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Uma pista recém-descoberta finalmente revelou por que o Sol ficou misteriosamente escuro por 70 anos

O descobridor "original" do fenômenos, o astrônomo Johannes Kepler, teria achado o fenômeno com instrumentos inadequados, o que impressionou os pesquisadores japoneses que analisaram seus registros

Por Júlio Nesi
14/04/2026
Em Geral
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sol

Imagem meramente ilustrativa. Reprodução: Unsplash / Timon Studler

Por quase 70 anos, entre 1645 e 1715, o Sol viveu um período de estranheza. A atividade magnética da estrela caiu de forma drástica, num fenômeno que os cientistas chamam de “Mínimo de Maunder”. O mistério persistiu por séculos, mas uma pista com mais de 400 anos de idade pode estar ajudando a desvendá-lo.

A chave está em Johannes Kepler. Astrônomo alemão famoso pelas suas leis do movimento planetário, ele registrou observações de manchas solares em 1607 usando uma câmera escura. Na época, ele acreditava estar documentando um trânsito de Mercúrio pela frente do Sol. Só que ele estava errado e essa confusão acabou sendo fundamental para a ciência.

Em 2024, pesquisadores da Universidade de Nagoya, no Japão, reanalisaram esses registros e concluíram que Kepler, na verdade, estava desenhando manchas solares. Com isso, esse esboço se tornou o mais antigo registro instrumental de manchas solares já feito, antecedendo em alguns anos as primeiras observações telescópicas, que datam de 1610.

Qual é a importância disso?

Para entender o “Mínimo de Maunder”, os cientistas precisam de dados sobre como o Sol se comportava antes dele. O problema é que os telescópios chegaram tarde demais, pouco antes do fenômeno começar. Por isso, dados alternativos, como os chamados “anéis de árvores”, eram as principais fontes disponíveis.

Os “anéis de árvores” guardam rastros da atividade solar por meio do carbono-14. Quando o Sol está mais ativo, o campo magnético solar bloqueia melhor os raios cósmicos galácticos, reduzindo o carbono-14 depositado nas plantas.

O problema é que esse método, sozinho, apresentava inconsistências: dependendo da fonte, o ciclo solar daquele período aparecia como extremamente curto, normal ou extremamente longo.

Foi aí que o registro de Kepler entrou como árbitro. A equipe da Universidade de Nagoya reconstruiu a posição das manchas no disco solar e determinou o momento exato da observação.

Com isso, concluíram que o esboço corresponde ao fim do Ciclo Solar -13, e não ao início do -14 como se supunha. Isso também permitiu estreitar a janela de transição entre os dois ciclos para o período entre 1607 e 1610.

Para entender mais sobre o fenômeno do “Mínimo de Maunder”, o físico Marcelo Souza comenta em um de seus vídeos:

O que esse ciclo diz sobre o escurecimento do Sol?

O resultado final aponta que, nesse período “pré-Mínimo”, o Sol apresentava um ciclo solar típico. Ou seja, o colapso da atividade solar que viria a seguir não estava anunciado nos dados anteriores, o que torna o fenômeno ainda mais intrigante para os pesquisadores.

Hisashi Hayakawa, pesquisador da Universidade de Nagoya e autor principal do estudo publicado no periódico científico The Astrophysical Journal Letters, destacou a relevância do achado. Segundo ele, o esboço de Kepler serve como prova da perspicácia científica do alemão, que conseguiu registrar dados relevantes mesmo sem o instrumental adequado da época.

Situar os registros de Kepler dentro das reconstruções mais amplas de atividade solar dá aos cientistas uma janela fundamental para interpretar as mudanças do Sol nesse período de transição entre os ciclos regulares e o “grande mínimo solar”.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Tags: astronomiacampo magnético solarCiclo SolarciênciaHisashi HayakawaJohannes KeplerMínimo de Maundersol
Júlio Nesi

Júlio Nesi

Jornalista alagoano formado pela UFAL, já atuei em produção de conteúdo digital para portais, rádio e redes sociais.

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