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Edição Semana 409

A mãe de todas as reformas

Liberalizar o comércio externo atua como catalisador para mudanças estruturais profundas

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Roberto Ellery
5 minutos de leitura 27.02.2026 03:30 comentários 2
A mãe de todas as reformas
Central de Recondicionamento de Computadores, no Distrito Federal. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Edmar Bacha é um dos economistas mais influentes do Brasil contemporâneo.

Suas contribuições vão além da academia. Bacha liderou a formulação do Plano Real, o mais bem-sucedido programa de estabilização da história brasileira, presidiu o BNDES e o IBGE, fundou alguns dos principais centros de pesquisa e departamentos de economia do país.

Raro entre economistas, Bacha domina a escrita com precisão e ironia, qualidades que transformam análises técnicas em textos memoráveis. Não por acaso, ele ocupa a cadeira nº 40 da Academia Brasileira de Letras.

Entre livros, artigos e contos econômicos, ele cunhou frases que entraram para o folclore da profissão.

Uma das mais famosas: “A abertura comercial é a mãe de todas as reformas”.

A metáfora captura a ideia de que liberalizar o comércio externo atua como catalisador para mudanças estruturais profundas.

Segundo Bacha, as importações permitem que produtores nacionais acessem tecnologias de ponta desenvolvidas no exterior e já incorporadas em máquinas, equipamentos e insumos.

A concorrência de empresas estrangeiras força os empresários locais a se organizarem e pressionarem governo e Congresso para aprovação de medidas que reduzam o infame Custo Brasil, conjunto de entraves logísticos, tributários e burocráticos que encarecem a produção.

Por fim, os consumidores, especialmente as famílias de renda média e baixa, ganham acesso a bens de qualidade superior a preços mais razoáveis.

Pesquisas científicas

Esses argumentos não são exóticos nem minoritários. Eles compõem o consenso da literatura econômica mainstream, no Brasil e no mundo.

Pesquisas empíricas sobre os efeitos da abertura comercial proliferam.

A mais recente, publicada em janeiro de 2026 na prestigiada Econometrica (da Econometric Society), é assinada por Rafael Dix-Carneiro (Duke), Pinelopi Goldberg e Costas Meghir (Yale) e Gabriel Ulyssea (University College London).

O estudo conclui que os ganhos de bem-estar e produtividade da abertura são significativamente maiores em economias com setor informal elevado, exatamente o caso brasileiro, onde a informalidade responde por cerca de 40% da força de trabalho.

Retrocedendo um pouco, em 2003, Pedro Ferreira (FGV) e José Luiz Rossi (Bid) já haviam demonstrado, na International Economic Review, que a abertura dos anos 1990 gerou ganhos substanciais de produtividade nas firmas brasileiras.

A onda de estudos que se seguiu ao protecionismo trumpista (2018-2020) reforçou o padrão de que tarifas protecionistas tendem a gerar perdas líquidas, com custos que superam os benefícios para setores protegidos.

Governo Lula

Infelizmente, as equipes econômicas do governo Lula, nos ministérios do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e da Fazenda, optaram por desconsiderar essa vasta evidência acumulada e reviver políticas que já fracassaram no passado.

Incomodados com o crescimento das importações de bens de capital, informática e telecomunicações, e pressionados pela necessidade de receita para adiar o inevitável ajuste fiscal pelo lado dos gastos, o governo elevou tarifas de mais de mil produtos (Resolução Gecex nº 852/2026). Itens essenciais como semicondutores, servidores, roteadores e componentes para data centers ficaram mais caros.

Quando o mundo atravessa uma revolução tecnológica impulsionada por IA, computação em nuvem e 5G/6G, o Brasil escolhe encarecer justamente os insumos críticos para construir infraestrutura digital competitiva.

Soberania tecnológica

A medida remete diretamente à desastrosa Política Nacional de Informática dos anos 1980, que, sob o pretexto de “soberania tecnológica”, impôs barreiras ao hardware estrangeiro e resultou em computadores nacionais obsoletos, caros e ineficientes, levando a um atraso de uma década no setor e impactando de forma negativa todas as cadeias produtivas.

A ala desenvolvimentista do governo argumenta que as tarifas estimularão a produção nacional. À luz da experiência brasileira (repetidas tentativas protecionistas nos anos 1950-80 e pós-2011) e da teoria econômica moderna, que destaca os ganhos de produtividade via aprendizado e escala, é difícil sustentar otimismo.

O mais provável é que a medida imponha novo freio ao crescimento da produtividade, já baixo no Brasil há mais de duas décadas. A Fazenda projeta 14 bilhões de reais adicionais de arrecadação, mas, como ocorreu com a taxação das “blusinhas” (onde a receita real ficou bem abaixo do esperado), a estimativa parece inflada.

Por falar nas blusinhas, as novas tarifas devem acelerar a erosão da popularidade do presidente Lula.

Reações intensas já dominam as redes sociais, especialmente entre influenciadores digitais, gamers e criadores de conteúdo, grupos jovens e conectados que sentem o impacto imediato no custo de placas de vídeo, periféricos e equipamentos de streaming.

O deputado Nikolas Ferreira postou um vídeo contundente criticando a medida e anunciou projeto de decreto legislativo para revogá-la.

O partido Novo seguiu na mesma linha, mobilizando sua base liberal. Não será surpresa se o governo recuar em breve, talvez alegando “interpretações equivocadas” ou acusando a oposição de disseminar fake news.

Ruim para a democracia, que exige que líderes assumam publicamente seus atos e erros, mas ao menos pode limitar os danos econômicos adicionais a um país que já patina em baixa produtividade e crescimento medíocre.

Roberto Ellery é economista

X: @RobertoElleryJr

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Roberto Ellery

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Comentários (2)

Carlos Renato Cardoso da Costa

2026-03-01 16:30:32

Pt sempre na contramão do progresso


Albino Clarel Bonomi

2026-02-27 08:59:54

ÉÉÉÉ...vai mal...


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Carlos Renato Cardoso da Costa

2026-03-01 16:30:32

Pt sempre na contramão do progresso


Albino Clarel Bonomi

2026-02-27 08:59:54

ÉÉÉÉ...vai mal...



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