Valter Campanato / Agência BrasilAriano tomou uma posição de rejeição ao que é estrangeiro, o que virou uma espécie de bairrismo folclórico

Ariano Suassuna na Disney

Entre regionalismo ferrenho e cosmopolitismo, dramaturgo foi um dos responsáveis pelo aprofundamento do fosso entre essas duas tendências
05.07.24

O escritor Ariano Suassuna conta que, após a cerimônia de posse na Academia Pernambucana de Letras, foi jantar na casa de um casal grã-fino no Rio de Janeiro. Lá a senhora, dona da casa, o perguntou: “O senhor naturalmente já foi à Disney, não foi?”. Ariano estranhou a pergunta: primeiro a intimidade com o nome do local, Disney em vez de Disneylândia, segundo a assunção de que ele já teria ido, e por fim a decepção em saber que ele não foi e nunca saiu do Brasil. Ariano concluiu que a sua anfitriã divide a humanidade em duas categorias: aqueles que foram à Disney e aqueles que não foram.  

A anedota contada por Ariano em uma de suas aulas-espetáculo é bastante significativa, apesar do tom humorístico. No Brasil das últimas décadas, e especialmente em Pernambuco, que tem uma cultura popular forte e pujante, a oposição entre regionalismo e cosmopolitismo se intensificou. É verdade que cultura internacionalizada – especialmente norte-americana – tem levado a melhor. Os adolescentes ouvem muito mais Taylor Swift do que Alceu Valença, evidentemente. Cantam mais em inglês que em português, também. Mas o outro lado – o regionalismo – fechou-se em si mesmo, por assim dizer fossilizou-se. No Carnaval de Pernambuco, canta-se rigorosamente as mesmas músicas desde que a geração dos meus pais o frequentava – não que isso seja ruim em si mesmo, mas é difícil estimular as gerações mais recentes sem um tempero novo. 

A questão é que o próprio Ariano Suassuna foi um dos responsáveis pelo aprofundamento do fosso entre essas duas tendências. Tratemos de que forma isso aconteceu. 

O regionalismo cultural nordestino nasceu no Congresso Regionalista de 1926, liderado pelo sociólogo Gilberto de Mello Freyre. Ele, que nasceu em 1900, era um jovem de 26 anos. Freyre havia feito os estudos superiores nos Estados Unidos, onde escreveu sua tese sobre a formação social brasileira, em inglês. Ele teve o impacto de ver o racismo e a segregação racial naquele país — e descobriu o Brasil, por contraste àquele contexto que presenciou. A ida dele ao exterior é importantíssima na sua formação e na elaboração do seu pensamento. Poucos anos depois de voltar do exterior, ele realiza o Congresso Regionalista — do qual resultou o Manifesto Regionalista, hoje publicado em livro, no qual é dito que “talvez não haja região no Brasil que exceda o Nordeste em riqueza de tradições ilustres e em nitidez de caráter”. 

Com efeito, o manifesto estimulou a produção de uma grande quantidade de obras de arte (de autores como José Lins do Rego, Jorge Amado, José Américo de Almeida etc) e alterou significativamente o cenário cultural brasileiro. 

Num artigo chamado O Movimento Regionalista e o Armorial na Folha de S. Paulo, Ariano Suassuna diz que o regionalismo é uma posição inicial de criar a partir da realidade que o cerca. As obras de cada autor, evidentemente, têm muitas diferenças entre si. Acontece que Ariano tomou uma posição de rejeição ao que é estrangeiro, o que virou uma espécie de bairrismo folclórico.  

Quem vê Ariano criticando o rock, o uso de expressões em inglês, Madonna e Michael Jackson, acha até engraçado ou curioso, e de fato essas afirmações têm valor no sentido de se voltar contra um lugar comum midiático da cultura, o problema é que ele tomava uma posição sistemática contra o que era estrangeiro.  

Se fosse apenas a posição de um artista, não vejo problema nenhum. A questão é que Ariano foi secretário de cultura dos governos de Miguel Arraes e Eduardo Campos. Suas ideias tornaram-se políticas públicas de cultura. Parece piada mas é verdade: Ariano chegou a sugerir que Chico Science – o maior nome do Mangue Beat, movimento nascido no Recife – usasse o nome Chico Ciência.  

Ele agia ativamente para que artistas pernambucanos não fossem estudar no exterior para não sofrer influência externa. Numa das aulas-espetáculo, ele diz que no passado os Estados Unidos usavam navios de guerra para tomar um país, hoje eles usam Madonna e Michael Jackson – o que é uma bobagem muito grande, a cultura não funciona assim. Na verdade, os Estados Unidos são um dos maiores produtores de cultura do mundo exatamente por absorver uma quantidade muito grande de influência exterior. No cinema americano, trabalha gente do mundo inteiro, e cada um dá sua contribuição 

O próprio Movimento Regionalista – sem o qual não existiria Movimento Armorial nem a obra de Ariano Suassuna – foi concebido por um autor que era ao mesmo tempo regionalista (e até bairrista, ele assinalava em todos os seus escritor o bairro onde morava, Apipucos) e cosmopolita como ninguém. Gilberto Freyre recebeu o título de cavaleiro do Império Inglês, ciceroneou a Rainha Elizabeth no Recife, teve como interlocutores Aldous Huxley, John dos Passos, Roberto Rossellini e preparou a obra em que melhor interpreta o Brasil a partir de estudos feitos nos Estados Unidos.  

Ariano, com suas posições contra influências estrangeiros, obteve oposição até dentro do Movimento Amorial: o criador da Orquestra Armorial, o violinista Cussy de Almeida (que estudou em Paris com carta de recomendação de Heitor Villa-Lobos) teve um desentendimento com o autor de O Auto da Compadecida e houve ali uma ruptura. Cussy permaneceu fazendo música de câmera com instrumentos de orquestra, e Ariano optou por uma vertente mais popular, criando o Quinteto Armorial, que teve que mudar o nome para Quinteto Romançal (porque Cussy registrou o nome Quinteto Armorial). 

 

Josias Teófilo é jornalista, escritor e cineasta

 

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  1. O mundo sempre vai sentir saudade desse notável, irreverente, obstinado, nacionalista nordestino inveterado… um gênio chamado Ariano Suassuna!

  2. Muito bom esse texto! Coisas de Ariano Suassuna, mas no mais ele era um escritor incrível! Suas aulas eram um espetáculo!

  3. Algo pode ter valor cultural relevante sendo estrangeiro e outro ser um lixo nacional. O intercâmbio não necessariamente significa colonização cultural. Xenofobia sim é um problema.

  4. *saiu com alguns errinhos de digitação mas acho que deu para entender meu pensamento. Sou do Sul, região altamente discriminada por movimentos de esquerda, mas tenho orgulho de fazer parte do povo que faz o Brasil crescer.

  5. Gosto muito de Ariano Suassuna, e concordo que o Nordeste é rico em cultura regional. No mais, acho que ele está sendo um regionalista demais. Música brasileira nordestina eu gosto muito, mas seus posicionamentos políticos me afastam deles. Nunca estive na Disney, nem pretendo, mas já conheci muita arte pelo mundo, 3 quero continuar a ampliar meus conhecimentos sobre a humanidade.

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