O mito do PT grande
Tire Lula dessa história e o que sobra é um partido de nove por cento do Brasil. Quase nanico
O PT é um partido pequeno. Você leu certo, caro leitor: pequeno.
Não é provocação, é pura aritmética.
Os números do PT real, o PT de carne, osso e diretório, contam uma história que ninguém presta atenção: o partido que assombra o imaginário do brasileiro há quarenta anos hoje ocupa menos de um décimo do poder político do país.
Vamos aos fatos e ao tamanho real do PT.
O Brasil tem 5.569 municípios. O PT governa 252. Isso dá 4,5% das prefeituras. Quatro vírgula cinco.
O PSD de Gilberto Kassab, um partido sem rosto, sem mito e sem história cinematográfica, elegeu 882. O MDB, 856. O PL, 512. Até o Republicanos, com 436, governa praticamente o dobro de cidades que o partido do presidente da República.
Capitais? O PT tem uma. Uma! Fortaleza, conquistada no segundo turno por margem apertada. O MDB tem cinco. O PSD tem cinco. O PL tem quatro.
O partido que está no Planalto pela sexta vez tem o mesmo número de capitais que o Avante, por exemplo.
Vereadores: 3.116 eleitos em 2024, algo como 5,4% das cadeiras do país. O MDB sozinho elegeu 8.109. Para cada vereador petista, existem quase três emedebistas.
Câmara dos Deputados: 67 deputados em 513 cadeiras. Treze por cento.
Senado: 9 senadores em 81. Onze por cento.
Governos estaduais: 4 em 27. Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. Quatorze vírgula oito por cento, todos no mesmo quadrante do mapa, o Nordeste.
Faça a média simples dessas cinco frentes de poder: prefeituras, câmaras municipais, Câmara, Senado e governos estaduais. O resultado fecha na casa dos 9%. Nove por cento do poder político brasileiro. Esse é o PT sem Lula.
O partido que encolheu 60% nos últimos 12 anos.
Em 2012, no auge do ciclo lulista, o PT elegeu 635 prefeitos. Em 2024, 252. Uma queda de 60% em doze anos. Com a máquina federal nas mãos. Com Lula no Planalto fazendo campanha. Com o segundo maior fundo eleitoral do país: 619,8 milhões de reais de dinheiro público, atrás apenas do PL.
Repare na conta: 619,8 milhões de reais para eleger 252 prefeitos e uma capital em 2024. O nono lugar no ranking de prefeituras com o segundo orçamento de campanha do Brasil.
Em São Paulo, o partido despejou 44 milhões de reais da verba partidária na candidatura de Guilherme Boulos, que nem do PT era. Resultado: 40,58% contra 59,42% de Ricardo Nunes.
O cinturão vermelho do ABC, berço do partido, certidão de nascimento do lulismo, foi desidratado município a município.
Na Câmara, mesma curva. Em 2002, o PT elegeu 91 deputados federais e foi a maior bancada do país. Hoje tem 67. Um terço da bancada evaporou em duas décadas.
Em votos: nas eleições municipais de 2024, o PT recebeu 8,9 milhões de votos para prefeito. Sexto lugar. Atrás de PL, PSD, MDB, União Brasil e PP. O partido do presidente da República perdeu em votos para o partido de Kassab e para o espólio da Arena.
Agora compare com um número: 60.345.999. Foi a votação de Lula no segundo turno de 2022.
Lula sozinho vale quase sete vezes o PT inteiro.
Essa é a fotografia que explica tudo. O PT parece grande porque Lula ocupa o espaço que o partido não ocupa. Tire Lula dessa história e o que sobra é um partido de nove por cento do Brasil. Quase nanico.
O Senado: o raio-x da fraqueza
Se há um lugar onde a anemia petista fica exposta sem retoque, é o Senado.
O PT tem 9 senadores. Parece razoável. Não é. Seis encerram o mandato agora, em 2026. E todos sabemos, e o Planalto sabe melhor que ninguém: a leitura corrente é de que o próximo Congresso tende a ser ainda mais conservador que o atual. O PT mesmo já sabe que irá perder mais espaço.
Faça o inventário, estado por estado.
Jaques Wagner, na Bahia, e Humberto Costa, em Pernambuco, têm reeleição bem encaminhada. São os dois únicos cenários confortáveis.
O resto é capenga. Paulo Paim, no Rio Grande do Sul, depende de arranjos locais num estado que virou à direita. Rogério Carvalho, em Sergipe, vive de transferência de voto. Gleisi Hoffmann enfrenta no Paraná uma campanha que os próprios aliados descrevem como dura, num estado onde o bolsonarismo elegeu seu senador mais votado. Fabiano Contarato, no Espírito Santo, e Randolfe Rodrigues, no Amapá, aparecem com chance alta de derrota no diagnóstico do próprio PT. Fátima Bezerra, no Rio Grande do Norte, é incógnita, com risco real de nem entrar na disputa.
E São Paulo. O maior colégio eleitoral do planeta lulista, 34 milhões de eleitores. Se Haddad não for candidato, o PT não tem nome. Nenhum.
A ponto de Simone Tebet, do PSB, circular nas conversas como solução da centro-esquerda no estado. Quando o partido do presidente precisa importar candidata de outro partido para o maior estado do país, o problema é existencial.
Em Minas, o segundo colégio eleitoral, há Marília Campos, prefeita reeleita de Contagem com votação expressiva. Mas o que se ouve de aliados dela é que o próprio Lula trabalha contra, preferindo arranjos com o Centrão mineiro.
O partido tem um ativo competitivo no segundo maior estado do Brasil e o líder sabota. Isso diz menos sobre Minas e mais sobre o que o PT virou: um instrumento da conveniência eleitoral de um homem só.
Projete o cenário médio: o PT pode sair de 9 senadores para 5 ou 6. Numa Casa de 81 cadeiras, isso é estatística de partido nanico. Se Lula ganhar a eleição, estará sozinho.
O partido que envelheceu
Há um número que vale mais que todos os outros deste artigo. Guarde-o.
Em 2010, 25,46% dos filiados do PT tinham até 34 anos. Hoje, 8,32%.
Um em cada quatro petistas era jovem.
Hoje, um em cada doze.
A queda foi de 17 pontos percentuais em quatorze anos, quase o dobro da queda média do sistema partidário brasileiro no mesmo período.
Enquanto isso, o PL, partido de Bolsonaro, foi na direção contrária: subiu a fatia de filiados com menos de 34 anos de 7,48% para 9,1% entre 2022 e 2024. O partido da juventude operária de 1980 hoje tem proporcionalmente menos jovens que o partido de Valdemar Costa Neto.
E a sangria continua. Entre abril de 2025 e abril de 2026, o PT perdeu mais de 10,7 mil filiados, figurando entre as dez legendas que mais encolheram. Nos primeiros quatro meses deste ano, o ritmo é de 25 filiados a menos por dia. Por dia. Enquanto o PL caminha para um milhão de filiados, crescendo 5,4% em doze meses.
A explicação está na cara de quem comanda.
Olhe a mesa de decisão do partido: Lula, 80 anos. José Dirceu, 80. Gleisi Hoffmann, sucedida na presidência por Edinho Silva, da geração de Araraquara dos anos 90. Os nomes que mandam no PT de 2026 são os mesmos que mandavam no PT de 1996. Na última eleição interna, apenas 4,3% dos candidatos aos diretórios tinham menos de 30 anos.
O partido não formou sucessores porque o seu líder supremo nunca permitiu.
Toda liderança que ameaçou crescer foi podada, transferida, fritada. Até mesmo o Haddad foi fritado dentro do partido, pela agremiação e pelo próprio Lula, que sempre o jogou para a fogueira.
E aqui entra a variável que ninguém controla: a idade. Lula tem 80 anos e completa 81 dias antes de uma suposta posse em 2027.
O partido inteiro está pendurado num ativo octogenário, sem plano B, sem bancada de reposição, sem juventude no estoque.
Não existe gestão de risco mais negligente na política brasileira.
O espelho tucano
Para saber o futuro do PT, basta olhar o passado recente do PSDB.
Em 1998, no auge de FHC, os tucanos elegeram 99 deputados federais, 7 governadores e tinham 16 senadores. Era o partido mais poderoso do país, com presidente reeleito em primeiro turno.
Vinte e quatro anos depois, em 2022, o PSDB elegeu 13 deputados, zero senadores e nem candidato a presidente lançou. Em 2024, fez a pior eleição municipal da sua história. Perdeu Eduardo Leite e Raquel Lyra para o PSD, perdeu todas as capitais e passou os últimos dois anos mendigando fusão: tentou Podemos, tentou Republicanos, tentou MDB, tentou Solidariedade.
De 99 deputados para 13 é uma queda de 87%. O partido de FHC virou linha de balanço patrimonial na calculadora de Kassab.
O que aconteceu com o PSDB?
Exatamente o que está acontecendo com o PT.
O partido confundiu o tamanho do líder com o próprio tamanho. Não formou sucessão. Envelheceu nas mesmas mãos: Aécio, Alckmin, Serra, os mesmos nomes por 25 anos, disputando entre si o espólio em vez de renovar o estoque. Quando FHC saiu de cena, descobriu-se que o eleitor era de FHC, não do tucanato.
O PT é o novo PSDB. Com um agravante: o PSDB pelo menos tinha governadores de São Paulo para administrar a decadência por vinte anos.
O PT não governa nenhum estado do Sul, do Sudeste ou do Centro-Oeste. Sua geografia de poder cabe inteira no Nordeste, e mesmo lá os números locais minguam: nas prefeituras nordestinas, o Centrão domina, e PT, PDT e PSB somados não alcançam 20% dos prefeitos da região.
A conta final
Recapitule os números: 4,5% das prefeituras, 3,8% das capitais, 5,4% dos vereadores, 13% da Câmara, 11% do Senado (com seis dos nove mandatos em risco), 14,8% dos governos estaduais (todos numa única região), 8,32% de filiados jovens.
Queda de 60% nas prefeituras desde o auge.
Queda de 26% na bancada federal desde 2002.
Sexto lugar em votos municipais.
Um líder de 80 anos. Nenhum sucessor.
Some tudo e a conclusão é uma só: o PT gigante é um mito.
Existe um Lula gigante alugando a sua cara para um partido pequeno.
O dia em que Lula se for, e ele irá: o partido vai descobrir que seu prédio está totalmente vazio.
O PSDB pós-FHC levou vinte anos para virar notinha de rodapé. O PT pós-Lula deve fazer o trajeto mais rápido, porque parte de uma base local menor, de uma militância mais velha e de uma marca mais desgastada.
Como resume um amigo ex-petista, com a honestidade que só a intimidade permite: o PT é igual a pé de manga.
Não cresce nada embaixo.
Roberto Reis é estrategista eleitoral
X: @RobertoReis
Instagram: robertor.eis
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