Foto: Carolina Antunes/PR

Ficou bom para todo mundo

Indicação de André Mendonça por Jair Bolsonaro agradou não só aos evangélicos como ao STF e à classe política -- e é por isso que dificilmente seu nome não será aprovado pelo Senado
16.07.21

Antes mesmo de ter sua indicação ao Supremo Tribunal Federal oficializada pelo presidente Jair Bolsonaro, na última terça-feira, 13, o advogado-geral da União, André Mendonça, já peregrinava havia dois meses pelos gabinetes do Senado, em busca de votos para conseguir assumir a vaga deixada por Marco Aurélio Mello. A despeito do rótulo de “terrivelmente evangélico”, atribuído pelo próprio presidente da República, e da conduta “terrivelmente bolsonarista” como membro do primeiro escalão do governo, Mendonça percebeu que o que ainda intrigava uma parcela dos senadores visitados era o seu histórico de atuação em uma frente bastante indigesta à classe política e muito cara ao país.

O atual AGU passou metade dos seus 20 anos de carreira como advogado da União atuando no combate à corrupção, tema, aliás, desenvolvido nas teses de mestrado e doutorado que defendeu na Universidade de Salamanca, na Espanha, e nos dois livros que publicou. Ainda no primeiro ano de governo, Mendonça destacava em entrevistas que foi ele quem fez a sindicância que levou à primeira exoneração de um procurador da Fazenda pego em malfeitos — no caso, um servidor corrompido por Marcos Valério, o operador do mensalão do PT. Engrossa o currículo sua participação em negociações de acordos de leniência com empresas apanhadas pela Lava Jato que resultaram na devolução de recursos desviados e respaldaram as delações premiadas contra os políticos.

Ocorre que o trabalho de Mendonça na AGU acompanhou a guinada de Bolsonaro na direção da velha política. Se o seu alinhamento total ao governo, mesmo diante do desmonte dos mecanismos de combate à corrupção, e o apoio dos ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes a ele ainda suscitavam alguma dúvida de que Mendonça irá atuar em sintonia com a chamada “ala garantista” do Supremo, mais complacente com os réus, o AGU tem reforçado a seus interlocutores no Legislativo que no início do ano passado ele se manifestou oficialmente a favor da implantação do “juiz das garantias”, aprovado pelo Congresso como reação às sentenças proferidas na Lava Jato e cuja aplicação está suspensa por uma liminar do presidente do STF, Luiz Fux. Na ocasião, Mendonça argumentou que a separação de um magistrado para atuar na fase investigatória e outro no julgamento é uma “garantia institucional em prol de maior isenção e imparcialidade nas decisões”.

Fellipe Sampaio/SCO/STFFellipe Sampaio/SCO/STFO ministro Gilmar Mendes é um dos entusiastas da escolha de Bolsonaro
Na campanha aberta pela vaga no STF, o discurso ganha toques ainda mais sedutores até para senadores que hoje são grandes desafetos do presidente da República, como Omar Aziz e Renan Calheiros, ou integram partidos de esquerda — críticos aos “excessos” da Lava Jato e à “criminalização da política”. Se o jogo eleitoral impede que o PT, por exemplo, vote a favor da indicação de Bolsonaro ao Supremo, o mesmo não dá para dizer do presidente e do relator da CPI da Covid, que historicamente circundam quem está no poder. Tanto Aziz quanto Renan também foram alvos da Lava Jato. Renan não terá um ministro “dele”, como seria o caso de Humberto Martins, presidente do STJ, mas tudo bem.

Por todo esse contexto, a indicação de Bolsonaro foi encarada no Congresso, no STF e no meio evangélico como uma solução salomônica, aquela que, ao fim e ao cabo, agradou a todo mundo. No STF, o evangélico Mendonça pode até destoar de alguns ministros nos costumes e, sobretudo, no credo que professa. Mas ao contrário de Kassio Marques, primeiro ministro indicado por Bolsonaro que caiu quase que de paraquedas no Supremo, Mendonça é considerado alguém “de casa”, que dificilmente deixará de rezar na cartilha de Toffoli, Gilmar e companhia limitada, no que realmente interessa. Vale lembrar que o provável futuro ministro trabalhou com Toffoli quando este chefiou a AGU entre março de 2007 e outubro de 2009. Além disso, foi coautor, ao lado do ministro Alexandre de Moraes, do livro “Democracia e Sistema de Justiça”, lançado em outubro de 2019 em homenagem aos 10 anos de Toffoli no Supremo. Apesar da reprimenda a Mendonça, ao criticar seu voto pelo fim de medidas restritivas que incluíam a proibição de celebrações religiosas com público, Mendes sabe que o indicado por Bolsonaro é uma carta que ele pode ter na manga.

Nos cafés que tem tomado com os senadores, o perfil discreto e afável também tem ajudado Mendonça a se descolar da imagem truculenta de Bolsonaro. O AGU se comprometeu a procurar todos os parlamentares, até quem se recusou a recebê-lo publicamente, como Jorge Kajuru. Nos bastidores do Senado, as investidas de Mendonça nos gabinetes, principalmente dos partidos que detêm as maiores bancadas, como o MDB de Renan, com 15 senadores, o PSD de Aziz, com 11, e o Podemos do próprio Kajuru, com 9, já têm surtido efeito. “Sempre gostei da pessoa dele, do caráter, do profissionalismo. É um perfil bem moderador, apaziguador. É o que a gente está precisando”, afirmou o senador Marcos do Val, do Podemos.

Agência SenadoAgência SenadoJorge Kajuru: o senador se recusou a receber o advogado-geral da União
Na semana passada, Mendonça visitou o gabinete de Antonio Anastasia, do PSD, vice-presidente da Comissão de Constituição e Justiça, onde ele será sabatinado antes da votação de sua indicação no plenário do Senado. Na bancada do partido, o nome do AGU não enfrenta resistência, assim como no Progressistas de Ciro Nogueira. No DEM, o obstáculo ainda é Davi Alcolumbre, que comanda a CCJ e defendia outro nome para o STF, o de Humberto Martins, presidente do STJ (pois é, Alcolumbre e Renan juntos). O próprio Bolsonaro, contudo, se empenha pessoalmente a demovê-lo de resistir.

Além de finalmente cumprir a promessa de indicar um ministro “terrivelmente evangélico” ao Supremo — Kassio Marques, indicado no ano passado, é católico — e, assim, garantir o apoio de influentes lideranças religiosas na eleição de 2022, Bolsonaro espera que o pastor presbiteriano e teólogo André Mendonça demonstre no STF a mesma “fidelidade” que os outros dois ministros que também foram AGU têm devotado aos grupos políticos que os indicaram à corte: Gilmar Mendes pelo governo tucano e Dias Toffoli pelo governo petista. Apesar do discurso de defesa da agenda conservadora, especialmente nos costumes, o interesse do clã Bolsonaro no Supremo está muito mais relacionado aos processos criminais.

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  1. Se uma indicação a qualquer cargo agrada ao PR, seus filhos e aos senadores, que o avaliarão, aguardemos os acontecimentos, pois, usualmente, isso com certeza não é do agrado do povo. Todas as casas estão dominadas - STF, STJ, PGR, Câmara e Senado, FAAS e PF. Estamos no mesmo caminho da Venezuela. Logo logo, estaremos comendo cachorros igual aos venezuelanos.

  2. Teria que ser proibida esta indicação, pois existem vínculos de parentescos e amizade com Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Não haverá independência, pois sabemos que seguirá seus votos. Daí a necessidade de Emenda Constitucional tirando do Presidente esta indicação. Não só ministros do STF, mas também PRG, STJ. Enfim, não indicariam ninguém de outros poderes. Caberiam somente indicação no Executivo.

  3. Não ficou bom para todo mundo não. Esta escolha, e principalmente este processo, são extremamente prejudiciais ao povo brasileiro. Fico imaginando o departamento de compras do STF intermediando com um bispo e um sargento a aquisição de capinhas pretas... Cruz Credo, "Vade Retro"!!!!!

  4. Eu fico observando as entrevistas e geralmente os denunciados sempre defendem duas coisas : Juiz de Garantia e Ampla defesa . São nomes BONITOS mas para o meu pensamento leigo : Eu entendo que a Ampla defesa precisa ter um limite a partir desse limite o nome se muda para impunidade!!!

  5. Bolsonaro aprendeu bem a canalhice do bode na sala, exaustivamente ensinada por seu antigo aliado na presidência da Câmara dos Deputados.

  6. Pois é...a indicação desse cidadão só demonstra que urge mudar o sistema de indicaçao;,na realidade acabar com o sistema seria o melhor para chegar a um verdadeiro tribunal supremo, onde pessoas chegariam somente por demonstração de conhecimento e ampla erudição, além de feitos que tivessem gerado contribuições efetivas para a melhoria da democracia...no entanto o que temos é mais uma vez um acinte à democracia, indicação de pessoa que preconiza uma coisa mas que se adapta a todas as coisas...

    1. Prezado William. Recomendo exercitar a interpretação de textos, e se possível, tentar associar os fatos que consegues observar aos textos referidos. Certamente passarás a ver o mundo com outros olhos.

  7. Melhor este que o atual PGR, pois até penso que o PR prefere o último, porém entrega o atual indicado às feras para, se vetado pelo senado, indicar o preferido do centrão e dele próprio sob a desculpa que o senado vetou o terrivelmente evangélico. Assim, ficaria bem com os evangélicos, e teria garantido um voto de cabresto no STF - mais até que o Kassio com K...

  8. Não tenho a menor dúvida quanto a ele ser "bom para todos". Exatamente por isso foi indicado. Muito bom para todos. Todos eles.

  9. no passado os ministros do stf tinham mais qualida e conhecimento. saudades desse tempo. acho que no maximo esses cara deveriam ficar 15 anos e só...

    1. Acho que o Bolsonaro deveria ter indicado o Paulinho,homen “sério”,”de “notável saber jurídico” e principalmente””IMPARCIAL””

  10. Cada pilantra detém o seu market share no STF, que em última análise, são putas muito bem pagas. FHC, Lula, Temer e agora Bolsonaro, que vai aumentar a sua participação de mercado com a nova indicação. Afinal, sem o STF não tem o MECANISMO, que de jesus homem virou deus, através da santíssima trindade: Executivo, Legislativo e Judiciário. Mendocinha se cacifou não por ser terrivelmente evangélico, mais por ser terrivelmente cretino.

  11. Com as principais instituições dos 3 poderes dominadas, os empresários q operam o "capitalismo de quadrilha" poderão continuar lucrando com o erário sem riscos, inclusive de serem presos. Seus operadores no Estado continuarão enriquecendo ilicitamente e uma casta de trabalhadores públicos protegidos. André Mendonça representa apenas o "aperfeiçoamento" desse modelo. E já não temos mais uma nação, com possibilidade de futuro. A história mostra q uma contradição insuperável, geralmente, acaba mal.

  12. O poder faz milagres. O terrivelmente evangélico, de reconhecido perfil apaziguador, aprendeu a acender vela para Deus e para o diabo. O antes teórico da anticorrupção se cala ao sistema de rachadinha, protege o universo de Bolsonero, abraça Gilmar Mendes e Toffolli... Falta ser coautor de artigo sobre os horrores cometidos pela Lava-Jato, defender a prisão de Moro e aclamar Lula como exemplo de honestidade a ser seguido. Parece que Satanás domina Brasília.

  13. E a denúncia sobre a empresa de exploração e pesquisa de minerais , verdadeira ação entre amigos da família Mendonça ,morreu na casca ? O silêncio do “O Antagonista “ ... como entender ? Ou a matéria , ninguém sabe ninguém viu e nem prestou atenção ?

  14. Sou evangélica e não estou nem um pouco satisfeita com essa indicação, que já estava planejada desde que Bolsonaro implicou com o Moro. Votei nele, mas a partir dos seis meses de governo me decepcionei cada vez mais. Flávio Bolsonaro abriu a porteira pra boiada do centrão e de outras palhaçadas assinadas por Bolsonaro pai. Fui muito inocente, mesmo, ao acreditar nas promessas de campanha que foram, uma a uma, quebradas.

  15. É isso aí Brasil...continuamos na mesma escravidão massacrante e agora com torcidas de bandidos aplaudindo a união do sistema político. Escravidão voluntária.

  16. Não há saber jurídico que suplante chamar o chefe de profeta. E mais um advogado no stf e "amigo" dos 2 ex agu que lá se encontram. Lembrem-se: advogado não defende a lei, defende o CLIENTE. Depois ainda tem gente que acha que nada é tão ruim que não pode PIORAR. A "temporada" de ministros no stf NÃO deveria ser AD ETERNUM. Máximo de 6 anos. Aí teríamos um tribunal descente.

  17. O Fernando Henrique começou, o Lula continuou e o Bozó jogou a pé de cal para jogar a credibilidade do STF no lixo, todos com o aval e benção de Senadores corruptos.

  18. Os Senadores certamente aprovarão o Terrivelmente Evangélico.Principalmente porque é contra a Lava Jato. o G.M. , Toffoli, Lewandowski estão adorando irão recebê-lo. de braços abertos. Mais um a favor da corrupção.

  19. Se é para pagar 50.000 reais por mês até o fim da vida da pessoa, seria melhor fazer uma seleção mais adequada: idade mínima, tempo mínimo como juíz, currículo impecável, falar outras línguas, cursos no exterior em universidades de primeira linha e etc. Veja se os bancos privados trabalham com indicações em pessoas que recebem esse salário. O Bananal acredita em milagres, agora vamos ter que sustentar o cara de vendedor de Bíblia pelo resto da existência dele!!! Não dá!!!!

  20. Capachão, só não é pior que o indicado anteriormente, que é suspeito de pagar outro pra fazer trabalhos de conclusão de mestrado.

    1. É da mesma degenerada laia. São variação da mesma cepa do Sociopata Genocida.

  21. A função de Ministro do STF deveria sofrer alterações que a inserissem no que prega a Constituição. As indicações não deveriam passar pelo crivo do Executivo e Legislativo para manter a INDEPENDÊNCIA ENTRE PODERES. Tampouco deveria ser um cargo vitalício, repleto de mordomias, pelo simples fato de que isso não seria JUSTO... As exigências de comprovado saber jurídico e de reputação ilibada deveriam ser respeitadas. O currículo de "JUIZ" do Supremo deveria conter experiência como julgador.

  22. Endossado por Gilmar, t Tofoli e centrão e indicado pelo pinochhio genocida a um cargo vitalício - sua alma já não é sua.

  23. os EXEMPLOS EXCECRÁVEIS que uma SOCIEDADE tão CORRUPTA é capaz de produzir! São DEGENERADOS MORAIS que IMPEDEM o BRASIL de AVANÇAR! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

  24. Alinhado com Gilmar Mendes, Toffolli e abençoado pelo presidente e relator da cpi do picadeiro? Acho bom o terrivelmente evangélico comprar um saquinho de sal grosso pra uns bons banhos de descarrego.

  25. O que o cara tem que fazer para ser nomeado para o STF não é fácil, mas um evangélico vender a alma ao diabo...Imagina o que vai sair dali a algum tempo. Com certeza a melhor corte constitucional do mundo: Jurisprudência de ocasião, crime por analogia, atipicidade do aborto para profissionais aborteiros. São 11 juízos, alguns procuradores e delegados ao mesmo tempo. Muito, muito jabuticaba! Merecemos.

    1. A balança do STF cada vez mais pende para um lado. Desequilíbrio total. Não suporto nem olhar pra cara desse cara: um fraco. E olha que sou evangélica!

    1. Afinal. O que tem a ver o c.. com as calças?

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