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O drama dos cristãos no Iraque sob o olhar de um padre iraquiano

06.03.21 08:10

O padre iraquiano Emanuel Youkhana (foto) vive na cidade de Dohuk e pertence à Igreja Assíria do Oriente, a mais antiga denominação cristã na Mesopotâmia. Yokhana também é diretor-executivo do Programa de Ajuda Cristã Nohadra Iraq (Capni, na sigla em inglês), que apoiou a população durante e depois do avanço do grupo terrorista Estado Islâmico. A Capni distribuiu comida, kits de higiene e roupas. Também ofereceu transporte escolar para crianças e jovens que tiveram de deixar suas casas. A propósito da visita do papa Francisco ao Iraque, iniciada nesta sexta-feira, 5, ele conversou com Crusoé sobre a situação dos cristãos em seu país.

Conquistada pelo Estado Islâmico em 2014, a cidade de Mossul foi liberada três anos depois. Como está a situação dos cristãos na cidade atualmente?
Não costumo dizer que Mossul foi liberada. Isso porque a cidade não foi conquistada. O Estado Islâmico foi bem-recebido pelos seus habitantes em 2014. A ideologia fundamentalista do grupo, com um forte componente contra os cristãos, já estava presente por lá há muitos anos. Depois da derrota militar do Estado Islâmico, esse pensamento segue entre a população. Os cristãos são discriminados nas ruas, nos mercados. Suas lojas são atacadas. Cristãos são sequestrados e libertados apenas após o pagamento de pesadas recompensas.

Essas lojas são as que vendem bebidas alcóolicas?
Sim. Cristãos e yazidis (outra minoria religiosa) geralmente são os donos desses lugares. Isso acontece porque os muçulmanos não conseguem licença para vender álcool. Então é uma área em que cristãos e yazidis não enfrentam competição. Nas demais, eles têm pouca chance para prosperar. Cristãos que buscam uma vaga de emprego em Mossul sempre têm muita dificuldade em conseguir espaço.

Por que existe essa discriminação forte contra cristãos entre a população?
Há décadas tem sido assim. O ditador Saddam Hussein (muçulmano sunita) difundiu muito a ideia de que era preciso ir contra os cruzados cristãos. Ele demoliu 120 vilas cristãs e inúmeras igrejas. Apesar de a sua ditadura ter acabado no Iraque em 2003, não passamos a viver em uma democracia plena em que todos têm os mesmos direitos. Os cristãos são citados de relance na Constituição. Ainda hoje, imãs nos atacam nos discursos em suas mesquitas às sextas-feiras, e isso nunca foi criminalizado. Nos livros escolares, nós não somos citados como parte da população do país, apesar de existirmos aqui há 2 mil anos. Os cristãos foram apagados da memória coletiva. Em 2008, quando uma de nossas igrejas sofreu um ataque em Bagdá, o primeiro-ministro Nouri al-Maliki publicou um documento com o título “Apoio à diáspora cristã“. Então, é como se não fôssemos iraquianos. 

O papa Francisco deve se reunir com o imã xiita Ali Sistani neste sábado, 6. Qual é a importância desse religioso para o Iraque?
Sistani tem grande poder na comunidade xiita, a maior do Iraque. Eles são o grupo mais influente na área da segurança, no governo, nos partidos, nas milícias. Mas Sistani é um patriota que defende o estado iraquiano. Seu adversário no universo xiita é o iraniano Ali Khamenei. Na comparação com o iraniano, Sistani é mais moderado e não se envolve tanto com política. É um religioso bastante respeitado. Acho esse encontro entre ele e o papa Francisco muito promissor. 

Sistani e Khamenei tratam os cristãos de maneiras diferentes? 
Temos duas categorias de milícias xiitas no Iraque. Uma parte delas está ligada a Sistani e outra a Khamenei. As que estão próximas de Sistani não provocam violência e não nos atacam. Sistani é leal ao estado, às regras. As milícias ligadas a Khamenei são as que cometem os atos agressivos contra outros grupos, incluindo os cristãos. O objetivo do Irã é desestabilizar o Iraque, e todos os iraquianos estão sofrendo com isso. Ao gerar uma situação de insegurança, investidores do resto do mundo não apostam no Iraque, o que tem prejudicado muito nossa economia e afetado nosso bem-estar.

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  1. Pensar que o Papa está pouco se lixando para os cristãos ao redor do mundo, só está no Iraque por conta do show business, popularidade, bufunfa. A estrutura do Vaticano não é mais decente faz tempo.

    1. Concordo contigo: o cara escolheu o nome "Francisco" e não os "Pios" da vida buscando simplicidade. Mas é um comunista de carteirinha. O apoio q deu a Lula enquanto presidiário, desmerecendo a Justiça brasileira, lembrou muito o "Soltem Barrabas!"

  2. Duda, como vai funcionar a sua regra moral sobre os registros do Papa sem máscaras em meio às aglomerações, vc que é tão defensor do fique em casa, toques de recolher, lockdown, prisão de pessoas que cometem o " crime " de irem a parques,, mesmo sozinhas, de trabalhador preso por querer trabalhar? Se não for pedir muito, seja honesto.

    1. Que as equipes de segurança vigiem bem a aeronave do SANTO PAPA FRANCISCO

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