilha, ganham 20 dólares por mês. O resto vai para o bolso dos militares e oficiais do Partido Comunista. O presidente americano Joe Biden botou o dedo na ferida em uma breve nota sobre os protestos: “Os Estados Unidos conclamam o regime cubano a ouvir seu povo e a atender a suas necessidades neste momento vital, em vez de buscar se enriquecer”.

Reprodução/redes sociaisReprodução/redes sociaisLula com Fidel: cubano tinha ambição imperialista
A afinidade que políticos de diversos países demonstram ter com a ditadura de Cuba é o corolário da política exterior expansionista que o regime comunista exerce desde os seus primórdios. “Ainda em 1959, apenas seis meses depois de triunfar a revolução, Fidel Castro enviou expedições militares para Haiti, República Dominicana, Nicarágua e Panamá. O governo nem estava estabelecido por completo, mas ele já queria imperar na América Latina, em oposição aos Estados Unidos”, diz o analista político cubano Pedro Corzo, criador do site Cuba Memorial.

Nesse afã, Cuba estimulou a subversão em diversas nações. Terroristas, partidos e presidentes aliados foram apoiados pela ditadura de diversas formas, seja com treinamento de guerrilheiros, o envio de armas, de dinheiro ou de agentes de inteligência. Fidel Castro se foi em 2016, mas seus tentáculos seguiram vivos, trazendo várias vantagens para o regime. Ao fazer negócios com governos aliados, os membros do governo cubano ficaram ricos. Só com o programa Mais Médicos, eles embolsaram 5 bilhões de reais. Em troca, os profissionais cubanos tinham de fazer propaganda para o regime comunista e para candidatos do PT, e eram proibidos de se encontrar com a oposição. A maior fatura de foi paga de longe pela Venezuela, em barris de petróleo.

Uma queda do regime cubano teria impacto sobre partidos e governos da América Latina que almejam acabar com a democracia representativa. Encerraria as operações de desestabilização em países com governantes críticos à ilha. “Se esse regime desaparecer, não há dúvida de que a democracia sai fortalecida na região”, diz o cubano Pedro Corzo. “Essa queda não deve acontecer amanhã, mas os protestos parecem ter iniciado um novo processo que dificilmente será interrompido.” Em mensagens na internet, os cubanos escreveram a seguinte frase, que de certa forma parece apontar para o futuro: “Estávamos com tanta fome que comemos o medo.”

Na quarta, 14, a ditadura anunciou que autorizará “em caráter excepcional e temporário” que passageiros entrem no país com alimentos, produtos de higiene e remédios sem limite de valor e sem pagamento de taxas. O anúncio revelou que as principais barreiras que atrapalham a vida dos cubanos não partem do governo americano, e sim do próprio governo cubano. Nos Estados Unidos, parlamentares democratas pressionaram o presidente Joe Biden a retirar medidas impostas por Donald Trump para aliviar a crise econômica na ilha.

Em pronunciamento na televisão na quinta, 15, o ditador Díaz-Canel pediu “paz, tranquilidade cidadã, respeito e solidariedade” aos seus compatriotas. Também falou que é preciso encontrar soluções comuns entre todos, mas que esse processo deve acontecer dentro do governo e do Partido Comunista. Para Díaz-Canel, não existe Cuba sem o partido. É a prova de que ele não entendeu, ou fez que não ouviu, o que os manifestantes gritaram nas ruas.

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  1. Deus me livre de um dia defender ditadura comunista, mas não posso me esquivar de observar o sensacionalismo na reportagem. " Repressão hedionda...". Cumpade, repressão hedionda foi feita pelos comunistas chineses na Praça Celestial. Muita gente morreu. Em Cuba? Quantos morreram? oficial é extraoficialmente, nenhum, pelo que vejo. O governo cubano vai cair pelas mãos do povo sofrido - e não por causa de jornais sensacionalistas. Todo apoio ao povo cubano DEVE oferecer o governo brasileiro.

  2. Excelente reportagem! Parabéns, à Crusoé por mais um "gol". Já estive em Cuba, não poder ser adepta do regime, mas porque tenho amigos cubanos a quem presto minha solidariedade. O povo cubano é bom, é amigo e é alegre apesar do seu sofrimento e privações. Desejo que o povo cubano reaja, saia às ruas e derrube de uma vez esse regime cruel e desumano.

  3. Essa reportagem está eleita a melhor do ano. Muito densa e esclarecedora. pode ser desdobrada em mais 5 temas. Parabens ao jornalista e a Crusoé, já ouvi 6 vezes. Existe uma nuvem de fumaça que encobre a verdade, e ela esclarece tudo. Fiquei emocionada com frase do cubano: Estávamos com tanta fome que comemos o medo. E de arrepiar. Muita pena dos cubanos, todos que conheci eram ansiosos por desfrutar a liberdade aqui no Brasil.

  4. O mais nojento de tudo isso é saber que existem no Brasil apoiadores desse excremento político. Aliás, em nosso, país verdade seja dita, além dos canalhas de plantão, temos os boçais propriamente ditos, que dançam conforme a banda toca, mas sem conhecimento algum.

    1. Bolsonaro e PT têm mais semelhanças do que diferenças. O objetivo de ambos é o mesmo: um governo autoritário controlado por seu respectivo grupo político.

    2. Por isso precisamos do impeachment de Bolsonaro. Assim a esquerda perde sua muleta e nos afastamos de ditadores tanto de esquerda quanto direita.

    3. Gado é quem olha, mas não vê, mastiga as informações sem apreciar o conteúdo...precisamos com todas as forças impedir o retorno da esquerda ao poder no Brasil. É assim que vamos ser solidários com os cubanos e ajudá-los a derrubar essa ditadura assassina. Acordem!

  5. Se houve quedas de ditaduras em outras plagas não haveria porquê não haver nessa ilha...as ilhas fazem parte do sistema tectônico e podem emergir ou submergir, e nesta ocasião estão a vir à luz do sol. O apoio de ex-presidiário ou de outros seres sem noção, ou a indicação dedal de supostos defensores de uma democracia idiossincrática (que enriquece os próceres e fustiga os que fazem diferir desse status), só revela na realidade a mesquinhez, a favor do enriquecimento ilícito de sempre...

  6. Solidariedade ao sofrido povo cubano. Lamentável ver que o lularápio está fora da prisão e ainda por cima dando suas opiniões nojentas sobre " a boa ditadura comunista cubana ".

    1. Infelizmente olha quem está ao lado de Lula: frei Beto, um inocente útil

  7. Se aparecer uma fumaça na Amazônia. Aparece ONU, Greenpeace, direitos humanos, o Papa, OMS, Macron, PT, PSOL, PCB, etc..., a mídia marrom global lixo. O povo cubano pede socorro e eles calam.

    1. A hipocrisia impera nesses grupelhos... o bom é que o povo acordou e está vendo essa patifaria toda. Já passou da hora de acabar com essa ditadura em Cuba. Infelizmente um povo desarmado não consegue se defender...

  8. E o marginal cubano-sileiro, Zé (daniel) dirceu já bostejou que em 2023 em diante o Tesouro brasileiro vai voltar a descarregar no tesouro cubano a monstruosa grana que pra lá foi mandada nos 13 anos da palhaçada lulopetista.

  9. A sub-raça acreditou que o comunismo iria lhes dar tudo. Só que o tudo, depende de outros. E quem consegue com trabalho não quer distribuir com vagabundo. Comunistas nada produz, nem governo, e aí está o fim. NADA E ETERNO. E TUDO TEM LIMITES. Acabou o dinheiro que os nossos bandidos, PT, PSOL, PCdoB enviavam para os vermes. Jamais vamos receber os milhões que o 9 dedos e a Dilma Anta mandou pra os vagabundos. Espero que como os vagabundos venezuelanos não venham para cá. Já temos bastante vagas

  10. O povo cubano merece sair dessa abjeta forma de governo, que nega liberdade de pensamento, comida, direito de ir-e-vir, dignidade! Abaixo a ditadura cubana! Fora ditadores latino-americanos e norte-coreanos! Viva a vida!

  11. O Lula numa escala menor, instaurou o regime cubano no Brasil no período que o PT ficou no poder. Implementou o Bolsa Família para os mais pobres, visando ter às buchas de canhão para defender o seu Regime. E do outro lado, tal qual ocorre em Cuba, enriqueceu o partido. Lula milionário. Seus filhos estão todos milionários. Os integrantes do partido estão tranquilos para viverem muito bem até o final de suas vidas, ao contrário dos pobres, que voltou a pobreza de sempre.

  12. É revoltante. Só colocando no paredão esses caras imundos, Cuba, Venezuela e outros. Eu teria prazer em metralhar essa gente maldita.

  13. Gostei. É isto mesmo. Não sou Bolsonarista. Mas, Lula está longe de ser considerado um estadista. Foi irresponsável. E mais ainda querendo voltar ao poder. Ok? O socialismo cubano foi desastroso. Pior ainda a Venezuela. Onde não há empregos as pessoas fogem até atrás de comida. Bom reler o Cruzoé hoje.

  14. LULA = os EXEMPLOS EXCECRÁVEIS que uma SOCIEDADE tão CORRUPTA é capaz de produzir! São DEGENERADOS MORAIS que IMPEDEM o BRASIL de AVANÇAR! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

  15. Obrigado, Revista Crusoé, por ser uma das poucas publicações a explicar de maneira clara a questão do embargo americano sobre Cuba. A grande midia passadora de pano do esquerdismo não menciona que Cuba nunca esteve impedida de importar dos EUA, e nem de comercializar com o resto do mundo. A verdade é que se o embargo caísse hoje, não duvido que a miséria continuaria da mesma forma.

  16. Finalmente depois de mais de 50 anos povo poderá se libertar do comunismp e ditadura que lhes tirou toda a vontade de viver como um povo comum. Eu conheço bem as sua história desde o início de tudo. que o povo privado de tudo em suas vidas por tantos anos possam conseguir seu intento, estamos torcendo por eles.

    1. Só de falar o nome desde maligno exu, me dá ancia de vômito! Maldito, deveria ter morrido com toda sua ração, quando chegou em "sumpaulo", indecente!

    2. O Lula - molusco era puxa-saco do Obama Agora vem execrar o Biden

    3. O Molusco era puxa-saco do Obama, agora vem execrar o Biden

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