Divulgação"É melhor agir para evitar que as ameaças se tornem mais perigosas. Algumas pessoas dizem que isso é ser um falcão"

Um falcão (quase) assumido

John Bolton, ex-assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, diz que ainda tem esperança na queda de Maduro e que uma vitória de Joe Biden não deve mudar a relação dos Estados Unidos com o Brasil
07.08.20

O diplomata John Bolton, de 71 anos, é um dos principais nomes do conservadorismo americano. Sua recorrente defesa de intervenções militares no exterior lhe rendeu o rótulo de falcão (hawk, em inglês). Ele sempre nutriu certo desprezo pelas organizações multilaterais. Em 1994, disse que se o edifício da ONU em Nova York perdesse dez andares, não faria a menor diferença. Mais tarde, em 2005, foi chamado pelo então presidente republicano George W. Bush para ser o embaixador dos Estados Unidos na organização.

Nos dois mandatos do democrata Barack Obama, Bolton permaneceu à sombra. Em 2018, o diplomata voltou ao primeiro escalão da política americana ao ser chamado pelo presidente Donald Trump para atuar como assessor de Segurança Nacional. No final daquele mesmo ano, chegou a tomar um café da manhã na casa do presidente eleito Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro. A experiência na Casa Branca foi bruscamente encerrada em setembro de 2019, com um tuíte do presidente.

A temporada no governo Trump foi narrada no livro The Room Where It Happened (A Sala Onde Tudo Aconteceu, em tradução livre), no qual Bolton revela bastidores da política externa americana ao enfrentar desafios variados pelo mundo. Um capítulo inteiro é dedicado à Venezuela, onde o ex-secretário foi bastante ativo na tentativa frustrada de derrubar o ditador Nicolás Maduro.

Nesta entrevista a Crusoé, Bolton contou o que impediu a queda de Maduro em abril do ano passado, defendeu ações militares em países que buscam uma bomba nuclear e conjecturou sobre os impactos da possível eleição do democrata Joe Biden para o Brasil. “A vitória de Bolsonaro trouxe uma nova realidade geoestratégica. Isso não vai mudar, independentemente de quem seja o presidente do Brasil ou dos Estados Unidos”, diz ele.

Em seu livro, o sr. diz que ficou surpreendido com o pedido feito por Trump para que opções militares fossem consideradas na Venezuela. Ao mesmo tempo, o presidente queria se encontrar pessoalmente com o ditador Nicolás Maduro. Qual foi o resultado da política externa americana para a Venezuela?
A política americana em relação à Venezuela foi construída a partir do nosso desejo de ajudar a oposição no final de 2018 e no começo de 2019. Se não agíssemos logo contra Maduro, os opositores não teriam outra chance por um longo período. Também estávamos preocupados com a influência de Rússia, Cuba, China e Irã na Venezuela. Compreendíamos o sofrimento do povo venezuelano, que estava sufocado pelo regime, e tínhamos a esperança de que eles poderiam alcançar o objetivo de eliminar o regime e substituí-lo por um governo eleito.

A Venezuela terá eleições legislativas em dezembro, mas a oposição decidiu não participar. O que será dos opositores depois disso?
Essas eleições foram convocadas por Maduro de maneira completamente fraudulenta. Ele já tinha criado uma alternativa à Assembleia Nacional. É a Assembleia Nacional Constituinte, que ele encheu com seus camaradas. O ex-presidente Hugo Chávez e o próprio Maduro tentaram, desde que assumiram o poder, fragmentar a oposição para tornar impossível que eles agissem contra o governo. De fato, a oposição teve muito êxito. É preciso parabenizar seus integrantes que, nos últimos dois anos, mantiveram-se unidos. Agora eles precisam se juntar novamente para enfrentar esse novo desafio criado por Maduro. Os países da América e de outras regiões do mundo devem ajudá-los. A situação da Venezuela é desesperadora. Cinco milhões já deixaram o país. Esse cenário não vai mudar enquanto o atual regime estiver no controle.

Gage Skidmore/FlickrGage Skidmore/Flickr“A Huawei está agindo como um instrumento de estado do governo chinês”
Há algum general venezuelano que poderia depor Maduro?
Os militares mais jovens, de patentes mais baixas, apoiam majoritariamente a oposição. Apenas os generais mais graduados, que se beneficiam do tráfico de drogas e de outras fontes ilegais de renda, estão com o regime. O que a oposição estava fazendo em 2019 e que acho que deve continuar a fazer é tentar desarticular os comandantes em postos mais altos. Se isso acontecer, então o regime ficará muito vulnerável. O maior empecilho é a presença dos cubanos e dos russos na Venezuela. Há muita razão para acreditar que Maduro cairia em abril do ano passado se não fosse a intervenção dos cubanos. É um grande problema termos na América uma ditadura sustentada pelos cubanos e tendo os russos como apoio extra. É responsabilidade de todos nós sugerir ideias para resolver essa situação. Essa turbulência na Venezuela ocorreu há mais de um ano. A oposição esteve muito perto de conseguir seu objetivo. O problema persiste. A situação do povo venezuelano é muito triste e não podemos permitir que isso continue assim para sempre.

O Brasil deve impedir a empresa de telecomunicações chinesa Huawei de participar do leilão da tecnologia 5G?
Estados Unidos, Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Reino Unido e muitos outros países tomaram precauções em relação à Huawei porque sabem que a companhia está agindo como um instrumento de estado do governo chinês. Como a tecnologia 5G tem uma natureza mais dispersa, não é preciso ter máquinas e programas no centro dessa infraestrutura para escavar toda a informação que está fluindo no sistema. Isso pode ser feito a partir de áreas periféricas. Os chineses podem garimpar dados e adotar ações mais agressivas para causar danos em redes de outros países. É muito perigoso. A Huawei não é uma empresa de telecomunicações. É uma agência de inteligência que se disfarça de uma companhia de telecomunicações. Entendo que é muito difícil retirar equipamentos da Huawei. A empresa já estava vendendo soluções para a área e é caro trocar as máquinas. O problema já estava crescendo e acordamos tarde para ele. Estivemos cegos para suas possíveis consequências. Mas, se encararmos o custo e resolvermos a questão agora, evitaremos que ela se torne um problema ainda maior no futuro. É melhor fazer isso agora do que adiar.

Se Trump for reeleito, o que poderá acontecer na disputa global entre americanos e chineses? Há risco de um conflito armado?
Muitas das decisões que Trump tomou na área de Segurança Nacional não ocorreram após uma análise das questões ou de possíveis consequências dentro dos Estados Unidos. Nos primeiros três anos de seu governo, Trump foi muito benevolente com a China. Ele queria fazer um grande acordo comercial para resolver vários problemas, como o da China roubar propriedade intelectual alheia. Ele deixou de lado muitas das preocupações que existiam, como a beligerância chinesa no Mar do Sul da China, a guerra cibernética, as atitudes das empresas Huawei e ZTE, as violações de direitos humanos no país. Quando a pandemia do coronavírus começou, Trump não queria ouvir coisas negativas sobre como a China lidou com a pandemia, sobre o acobertamento dos casos ou sobre a campanha de desinformação internacional promovida pelos chineses. Ele não queria ouvir nada que pudesse atrapalhar o acordo de comércio ou afetar de maneira adversa a economia americana. Agora, depois de tudo o que foi revelado sobre como a China lidou com o coronavírus, Trump assumiu uma atitude muito dura. Ele impôs sanções e fechou o consulado em Houston. Minha impressão é que, no dia seguinte após a eleição, quando Trump não precisará mais de votos de republicanos, ele chamará Xi Jinping de volta para a mesa de negociações. Hoje o governo está jogando com a dinâmica da eleição de novembro. Se Trump vencer, tudo será muito diferente.

Se os Estados Unidos finalizarem o acordo comercial com a China, o governo americano poderá abandonar a preocupação com as violações de direitos humanos no país?
Trump não tem problema algum em abandonar algumas coisas. Ele sabe que os eleitores republicanos geralmente têm uma atitude muito crítica com a China. As pesquisas de opinião também têm mostrado que os democratas crescentemente têm apresentado uma visão muito negativa em relação aos chineses. Assumir uma linha mais dura com a China se ajusta muito bem às pretensões eleitorais de Trump neste momento. Quando ele não tiver mais que lidar com os eleitores, ele poderá mudar de posição muito rapidamente.

O presidente Jair Bolsonaro desenvolveu certa amizade com Trump. Como ficarão as relações entre Brasil e Estados Unidos se o democrata Joe Biden vencer a eleição em novembro?
Não sei qual é a visão que Biden tem do Brasil. Mas acho que a eleição de Bolsonaro trouxe uma nova visão sobre como os dois países devem se relacionar. E isso não advém somente do fato de Bolsonaro ter substituído vários governos de esquerda ou de Trump estar hoje na Casa Branca. O que Bolsonaro fez foi trazer uma visão estratégica diferente, de que os Estados Unidos e o Brasil podem ter uma relação próxima na área militar. São os dois maiores países do continente americano. Há uma enormidade de coisas que podemos alcançar juntos. Além disso, podemos ajudar outros governos da região a lidar com países como Venezuela, Cuba e Nicarágua. A vitória de Bolsonaro trouxe uma nova realidade geoestratégica. Isso não vai mudar, independentemente de quem seja o presidente do Brasil ou dos Estados Unidos.

O sr. já disse que Trump não é conservador em termos de política externa. O que isso significa?
Trump não atua seguindo uma filosofia, uma grande estratégia ou mesmo uma política consistente. Quando eu digo que ele não é um conservador, não estou querendo dizer que ele é um liberal em termos americanos (de esquerda, progressista). Ele não é nada disso. Ele é Donald Trump. Sempre toma decisões de forma esporádica, ad hoc. As decisões de Trump na área de segurança são como um arquipélago de pontos. Para quem olha de fora, é difícil conectá-los. Dizer a mesma coisa várias vezes pode parecer uma virtude, mas não chega a constituir um quadro de estratégia mais amplo. Essa atitude é perigosa porque manda uma mensagem confusa para os nossos amigos e aliados. Também pode dar aos nossos adversários a impressão equivocada de que nós não estamos prestando atenção a eles ou não estamos bem preparados para enfrentar as ameaças que eles podem nos impor.

Gage Skidmore/FlickrGage Skidmore/Flickr“As decisões de Trump são como um arquipélago de pontos”
Falando sobre ameaças, há ainda alguma coisa que possa ser feita para evitar que o Irã fabrique uma bomba nuclear?
Acho que as sanções que foram impostas após a saída do acordo nuclear com as grandes potências em maio de 2018 tiveram um enorme impacto no Irã. Na economia isso ficou muito claro. Também é verdade que o Irã continuou com o desenvolvimento de mísseis balísticos, o apoio ao terrorismo e ações militares convencionais no Iraque e na Síria. A ameaça de um Irã nuclear continuará existindo enquanto esse regime estiver no poder. Por isso, o governo americano deve seguir adiante com sua política de pressão máxima. A maior ameaça contra a paz no Oriente Médio atualmente é o Irã.

O Irã também tem interferido muito no Líbano. O que pode acontecer com esse país após a explosão no porto de Beirute?
O governo libanês disse que a explosão ocorreu em um armazém onde 2.750 toneladas de nitrato de amônio estavam guardados havia sete anos. Talvez seja verdade. A pessoa do governo que permitiu que isso acontecesse deverá ser julgada por negligência criminosa. Por enquanto, não sabemos ainda quem foi o responsável. O que também me preocupa é o fato de o governo libanês estar perto do colapso. O Hezbollah está muito perto de se tornar o governo de fato e a influência do Irã no Líbano aumentou dramaticamente.

O sr. duvida que a carga de nitrato de amônio estivesse de fato armazenada por quase sete anos no porto?
Essa é uma história difícil de acreditar. Talvez seja verdade que um navio tenha sido confiscado e sua carga tenha sido guardada no armazém. Posso acreditar que isso possa acontecer por um período curto. Mas não posso acreditar que isso tenha ficado lá durante quase sete anos. É uma carga muito perigosa em uma área densamente povoada.

O sr. normalmente é retratado pela imprensa como um falcão, alguém ansioso por deflagrar uma guerra em algum lugar do mundo. Que imagem faz de si mesmo?
Sempre fui um conservador no contexto americano desde que era um garoto trabalhando na campanha de Barry Goldwater, em 1964 (ex-senador republicano pelo Arizona que disputou as eleições presidenciais naquele ano e perdeu para Lyndon Johnson). Procuro proteger os interesses vitais dos Estados Unidos. Depois, gostei da visão de Ronald Reagan que pregava a paz por meio da força. Na minha opinião, muito frequentemente os Estados Unidos permitem que alguns riscos e desafios cresçam. Do meu ponto de vista, é melhor agir de forma precoce para evitar que essas ameaças se tornem mais perigosas. Algumas pessoas dizem que isso é ser um falcão. Para mim é ser prudente, cauteloso.

Quando uma guerra pode ser necessária?
Ninguém está buscando uma guerra. Meu ponto é que o Irã, a Coreia do Norte e outros estados quebrados que buscam armas nucleares ou biológicas oferecem algum risco para as outras nações. Então é preciso saber qual é a natureza dessas ameaças. Talvez seja possível conviver com elas, diplomaticamente ou por meio de sanções econômicas. Mas se os aiatolás do Irã ou Kim Jong-un da Coreia do Norte ameaçarem os Estados Unidos ou nossos aliados com essas armas, temos de estar preparados para dar passos mais decisivos. Os líderes políticos americanos dizem que é inaceitável que a Coreia do Norte tenha uma bomba nuclear. A palavra “inaceitável” para mim significa que algo é inaceitável de fato. Se somos sérios em relação a isso, precisamos pensar quais são as nossas opções. Os estados que almejam uma bomba nuclear precisam entender isso. Eles têm de compreender que estão enfrentando um risco muito grave se continuarem com esses programas.

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  1. Boa entrevista. É possível nestas entrevistas com pessoas de fora, fornecer um link com a entrevista no idioma do entrevistado ? Nesse caso, em inglês

  2. boa entrevista. Viu, vcs conseguem diversificar nos assuntos. Muito chato só ficarem falando de Bolsonaros, Queiros, Michele.. * parecem o catraca livre

  3. O pastor 1 disse para o pastor 2: - se vc me der 1 de suas ovelhas, ficaremos com o mesmo número O 2 respondeu: não, se vc me der 1 das suas, ficarei com o dobro Pergunta: quantas ovelhas cada um tinha .¿

  4. Sendo pragmático: a antropologia e a história confirmam que somente os que detém o poder (financeiro, tecnológico) sobrevivem.

  5. Nem vou lembrar das “terras arrasadas” que eles abandonaram mundo afora após bancarem os Xerifes do Mundo... não sou anti-americano, apenas sou anti-hipocrisia, sou avesso a mentiras.

  6. Sabem o que são os Estados Unidos? Um documentário sobre narcotráfico na tv fechada revela. Os xerifes americanos, em mais uma intervenção externa, apoiaram os Contras na Nicarágua contra os comunas sandinistas; treinaram e armaram os rebeldes. Mas tudo a um preço: vistas grossas à entrada de drogas pesadas na América... com o pretexto de combater o comunismo nas Américas, os USA permitiram que traficantes se apossassem das almas de milhões de jovens (ou não) norte americanos. Palmas para eles!!

  7. Porra! Propaganda aqui? Vocês estão ficando mentirosos como o Bozo. Disseram que aqui não haveria publicidade. Como é que fica?

    1. Tu és o suprasumo da imbecilidade.. vai te catar vai..

    1. Devemos tomar vergonha do q o funcionalismo público e os políticos fazem aí tem ficar mendigando migalhas para outros países tá na hora de tomar vergonha e o país sem nome q vai se lascar vamos ser mas patriota o ainda fica como capacho dos outros acorda Brasileiros

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