Flávio ganha um trono, mas não um reino
Cheiro de churrasquinho levou bolsonaristas a deixarem a Arena Pacaembu enquanto o senador discursava
A Convenção do Partido Liberal (PL), realizada no sábado, 25, em São Paulo, foi toda pensada para estabelecer a hegemonia do senador Flávio Bolsonaro sobre o bolsonarismo.
Logo no início, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro ganhou uma cadeira no centro do palco, com sua esposa Fernanda sentada ao seu lado.
Todos os discursos ocorreram no palco à sua frente, como se fossem estripulias para agradar o rei.
Mas, enquanto Flávio ainda discursava, perto das 2 horas da tarde, um cheiro de churrasquinho começou a entrar pelas frestas do recinto, convidando as pessoas a se reunirem nas mesas de madeira do lado de fora da Arena Pacaembu.
Grupos de bolsonaristas que foram em comitivas de ônibus então começaram a deixar o local.
A devoção ao novo rei mostrou-se mais fraca que os roncos que vinham das barrigas.
Flávio Bolsonaro pode ter sido indicado pelo pai, mas não herdou o seu carisma, nem o seu poder.
Família
Além de coroar Flávio, a Convenção buscou valorizar a família Bolsonaro.
Rogéria Bolsonaro foi apresentada inicialmente como "mãe do Jair", mas logo o apresentador corrigiu para "mãe do Flávio".
Discursaram pelo telão Carlos, Eduardo e Michelle Bolsonaro.
Jair Renan ficou por alguns minutos no palco.
Jair Bolsonaro apareceu em um vídeo feito por inteligência artificial.
Os dois filhos de Eduardo Bolsonaro, que vivem nos Estados Unidos, gravaram um vídeo dizendo que Flávio será o próximo presidente e que eles poderão voltar ao Brasil.
As falas das crianças levaram muitas mulheres às lágrimas na plateia.
A dentista Fernanda Bolsonaro, esposa de Flávio, discursou nervosa lendo o texto na tela do celular.
Milei
Fora da família, quem empolgou foi o presidente da Argentina, Javier Milei.
Ainda que o público não entendesse a maior parte de suas falas, centradas na economia, vibrava-se toda vez que o argentino soltava o seu bordão "Viva la libertad, carajo" ou dizia que os socialistas são todos ladrões.
A legenda com tradução das falas do argentino andou rápido demais, e terminou quando Milei ainda estava na metade de sua participação.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, André do Prado, pré-candidato do PL ao Senado por São Paulo, proferiram discursos em tom agressivo contra a direita que não apoia Flávio.
Mas, sendo Nunes e Prado bolsonaristas recentes, sem vínculos familiares com o clã, foram ignorados pela plateia.
A convenção do PL deixou claro que o bolsonarismo é um movimento de massa, comandado por uma família.
O problema é que, nas monarquias familiares, as transferências de poder nem sempre ocorrem de maneira pacífica.
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