RuyGoiaba

De volta ao Dia da Marmota

22.10.21

Ninguém volta das férias impunemente: essa foi a primeira coisa que pensei ao retornar ao Bananão pelo caminho mais feio do Ocidente, a marginal Tietê, e ser recebido por lixo boiando no rio depois de uma noite de chuva. Eu vinha do Baguetão, onde passei alguns dias ensolarados de outono, e nada melhor que o esgotão do Tietê para dar logo um choque de realidade e facilitar a reentrada na atmosfera: é diferente de chegar, por exemplo, pelo Rio, onde as belas paisagens conseguem nos enganar por aproximadamente cinco segundos.

E isso nem é o pior, meus queridos dois ou três leitores: o pior é a sensação de que estou — estamos — vivendo na versão brasileira do Dia da Marmota. Está certo que foram só 15 dias, em vez dos cinco ou seis meses em que eu poderia flanar por Oropa, França e Bahia se tivesse nascido fidalgo (filho d’algo) e me mantido o mais longe possível da faculdade de jornalismo; mas reencontrar o Brasil foi como se eu tivesse tirado apenas uns 15 minutos de férias, e olhe lá.

Absolutamente tudo continua igual: Jair Bolsonaro falando as cretinices de sempre, Paulo Guedes dizendo que a economia agora vai, Davi Alcolumbre sentado em cima da sabatina de André Mendonça para o Supremo, votações no Congresso que tendem a piorar o que já é ruim, CPI da Covid — OK, terminou, mas agora o relatório vai para as mãos de Augusto Aras e Arthur Lira e eles farão, como de costume, exatamente nada —, a Covid em si, Lula-lá, a terceira-via-que-não-decola etc. E o brasileiro sabe: a única perspectiva de mudança é acontecer um desastre diferente, que nos conduza a um looping de desgraças novas.

Falei em Dia da Marmota e me dei conta de que talvez alguns leitores não tenham visto Feitiço do Tempo. Na comédia, clássico da Sessão da Tarde, Bill Murray é Phil Connors, repórter de TV rabugento obrigado a ir a Punxsutawney, Pensilvânia, em 2 de fevereiro para cobrir as festividades do Groundhog Day (título original do filme): se a marmota sair da toca nesse dia e olhar a própria sombra, haverá mais seis meses de inverno. Phil tem um dia péssimo, vai para a cama e acorda no mesmo 2 de fevereiro, com os mesmíssimos acontecimentos se sucedendo — uma espécie de “eterno retorno” nietzschiano, só que com a possibilidade de o repórter alterar os eventos cotidianos por meio de suas ações.

O problema do Dia da Marmota à brasileira, como vocês já devem ter adivinhado, é que nossas ações não têm conseguido mudar o looping do curso das coisas — do contrário, seríamos uma comédia romântica fofinha, e não nosso Brasil brasileiro. Eu talvez devesse introduzir aqui uma “nota otimista” sobre a capacidade do jornalismo de pressionar por mudanças e tal, mas o fato é que, neste dia nublado, este jornalista rabugento está vivendo intensamente a inveja da marmota: minha vontade é me esconder num buraco e só voltar no próximo inverno. Só as marmotas são felizes. (Aliás, em Feitiço do Tempo o repórter e a marmota têm o mesmo nome, e a única vantagem clara do primeiro Phil sobre o segundo — atenção, spoiler — é ficar com a Andie MacDowell no final.)

***

A GOIABICE DA SEMANA

O Bananão continuou produzindo goiabices em abundância na minha ausência: graças ao bom Deus, nisso o país nunca decepciona. Quero destacar apenas duas: um post no Facebook da USP, minha alma mater, que falava em coreanes, indianes, armênies e ÁRABUSaté agora não sei se foi erro de digitação ou se o “gênero neutro” em “árabes” não era neutro o suficiente — e um título genial da Folha, “Casos de racismo no futebol caem em ano sem público nos estádios”. Meu Deus, quem poderia imaginar? Será que sem torcida nos estádios as brigas de torcida também diminuíram? Repórteres investigativos, mexam-se!

ReproduçãoReproduçãoPara acabar com o racismo nas torcidas, é só proibir a torcida; se possível, o futebol

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  1. Sua crõnica foi em minha homehagem, valeu, Goiabão! A sensação de aterrisar em GRU e topar com a marginal tietê foi esplendidamente descrita, é o sentimento comum a todos q voltam de Elysium pro Bananão. Qto ao arabus, me abstenho, é muita falta do que fazer dessa gente.

  2. "Difici"! O Dr. Enéas, no século passado, tinha uma pista para a origem do problema: "Somos governados pela escória da sociedade"!

  3. Aqui temos um experimento contínuo de bomba de neutros(para não horrorizar os neutrons), dizimando neurônios coletivos diariamente, nos colocando na mesma racionalidade dos bovinos , salvo 40 por cento de inconformados autoimunes, por falta de via única(3a Via) para sair dessa massificação estúpida vigente. Desculpe Goiaba pela minha Goiabice.

  4. RUI, QUAL FOI A "BELA PAISAGEM" QUE VOCÊ VIU POR ALGUNS SEGUNDOS, AO CHEGAR AO RIO DE JANEIRO? AH! VOCÊ É DA CLASSE ABASTADA QUE CHEGOU POR VIA AÉREA. ENTRA NO RJ PELA DUTRA OU BR040. É SÓ FAVELA.

  5. Pior que a marginal, nome bem apropriado, é pousar em Cumbica, incrível como as coisas pioram em 19 ou 12 horas de vôo, e como voltar ao passado ou ao atraso, muitas vezes no próprio avião vc percebe que voltou ao bananal, e ao tal loop

  6. Muito boa a coluna. Só um comentário: quando a marmota vê a própria sombra, o inverno vai se estender por mais 6 semanas, não 6 meses. Abraços

  7. Quando eu estava na faculdade e falava “ que marmota ! “ os colegas morriam de rir , nunca tinham ouvido essa expressão! Aí veio o filme O Feitiço do Tempo e todo mundo me respeitou kkkk só eu já conhecia a marmota

  8. Você é o máximo! Ainda bem que suas férias duram apenas 15 dias. Seu humor nos faz suportar esses "Dias das marmotas perenes"! Como mineira que sou ..acho tudo uma grande marmota.

    1. Agora teremos que falar MARMOTES ???Me lembra o Mussum: “como di fatis…”

  9. Acho q a goiaba da semana deveria ser mais uma vez do Guedes, ao explicar como pretende explodir o teto de gastos do governo. Me lembrei da Dilma: "Não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta.” Guedes foi mais sucinto: "vamos tirar o teto. Se não tem teto, como podem nos acusar, de explodir um teto que foi retirado..." Mor🇧🇷 Presidente. Política é coisa séria, q impacta a vida dos cidadãos. Por isso Mor🇧🇷. Seriedade e Respeito.

  10. Texto muito claro, mas impreciso quanto ao tempo de prorrogação do inverno. Caso a marmota olhe a própria sombra, serão mais seis semanas, e não seis meses, de frio. Bem-vindo.

  11. kkkkkk. Bem vindo de volta caro escritor. sempro digo que vivo no dia da marmota a 20 anos. desde que o PT tomou de assalto o Brasil e passou o bastão para o genocida fazer ainda pior. Não, o Brasil não tem mais solução. Quero ir para Pasårgada isso sim...

    1. Eis o CONTO DA MARMOTA..bozo22..

  12. Sugiro Round 6 entre os politicos brasileiros e com ring em Brasilia daí ficamos com apenas um de todos os piores.Apenas um ,fica mais fácil de eliminar.

  13. As únicas coisas que nos tira por uns instantes do looping bananão são os textos de Crusoé, inclusive do goiaba! Parabéns!!! Bem vindo ao eterno "bananão"!

  14. Seja bem vindo de volta. Sobre o looping brasileiro, tem muito mais a ver com os horrores e tragédias de “Dark” que com a meiguice do “Feitiço”.

  15. Bem-vindo de volta Goiabao! Muitas saudades da tua coluna sarcastica e erudita e sem a qual Crusoe não é a mesma..."baguetao" é Paris? Delícia respirar civilização mesmo que por só 15 dias...abraço

  16. Que bom que você voltou. Sempre textos inteligentes com fino humor e ironia. Goiaba, só um comentário: sou do tempo em que "spoiler" era uma peça aerodinâmica para carros de competição.

    1. Lkkk.. pela primeirissima vejo um nick completamente inserido no âmago (se nao souber vai no Aurélio, o teu pai) do apelido e da pessoa.. me disseram essa peça é do sexo feminino viu cambada? Eu não acredito.. é o protótipo do Shrek

    2. O que esperar de um ser (?) que se auto intitula "Globolixo"? É gado Bolsonarista ou petista 🤣🤣🤣🤣

    3. Acho que foi um coquetel de cloroquina com rivotril e tubaína, diluído em maconha "medicinal".

  17. O mais importante foi que o jornalista voltou para ajudar aos leitores brasileiros que desejam um País melhor. Como Robinson Crusoé somos aqueles naufrágos, abandonados na Ilha Bananão, que passaremos a ser felizes com a sua chegada. Teremos com quem conversar. E vivas aos araçás, mesmo que azuis.

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