RuyGoiaba

Que saudade daquele bar horrível

20.08.21

Como paulistano da Vila Madalena — geralmente assintomático —, sempre achei que um dos traços distintivos dos meus queridos amigos cariocas era lamentar o fechamento de bares horríveis, coisa que em geral acontece uns 20 anos depois de a vigilância sanitária não ter tomado as providências cabíveis. O lugar X é uma pocilga (literalmente, no caso dos banheiros), comida e bebida são ruins e caras, os garçons te atendem mal (isso na hipótese de perceberem a sua presença), o próprio lugar está meio às moscas há anos graças a todas essas qualidades e, de bônus, ainda tem um frequentador no papel de voyeur dos clientes que vão ao mictório — mas basta anunciarem o fechamento para os cariocas virem com “oooh, meu Deus, que tristeza, é o FIM DE UMA ERA”.

De fato, às vezes interdição da vigilância sanitária é pouco: havia um lugar no Leblon que servia aos clientes a coisa mais hedionda e incomível já chamada de “pizza” em todos os tempos. Se os italianos não fossem um povo muito tolerante, teriam rompido relações ou, no mínimo, chamado seu embaixador no Brasil “para consultas”. Quando anunciaram o fechamento, vieram com o mesmo papo de “fim de uma era”, acrescentando que se tratava de um “reduto da boemia carioca nos anos 80” — o que só comprova que essa tal boemia carioca dos anos 80 estava entupida demais de pó para ter alguma noção de qualquer coisa.

O fato é que paguei a minha má língua paulistana: bastou anunciarem o suposto fechamento da Mercearia São Pedro, na supracitada Vila Madalena, para que minhas timelines nas redes virassem um muro das lamentações de posts sentimentais e poesia ruim sobre o lugar. Escrevi “suposto” porque há controvérsias: um dos sócios disse que vai fechar, mas o irmão dele, também sócio, negou. Diga-se, aliás, que nunca achei a Mercearia ruim: só superestimada, graças à turma de escritores (invariavelmente autocongratulatórios, geralmente medíocres) que transformou o lugar em point e permitiu aos seus donos vender por 15 reais cerveja meia-boca que você encontra em qualquer mercado por 6.

(A história não confirmada é que o bar e outros cinco sobrados vizinhos seriam demolidos para a construção de um prédio de luxo no bairro, o que me parece bastante lamentável: mas juro a vocês que, de tanto ler comentários na linha “é a força da grana que ergue e destrói coisas belas”, fiquei com ganas de pegar eu mesmo uma picareta, derrubar tudo — com os clientes dentro — e jogar sal nas ruínas, torcendo para que construam no lugar o arranha-céu de estilo dubaiano mais cafona e ostentatório possível. Felizmente, passa rápido. Fecha parêntese.)

Sou obrigado a reconhecer, contudo, que nossa relação afetiva com os bares ruins é mais ou menos igual à relação afetiva com o país: é uma porcaria, mas é a NOSSA porcaria — o cenário de muitos acontecimentos importantes nas nossas vidas lamentáveis. Antonio Candido escreveu que a literatura brasileira era “um galho de segunda ordem no jardim das musas”, mas acrescentou: “é ela, não outra, que nos exprime”. O que nos exprime, e muitas vezes nos espreme, não é o Harry’s Bar lá de Veneza: é a cerveja superfaturada no bar lotado da Vila Madalena, é a chanchada (com ou sem pornô), é aquele “quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha” do Bandido da Luz Vermelha no filme.

O Brasil é um pesadelo do qual estamos tentando acordar: nessas condições, qualquer bar é uma boia atirada ao náufrago. Só peço gentilmente que não escrevam na minha boia “você praça acho graça, você prédio acho tédio”: se eu me afogar, vocês hão de carregar essa culpa para o resto das suas vidas.

***

A GOIABICE DA SEMANA

Pensei em dar o troféu desta semana para os especialistas em Afeganistão que brotaram de repente nas redes sociais, principalmente aqueles que estão acreditando na conversa do “Talibã moderado”, Talibã paz e amor, Talibã com Carta ao Povo Afegão, Talibã fiscalmente responsável com câmbio flutuante e metas de inflação. Mas não teve jeito: o campeão foi, de novo, o glorioso Exército brasileiro e suas manobras ao som do tema de “Missão Impossível” para derrubar a casinha do Snoopy. Eu achava que seria difícil superar o ridículo daquele desfile de latas velhas, mas fico feliz em constatar que as Forças Armadas se empenham em bater os próprios recordes do modo mais criativo.

 

Reprodução/TV BrasilReprodução/TV BrasilExército em ação: ainda bem que Snoopy e Woodstock não ofereceram resistência

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  1. Magistral coluna. A intelectualidade brasileira é muito parecida com a engenharia brasileira, que produz Weg e Embraer, mas produz enorme massa de gente que está dirigindo Uber porque é o que merecem.

  2. Como bem disse o saudoso Joãozinho Trinta: "quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta de luxo."

  3. Boteko é um paraíso ! Principalmente se for aqueles tipo “pé-sujo”. Banheiro entupido , sem Luz, cachorro incomodando sob as mesas lambendo as migalhas , cerveja gelada , pastel de carne de 3 dias , também chamado de “Jesus-me -chama”, onde de todos são iguais , pobres ficam ricos, cornos ficam Garanhoes, analfabeto vira doutor , e vice-versas , pura expressão da Democracia, cérebros saem zerados , prontos para enfrentar o novo dia , após a inevitável ressaca.

  4. Enquanto a imprensa trabalha para demoralizar a direita, tem gente trabalhando para trazer do Talibã o terror do afegão. Enquanto partidos acenam ao terrorismo, a imprensa na sua grande maioria afronta a última barreira da sociedade as FA. O que sinto?! Uma mistura de ódio e pena! Viva Paulo Freire....

  5. Carioca não dá muita bola pra comida, quer ir à praia com um corpinho sarado. Restaurante estrelado no Rio dura pouco, o carioca tá sempre sem grana ou sem paciência pra ficar muito tempo sentado enchendo a barriga.

  6. Boteco mesmo, com o comidas Tops, bebidas como tem que ser ( cervejas geladas, caipirinhas ótimas, etc..) e o mais importante. , os DONOS nas mesas, falando com os clientes, atendendo, não deixando ninguém no vácuo.... chama-se QUINTAL DA MOOCA, o povo da Vila Madalena deveria aprender com o Chiquinho e o Didi.

  7. Em tempo, o desfilê do fumacê e a demoli ão da casinha do Snoopy foram obra da gloriosa Marinha do Brasil. Porém, isso não quer dizer que o exército que pariu Bozo seja menos ridículo.

  8. Na outra esquina no mesmo lado ficava o Porto Real acho, que chamávamos de Diagonal porque ficava em diagonal ao Real Astoria e Bacco's Bar. Bebíamos centenas de Chopps e brincávamos com o monte de biscoitos de cortiça que os garçons colocavam na mesa para controlar a quantidade bebida. Época boa.

  9. Pizzaria Guanabara! Frequentei muito depois de uma bela noitada. A pizza era mesmo uma merda, mas o chopp era bom. Servia para fechar a noite.

  10. 😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂 Não falem mal do nossos bares, cariocas ou paulistanos. Eles são nossos, e quando acabam, fingimos tristeza para ter do que reclamar.

  11. Continuando meu comenrio: o meu, nessitando usar o banheiro, disse assim, olhe pro sanitário, e pensei assim, eu não sei se caro nele ou elcaga em mim. Belíssimos botecos.

  12. Tenho grande amigo que mora em Mato Grosso. Quando morei frequentavam os chamados "pé sujo". Muito ruim, mas gostoso. Não como explicar essa contradição. Aposentei-me é convidei o amigo do MT pra me visitar. Levei o caro pra uma barraca de praia pé no chão. Bebemos, comemos e tudo muito bem. Ele, o meu, foi ao banheiro. Voltou com veia poética e disse-me assim Meu amigo, já andei por esse Brasil por o Brasil sem, ma nunca tinha num banheiro tão sujo assim. Precisando fazer uma necessida

  13. Frequentava um barzinho de punk, cuja cerveja era a famigerada Malte 90. Certa vez apareceu um skinhead querendo briga. Alguns queriam encher ele de porrada. Eu estava jogando truco numa mesa, observando. Quando o cabeça raspada chamou a gente de "frouxo" (na verdade de outra coisa), tirou do sobretudo uma barata, mastigou na nossa frente, como uma virtude dos fortes. Eu quase vomitei. Depois comecei a namorar uma patricinha e deixei de frequentar. Quando passei em frente e vi fechado, fiquei 😔

    1. Você já era abobado desde então jogar truco? Vai ler! Vai carpir; queria ver o seu punk carpindo algodão das 6 as 6

  14. Que a Mercearia São Pedro e outros bares sujinhos virem subnitrato de pó de peido. Todo o poder a uma Vigilância Sanitária forte e atuante!!!

  15. Desculpe Goiaba. Adoro seu estilo, mas não avacalha. Meu pai, engenheiro do exercito brasileiro, construiu mais de 40 pontes e estradas no Brasil, com seus operarios-soldados. Desbravou sertoes abrindo estradas e construindo ponies do Sul ate o Centro-Oeste e , admirador de Rondon , defendeu o principio " morrer se preciso for, matar um indio ...nunca". Mais historia, menos piada!

    1. Dona Maria, sou de família de tios, primos e avós militares. Todos formados, sérios e ciosos de suas responsabilidades. E todos (ao menos os que estão vivos) acharam patético o desfile de blindados promovidos pelos militares que decidiram se meter, mais uma vez, na política nacional.

    2. Mais humor por favor.😀😀😀😀😀😀😀😀😀😀😀😀

    3. Os militares não fizeram mais q a obrigação, de servidores q são, né? Menos estado e menos gente chata!

    1. Gosto do Snoopy quando ele luta com o gato do vizinho de 150 Kilos

  16. Finalmente alguém admitindo que não sabe nada sobre o Afeganistão e talibã , que alivio. Espero que o Mário Sabino leia sua coluna.

  17. Não há Taliban moderado. Nós temos o nosso. Vc imagina a quem me refiro. Bom final de semana. Vc é xará do meu marido que foi sempre um frequentador de todos os bares. Até que se aquetou.

  18. Pois é… andei lendo artigos de especialistas em Afeganistão, fiquei mais perdida que antes, muitas diferenças de argumentos para defender ou condenar a atitude dos Estados Unidos.

  19. O carioca adora parecer "muderno". E faz parte do papel frequentar qualquer espelunca "famosa". Adora comer em pé, ser mal servido e beber chop quente.

  20. E o pior é isso: os traques qye explodiram na casinha do snoopy não derrubariam nem o banheiro em ruínas dos piores botequins. Realmente, a sorte é que as Forças não têm o paoel constitucional de moderadora de conflitos. Caso contrário, ficaríamos esperando Godot.

  21. Nos anos 90, havia um bar surreal em Natal. Chamava-se "Bar Pharmacia", reduto dos alunos da UFRN. A música era de primeira: um trio de jazz ao vivo. O restante era bem simples: mesinhas sobre um chão de terra batida. Uma vez, o garçom demorou a chegar e resolvi ir à cozinha pedir gelo. O garçom tirou uma grande barra do freezer, jogou no chão enlameado e, sem o menor pudor, pegou uns pedaços partidos de gelo junto com a sujeira do chão e jogou dentro do meu copo. Eu tive um ataque de riso, kkk!

    1. Roberto, no caso, não foi questão de tratamento, pois eu pedi o gelo educadamente. Foi uma questão de condições de higiene mínimas, kkk! O garçom era tão sem noção que fez isso na minha frente, e ainda bem, senão eu teria bebido lama junto com o gelo! Eu voltei morrendo de rir do absurdo, pagamos a conta e fomos embora. Alguns meses depois, passamos na frente e havia uma faixa: "Fechado pela Vigilância sanitária". Razões não faltaram, claro, mas a música deixou saudades, kkk!

    2. Haha, interessante a coincidência! Na década de 80 tinha um bar em Curitiba apelidado de “Farmacinha” próximo ao campus do Centro Politécnico da UFPR. Mas era porque vendiam cachaças tidas como “medicinais”.

  22. O bananal é um pesadelo interminável, tá na hora dos contribuintes que restaram, pois a maioria não paga ou não quer pagar tributos, demitir essa corja toda, contratar um CEO e fazer uma reestruturação de cargos e funções, funciona no mundo corporativo, deve funcionar nesse bar horrível chamado bananal

    1. ...ou então entregar logo essa bagaça pra Noruega, Suécia...eles ñ tem problemas mesmo. Ñ sei se terão estômago pra aguentar

  23. como disse outro dia o Claudio Dantas : era melhor quando não viamos nem sabiamos desses treinamentos militares.. seria bom se soubessemos o preço da casinha "explodida"

  24. cerveja que vale 6 vendida por 15, Humm Ricardo Barros vai deixar Maringá com sua turma e fazer um contorno lindo na vila madá.

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