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Edição Semana 414

A perplexidade é só o começo

Escândalos recorrentes no Brasil nos impelem a reconstruir os critérios pelos quais as respostas podem voltar a fazer sentido

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Dennys Xavier
6 minutos de leitura 03.04.2026 03:30 comentários 6
A perplexidade é só o começo
Brasileiros apáticos. Inteligência artificial Gemini
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Certas palavras não descrevem apenas estados mentais, mas situações históricas inteiras. Aporia é uma delas.

Trata-se de um daqueles termos em que a língua grega antiga preservou, com rara precisão, uma experiência espiritual profunda: a consciência de estar diante de um impasse cuja solução não depende apenas de informação adicional, mas de uma reconfiguração do próprio horizonte de compreensão.

A palavra ἀπορία (aporía) nasce da junção do prefixo privativo a- com póros.

Póros, em grego, significa passagem, travessia, recurso, meio de acesso, expediente, via possível entre obstáculos, saída (transpiramos pelos poros!).

Em Homero, o termo aparece ligado à ideia de caminho navegável, de rota praticável no mar incerto. Nos filósofos, passa a designar também o expediente intelectual que permite sair de uma dificuldade argumentativa.

Assim, aporía é … perplexidade.

Não se trata apenas de ignorância pura e simples. Trata-se mais da percepção de que os caminhos disponíveis deixaram de conduzir adiante.

É por isso que a tradição socrática faz da aporia um método, e não um acidente. Nos primeiros diálogos platônicos, aqueles que marcam o início do pensamento do ateniense, como o Laches e o Eutífron, o percurso da investigação conduz repetidamente a esse ponto de suspensão em que as definições se desfazem.

As convicções herdadas revelam-se inconsistentes e o interlocutor percebe que aquilo que julgava saber era apenas opinião.

Sócrates, personagem/protagonista daqueles diálogos, não oferece respostas finais. Ele produz deslocamentos de consciência escorados no reconhecimento de que não se sabe.

A aporia é o momento em que o logos interrompe a complacência do hábito. Como observei no livro Como Platão falava de filosofia, o socratismo não ensina conteúdos, mas instala tensões intelectuais que tornam impossível regressar à ingenuidade anterior.

Essa experiência tem um caráter paradoxal. A aporia é um bloqueio, mas também um início. Ela marca o limite da dóxa (opinião) e inaugura a possibilidade da epistēmē (do conhecimento, da ciência).

Por isso, Aristóteles, na Metafísica, afirmará que a investigação filosófica começa pela aporia, pois só investiga verdadeiramente quem percebe que não sabe por onde avançar.

A perplexidade/aporia, então, não é um defeito do pensamento. É a sua condição de honestidade.

Quando deslocamos esse conceito da esfera estritamente dialógica para a esfera histórica, ele adquire uma densidade ainda mais inquietante.

Uma sociedade entra em estado de aporia quando seus instrumentos normativos continuam existindo formalmente, mas deixam de produzir orientação real; quando a linguagem política permanece ativa, mas perde capacidade de significar; quando as instituições subsistem, mas já não oferecem travessia.

Escândalos recorrentes

Aqui dou um salto…

Pois é nesse sentido que a sucessão contínua de escândalos no Brasil não deve ser compreendida apenas como fenômeno jurídico ou administrativo.

O escândalo recorrente produz algo mais profundo do que indignação moral episódica. Ele dissolve lentamente a inteligibilidade do espaço público.

Cada novo episódio acrescenta um grau de incerteza à relação entre lei e poder, entre representação e decisão, entre responsabilidade e autoridade.

Há momentos históricos em que o problema consiste em descobrir a verdade de um fato. Há outros em que a própria possibilidade de distinguir verdade e versão começa a enfraquecer. Nesse segundo caso, instala-se uma aporia política.

O cidadão continua participando da vida institucional, continua votando, debatendo, reagindo, mas o horizonte de confiança que sustentava essas práticas torna-se progressivamente rarefeito.

A experiência pública passa a ser atravessada por uma sensação difusa de improcedência estrutural. Ficamos todos atônitos, entorpecidos.

Essa sensação não é nova na história das civilizações.

A hipertrofia do Estado e a atrofia da responsabilidade pessoal caminham juntas porque ambas derivam da mesma erosão da consciência de limite.

Neste quadro, a sociedade perde a capacidade de reconhecer seus próprios fundamentos e continua operando mecanicamente, sem orientação interior.

Mises

Ludwig von Mises, um dos mais destacados membros da assim Escola Austríaca de economia, mostrou que uma ordem social perde racionalidade quando os sinais que orientam a decisão deixam de expressar informações reais sobre os processos que deveriam regular.

Uma economia sem cálculo não consegue coordenar recursos; uma política sem inteligibilidade não consegue coordenar expectativas tangíveis.

É nesse ponto que a sucessão de escândalos deixa de ser apenas uma patologia administrativa e passa a funcionar como sintoma epistemológico.

A repetição contínua de crises morais sem resolução proporcional produz uma espécie de anestesia cívica. A indignação não mobiliza, a esperança não organiza, a crítica não transforma.

Forma-se um campo de suspensão em que todos percebem a gravidade dos fatos, mas poucos acreditam na possibilidade de reordenar o sistema que os produz. Caímos abatidos e sufocados pela incapacidade de nos indignarmos mais e mais.

A tradição liberal sempre entendeu que a liberdade depende menos de boas intenções do que de instituições inteligíveis.

A ordem livre só se sustenta quando as regras gerais permanecem previsíveis o suficiente para orientar a ação individual.

Quando essa previsibilidade se dissolve, não surge apenas instabilidade administrativa. Surge desorientação civilizacional grave.

A aporia brasileira contemporânea não reside apenas nos escândalos em si, mas na dificuldade crescente de reconhecer caminhos de superação institucional que não impliquem novos ciclos de desconfiança.

Nas próximas eleições presidenciais, a preço de hoje, quando escrevo, o brasileiro está condenado a escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro… coitado.

A sociedade talvez perceba que algo está errado, mas não identifica com clareza o ponto de intervenção capaz de restaurar a coerência entre lei, poder e responsabilidade.

Sócrates aceitava a aporia porque sabia que ela era condição da filosofia.

Uma nação, porém, não pode permanecer indefinidamente nesse estado sem pagar um preço histórico elevado. A perplexidade prolongada tende a gerar ou apatia ou radicalização, e ambas são formas distintas de abandono do logos político.

Talvez por isso a tarefa mais urgente, neste momento, não seja produzir respostas rápidas, mas reconstruir os critérios pelos quais as respostas podem voltar a fazer sentido.

Só a filosofia pode fazer isso. Só a vida refletida com seriedade.

A aporia, quando reconhecida, é um começo. Ainda há tempo.

Dennys Xavier é escritor, tradutor e PhD em Filosofia

X: prof_dennys

Instagram: prof.dennysxavier

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Comentários (6)

André Miguel Fegyveres

2026-04-07 22:39:23

Belo texto, inspirador Professor Dennis!


André Miguel Fegyveres

2026-04-07 22:31:27

Sob o PT o Brasil tornou se um antro de bandidos corruptos. Em todos órgãos, poderes e instâncias. No Judiciário, No Legislativo e no Executivo. Nosso presidente é um ser abominável, ex-presidiário, corrupto até as raízes dos cabelos. Só pensa em usufruir do poder. Não tem uma gota de patriotismo. É um traidor da pátria e contaminou todos os órgãos públicos. Sempre espalhando improbidade, falta total de compostura, uma vergonha. No STF, nomeou mais de 70% dos seus membros, e todos são gratos a ele, manobrando e exercendo seus cargos para lamber os seus pés. Vejam por exemplo a votação contra a prorrogação da CPMI do INSS, de 10 juízes, 8 foram contra a prorrogação. Nosso país é inviável. Não existe democracia, Lula comprou nossa Democracia com o nosso próprio dinheiro roubado no Mensalão, no Petrolão, no INSS, no BNDES, nos Correios, nas estatais etc, etc, etc...Triste! Muito triste! Há quase 4 anos só pensa em reeleição, para fazer o quê?


Matheus Biaggi Machado de Mello

2026-04-07 00:21:30

Espetáculo.


2026-04-05 20:22:57

Texto irrepreensível. Parabéns!


2026-04-03 20:20:33

Texto muito esclarecedor!


Albino Clarel Bonomi

2026-04-03 07:26:21

Baita, baita reflexão..!


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André Miguel Fegyveres

2026-04-07 22:39:23

Belo texto, inspirador Professor Dennis!


André Miguel Fegyveres

2026-04-07 22:31:27

Sob o PT o Brasil tornou se um antro de bandidos corruptos. Em todos órgãos, poderes e instâncias. No Judiciário, No Legislativo e no Executivo. Nosso presidente é um ser abominável, ex-presidiário, corrupto até as raízes dos cabelos. Só pensa em usufruir do poder. Não tem uma gota de patriotismo. É um traidor da pátria e contaminou todos os órgãos públicos. Sempre espalhando improbidade, falta total de compostura, uma vergonha. No STF, nomeou mais de 70% dos seus membros, e todos são gratos a ele, manobrando e exercendo seus cargos para lamber os seus pés. Vejam por exemplo a votação contra a prorrogação da CPMI do INSS, de 10 juízes, 8 foram contra a prorrogação. Nosso país é inviável. Não existe democracia, Lula comprou nossa Democracia com o nosso próprio dinheiro roubado no Mensalão, no Petrolão, no INSS, no BNDES, nos Correios, nas estatais etc, etc, etc...Triste! Muito triste! Há quase 4 anos só pensa em reeleição, para fazer o quê?


Matheus Biaggi Machado de Mello

2026-04-07 00:21:30

Espetáculo.


2026-04-05 20:22:57

Texto irrepreensível. Parabéns!


2026-04-03 20:20:33

Texto muito esclarecedor!


Albino Clarel Bonomi

2026-04-03 07:26:21

Baita, baita reflexão..!



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