O vilão Abel Ferreira
O treinador mais vitorioso da história do Palmeiras enfim admitiu que não é o melhor exemplo, porque odeia perder
Ricardo III, de Shakespeare, começa com o protagonista assumindo que seu destino é ser um vilão.
"Já que não posso provar ser um amante para desfrutar destes belos e eloquentes dias, estou determinado a provar ser um vilão, e odiar os prazeres ociosos destes dias", diz Ricardo, que terminará a peça oferecendo seu reino por um cavalo antes de morrer no campo de batalha.
Após a última vitória sobre o São Paulo, no Campeonato Paulista, o treinador Abel Ferreira, do Palmeiras, disse que "às vezes quer ser o Pateta", a personagem da Disney que fica transtornada ao dirigir seu carro em um episódio clássico.
O técnico português falava após ter sido expulso de campo mais uma vez, na partida anterior, contra o Fluminense, pelo Campeonato Brasileiro, e resolveu admitir seu lado vilão.
"Estou a competir"
"Chegamos a casa às 3h, 4h da manhã [após alguns jogos]. Como disse, não gosto, não gostava, não quero. Sinto falta, privação de sono. E por isso é que muitas vezes eu sou chato, irritado, porque, numa semana onde tens quatro jogos ou três jogos, são três noites quase sem dormir, porque eu não consigo dormir a seguir aos jogos", explicou-se, seguindo:
"Isso, depois, reflete-se naquilo que são os meus comportamentos, sobretudo em competição (...) Eu já estou aqui há tempo suficiente no Brasil e eu já achava que vocês me conheciam o suficiente, mas não me conhecem. Mas eu vou vos dizer, porque eu quero mesmo falar sobre isso. Um dos meus ídolos vocês sabem quem é, que é o Ayrton Senna. E naquilo que tem que ver com fora da competição, foi dos melhores corações que eu já vi. Mas, a competir, bateu em pilotos e ganhou um campeonato de mundo a meter o cotovelo na cara do [Alain} Prost. Portanto não me venham falar. É competir. E eu não sou um exemplo, estou a competir."
Abel acrescentou:
"Eu não estou na igreja, não estou fora, estou a competir. Muitas vezes, não sou o melhor exemplo. Sabem aquele bonequinho da Disney, o Pateta? Lembra-se do Pateta, que era um gajo espetacular, mas, quando pegava no carro, se transformava? Viram? Eu não sou... Às vezes até sou Pateta, mas é... Quando quero ser Pateta, sou pateta. Mas é o que me acontece quando eu estou a competir. Por isso, é que eu vos digo, já vos disse várias vezes, que eu odeio perder. Mas é contra o meu pai, a minha mãe, as minhas filhas. Eu odeio perder. Às vezes chateio-me com os meus adjuntos quando estou a jogar padel, porque a bola foi fora, foi dentro. É a competir. Eu vou repetir: as vezes que forem necessárias, a competir, não sou o melhor exemplo. Modéstia à parte, quando estou fora da competição, revejo-me em tudo aquilo que o Ayrton Senna faz e fazia, por ele e pelos outros."
Batatas
Esse ódio pela derrota contagia os subordinados de Abel.
O auxiliar técnico João Martins, que substituiu o suspenso treinador do Palmeiras na derrota contra o Vasco neste Brasileirão, deixou a partida em São Januário dizendo que o campo era tão ruim que "parece que plantaram batatas".
O comentário foi, ao mesmo tempo, uma demonstração de irritação pela derrota e uma reação às críticas ao gramado sintético do Allianz Parque, do Palmeiras. A grama artificial permite que o estádio seja usado para shows com mais frequência do que, por exemplo, o Morumbis.
Martins já tinha dito que o "sistema" atuava conta seu time, em 2023, ano em que o Palmeiras conquistou seu segundo Campeonato Brasileiro consecutivo.
Reclamações
O sistema não parece estar atuando tão bem contra o Palmeiras, mas Abel segue reclamando.
Na quarta-feira, 18, após a vitória contra o Botafogo por 2 a 1, o treinador voltou a falar, pela terceira entrevista coletiva seguida, na partida contra o São Paulo em que o Palmeiras foi beneficiado com a não marcação de um pênalti evidente e acabou virando o jogo para 3 a 2.
Na percepção de Abel, a arbitragem nacional se virou contra o Palmeiras após aquele erro evidente. Desde então, ele tenta trazê-la de volta para o lado de seu time.
"Mergulhem, pensamentos, até minha alma", diz o Ricardo de Shakespeare ao ver alguém se aproximando durante seu monólogo inicial. Já Abel não faz questão de esconder mais nada.
Rodolfo Borges é jornalista
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