FarsBeirute: mais de 5 mil pessoas ficaram feridas e lojas que estavam a 30 quarteirões de distância tiveram as vitrines estilhaçadas

Em busca de um culpado

Após a explosão que destruiu boa parte de Beirute, no Líbano, é preciso descobrir quem era o responsável pela carga de nitrato de amônio guardada no porto e que uso pretendia dar a ela. O grupo terrorista Hezbollah é um dos suspeitos
07.08.20

Um incêndio no porto de Beirute, no Líbano, alastrou-se na terça, 4, e atingiu uma carga de 2.750 toneladas de nitrato de amônio que estava guardada no armazém 12. A explosão que ocorreu logo em seguida foi equivalente à de 1.155 toneladas de dinamite — mais avassaladora que qualquer bomba convencional que possa ser lançada de um avião. A maior parte dos edifícios em um raio de 250 metros foi destruída. Vitrines da principal rua comercial, a 30 quarteirões de distância, foram estilhaçadas. Mais de 150 pessoas morreram. No espaço onde havia o armazém, uma cratera com 120 metros de diâmetro se formou e foi preenchida com a água do mar. Há 250 mil desabrigados na capital do país.

Na quinta, 6, o governo do Líbano deu a uma comissão de investigação o prazo de quatro dias para que os culpados sejam apontados. Dezesseis funcionários do porto foram colocados em prisão domiciliar. As informações obtidas até agora não deixam dúvidas quanto à negligência das autoridades, que por mais de seis anos mantiveram uma carga extremamente perigosa estocada em uma cidade com 2 milhões de habitantes. A catástrofe também levanta perguntas sobre a razão de o material não ter sido conduzido a seu destino, em Moçambique, ou a qualquer outro lugar seguro. A resposta pode estar justamente no interesse que a carga despertava pelo seu incrível potencial letal. O nitrato de amônio é uma das substâncias preferidas do grupo terrorista libanês Hezbollah, que usava o porto como um entreposto de contrabando e é hoje o pilar que sustenta a coalizão de governo do Líbano.

FarsO porto após a explosão: 2,7 toneladas de nitrato de amônio
O carregamento de nitrato de amônio que explodiu no porto de Beirute deixou a Geórgia em 2013, com destino ao porto de Beira, em Moçambique, de onde iria para uma fábrica de explosivos comerciais. Em outubro, o navio se desviou de sua rota e atracou na capital do Líbano. Não se conhece a razão pela qual Beirute foi escolhida. Uma  inspeção foi feita por autoridades locais e o navio foi reprovado. A empresa dona da embarcação e a companhia que tinha comprado a carga sumiram e abandonaram a tripulação. Sem que nenhum outro navio fosse enviado para coletar a carga, o nitrato de amônio foi levado para o armazém 12. “Manter uma carga dessas em um armazém custa muito dinheiro. É preciso pagar impostos e custos de manutenção mensais. Descobrir quem arcava com esses gastos dará uma boa pista sobre o responsável pelo acidente”, diz o pesquisador Ely Karmon, do Instituto Internacional de Contraterrorismo em Herzlyia, Israel.

Especialistas em terrorismo têm alertado há anos para o controle que o Hezbollah mantinha sobre o porto de Beirute. A organização o usava para contrabandear remédios falsos, cocaína e ópio. Também utilizava o porto como entreposto para receber mísseis do Irã e enviá-los a outros territórios, como a Faixa de Gaza ou a Síria. O nitrato de amônio, por sua vez, pode ter ficado por ali pelo seu enorme valor para grupos terroristas — e o Hezbollah tem uma longa e comprovada experiência no assunto. A substância foi usada nos dois atentados perpetrados em Buenos Aires, em 1992 e 1994 (na explosão que destruiu o prédio da Amia, a Associação Mutual Israelita Argentina, foi utilizada uma caminhonete com 275 quilos de nitrato de amônio). “Apesar de ainda não se conhecer o dono da carga que explodiu, sabemos que o Hezbollah controla grande parte do Líbano, incluindo aeroportos e portos, e que teria interesse em desviar o nitrato de amônio para suas atividades terroristas”, diz Jim Phillips, especialista em Oriente Médio da Heritage Foundation, em Washington.

FarsFarsPelotão do Hezbollah: organização tem história com nitrato de amônio
Membros do Hezbollah foram detidos em diversos países do mundo com nitrato de amônio em pequenas quantidades. O objetivo era usar o material para ceifar vidas. Em 2014, um terrorista da organização foi preso em Lima, no Peru, com saquinhos cheios da substância. Em 2015, a polícia encontrou um membro do grupo que armazenara mais de 3 toneladas em quatro casas na periferia de Londres. No mesmo ano, outro membro do Hezbollah foi pego na ilha de Chipre com 8 toneladas. No início deste ano, oitocentos quilos foram encontrados em mesquitas e casas ligadas ao Hezbollah na Alemanha. “Todo esse nitrato de amônio foi comprado da China. Há uma rede internacional que prepara explosivos para serem usados em atentados”, diz Ely Karmon. “Existe a possibilidade de que esse nitrato de amônio que estava no porto de Beirute seja dessa mesma rede, porque ela também era ativa no Líbano.”

Em janeiro deste ano, o Hezbollah tornou-se uma peça central da coalizão de partidos que governa o Líbano. Há sérias dúvidas, portanto, se uma investigação imparcial sobre a explosão será possível. Para o Hezbollah, manter um estoque de explosivos próximo a uma área densamente povoada nunca foi motivo de preocupação. Ao longo dos anos, o grupo terrorista, financiado pelo Irã, transformou o Líbano em base para uma guerra contra Israel. Estima-se que 150 mil foguetes, 28 bases de lançamentos, fábricas de mísseis e depósitos tenham sido espalhados perto de escolas, aeroportos, hospitais e campos de futebol. “O Hezbollah usa a população como escudo humano para proteger suas armas, o que deveria ser considerado um crime de guerra”, diz o pesquisador Jonathan Schanzer, da Fundação para a Defesa das Democracias, em Washington. “A explosão no porto de Beirute foi uma amostra do que pode vir acontecer, se a ameaça do Hezbollah não for neutralizada.”

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  1. A exploração do nitrato aconteceu em consequência da explosão anterior divulgada como depósito de fogos de artificio. Estranho não haver notícias sobre a causa da mesma. Qualquer incêndio que atingisse o depósito de nitrato de amônia atingindo a temperatura crítica lógicamente provocaria a explosão. No barril de pólvora que é o Oriente Médio nada pode ser desprezado.

  2. Tanto lugar para armazenar esse material explosivo, foram deixá-lo logo no centro da cidade. Brasília era o local ideal para isso

  3. Onde o tráfico de armas e drogas se instala, a corrupção vem a reboque... É um alerta ao nosso país, cuja democracia pode ser contaminada por milícias de extrema direita, usando métodos semelhantes... Aqui neste país, nada mais me espanta... Tudo é possível até o impossível...

  4. Essa é uma questão extremamente explosiva! Não sendo irônica, apenas realista. Se esse grupo terrorista está, mesmo que indiretamente, por trás dessa tragédia, mais uma vez é preciso que as autoridades libanesas reflitam sobre suas atitudes.

  5. Típico! A corrupção leva apadrinhados incompetentes aos diversos níveis de administração. Já vimos esse filme aqui no Brasil! Aqui também tivemos nossa explosão. Em Alcântara! Lembram? E agora, cidadãos brasileiros, vamos ficar inertes, assistindo passivos às ações de obstrução à Lava Jato? Vamos continuar assistindo a mordaça se avolumando pelas ações inconstitucionais de nosso STF, presidido por um ministro receptor de propinas da Odebrecht?

  6. O povo libanês se tornou refém do Hezbollah, não resta a menor dúvida. Estão numa situação limite, com Israel louco pra iniciar um conflito! Mais um povo à mercê de um grupo terrorista.

  7. A potente carga de nitrato de amônio é de alto teor explosivo, sendo desviada da sua rota original para o Porto de Beirute. É claro, óbvio r cristalino que supostamente pertence ou é de interesse do Hezbollah que usa esse explosivo na maioria dos seus atentados. Logo, conclui-se como corolário necessário que Israel - tb supostamente -, turbinou isso aí, através de míssel-cruzeiro ou de sabotagem do seu temível Serviço Secreto.

  8. O vírus é chinês ninguém pode contestar a verdade, então quem fabricou o nitrato, paira uma dúvida nas entrelinhas da reportagem, mas quem se beneficia com as grandes quantidades desse produto não resta dúvida alguma é o terrorismo, que tudo faz na calada da noite, infelizmente, o povo libanês está pagando caro pelos desmandos da corrupção existente no país, no caos criado, o mundo agora está de alerta com esse produto altamente explosivo que circula sem controle e nos produtores, China produz?

  9. As 8 toneladas apreendidas em Chipre não são o triplo das 2750 toneladas que explodiram em Beirute. Está faltando revisão na Crusoé, pois não é a primeira vez que passam descalabros desse tipo ... a gente recebe informação errada.

    1. amigo leia a reportagem pois não é 2750 toneladas é 2750 kilos!

  10. Duda: essa é a matéria mais explosiva da Crusoé 119. Literalmente em todos os sentidos e sem sombra de dúvidas. Grande abraço.

  11. Os dados estão incorretos, seriam 2.750 toneladas de nitrato de amônio e 1.100 toneladas de TNT (1,1 kt). A maior bomba convencional pesa 10,3 toneladas.

  12. Reportagem esclarecedora tanto sobre o uso letal da substância quanto sua fabricação na China e disseminação mundial. E tb o controle d portos e aeroportos por um grupo terrorista cravado no governo libanês

    1. importantes as observações dos caros colegas leitores. É triste, mas só se discute forma...

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