Os segredos da Faria Lima
Mercados são feitos por pessoas, que estabelecem alianças, lealdades, rivalidades, pactos, favores, proteções recíprocas e zonas de influência
A Lava Jato iluminou Brasília. Quem ilumina a Faria Lima?
Durante décadas, o Brasil aprendeu a desconfiar de Brasília.
Escândalo após escândalo, o país acostumou-se a enxergar a política como o grande palco dos vícios nacionais. Mensalão, petrolão, Lava Jato, emendas, loteamento de cargos, tráfico de influência. A impressão que ficou foi simples: o problema do Brasil estava no Estado.
Mas talvez essa seja apenas metade da história.
Toda sociedade possui centros de poder.
E todo centro de poder produz zonas de silêncio.
Brasília produz as suas.
Os tribunais produzem as suas.
As universidades produzem as suas.
A Faria Lima também.
A diferença é que os segredos da política costumam ser investigados por CPIs, Ministérios Públicos, tribunais e jornalistas.
Os segredos do mercado frequentemente permanecem protegidos por uma combinação mais sofisticada: linguagem técnica, reputação, prestígio social e uma crença quase religiosa na superioridade moral da eficiência econômica.
Criou-se entre nós uma curiosa ficção republicana.
A de que a política seria o lugar dos interesses, enquanto o mercado seria o lugar da racionalidade.
Como se ministros fossem humanos e banqueiros, não.
Como se políticos fossem movidos por ambições e financistas apenas por modelos matemáticos.
A realidade é menos confortável.
Mercados são feitos por pessoas.
E pessoas estabelecem alianças, lealdades, rivalidades, pactos, favores, proteções recíprocas e zonas de influência.
Nada disso é necessariamente ilegal.
Mas tudo isso é poder.
E o poder raramente gosta de ser observado.
Talvez por isso determinados episódios envolvendo figuras centrais do sistema financeiro despertem tamanho interesse público. Não porque revelem, necessariamente, crimes ou irregularidades. Mas porque sugerem algo mais profundo: a possibilidade de enxergar os mecanismos invisíveis pelos quais uma elite se organiza.
A Lava Jato revelou muito sobre os bastidores da política.
Mas revelou relativamente pouco sobre os bastidores do capital financeiro.
Sabemos bastante sobre como funcionam partidos.
Sabemos menos sobre como funcionam as redes de influência econômica.
Quem abre portas?
Quem fecha portas?
Quem decide quem sobe?
Quem define quem cai?
Quem distribui confiança?
Quem distribui silêncio?
Essas perguntas raramente aparecem nos relatórios anuais.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu ensinou que o poder mais eficiente é aquele que se apresenta como natural. Quanto menos percebemos seus mecanismos, mais legítimos eles parecem.
Talvez seja exatamente isso que torna a Faria Lima tão fascinante.
Ela não governa.
Não legisla.
Não julga.
Mas influencia.
E influencia muito.
Suas avaliações movem bilhões.
Suas opiniões afetam governos.
Suas expectativas alteram mercados.
Suas narrativas moldam decisões públicas.
Entretanto, quanto maior o poder, maior deve ser a disposição para o escrutínio.
Uma democracia madura não vigia apenas políticos.
Vigia também suas elites econômicas.
Porque a transparência não é uma exigência exclusiva do Estado.
É uma exigência republicana.
A pergunta que permanece não é se existem segredos na Faria Lima.
Toda elite possui os seus.
A verdadeira pergunta é outra: quanto da luz pública está efetivamente chegando aos lugares onde o poder econômico realmente se organiza?
E, sobretudo, quem está disposto a acender essa luz?
Maristela Basso é professora de direito internacional na USP
Instagram: @maristelabasso.adv
Linkedin: Maristela Basso Advogados
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