Tomar café assim que os olhos abrem parece o começo perfeito do dia. Mas essa prática pode estar reduzindo o efeito da cafeína e aumentando sua dependência da bebida ao longo do tempo. O motivo está num hormônio que muita gente nunca associou ao cafezinho da manhã: o cortisol.
De acordo com o cardiologista Aurelio Rojas, os primeiros 30 a 60 minutos após acordar, o organismo produz um pico de cortisol conhecido como Cortisol Awakening Response (CAR), ou resposta de despertar. Esse hormônio eleva a energia, regula a pressão arterial e sincroniza o relógio biológico, funcionando como um despertador natural.
O problema começa quando a cafeína entra em cena antes desse processo terminar. Rojas alertou, em vídeo divulgado em seus canais digitais e citado pelo jornal espanhol El Confidencial, que ingerir café logo após acordar não acrescenta energia extra. O efeito estimulante da bebida é reduzido porque a cafeína se sobrepõe a um pico hormonal que o corpo já estava produzindo por conta própria.
Dependência sem perceber
A interferência vai além da manhã. Segundo Rojas, estressar o sistema nervoso nesse momento faz com que o organismo desenvolva tolerância à cafeína. Com o tempo, doses cada vez maiores passam a ser necessárias para atingir o mesmo nível de alerta, criando um ciclo de dependência que muitas pessoas nem percebem que estão alimentando.
O neurocientista Andrew Huberman, da Universidade Stanford, reforça esse raciocínio. Em um episódio do seu podcast Huberman Lab, ele explica que tomar café imediatamente após acordar bloqueia os receptores de adenosina, mas não os limpa. A adenosina é o neurotransmissor responsável por induzir o sono, e ela se acumula ao longo da noite. Sem o cortisol agindo livremente para removê-la, esse acúmulo persiste, o que explica a queda brusca de energia que muita gente sente no meio da tarde.
“Ao atrasar a cafeína para 90 a 120 minutos após acordar, você prepara o sistema para que obtenha o pico de cortisol matinal e, quando ingere o café, estará bebendo com um pano de fundo já existente de maior alerta”, disse Huberman no podcast.
Quando tomar o primeiro gole
A recomendação que une os dois especialistas é esperar entre 60 e 90 minutos após acordar antes de tomar o primeiro café. Esse intervalo permite que o cortisol faça seu trabalho e que a adenosina se acumule um pouco, tornando a cafeína mais eficaz quando finalmente é consumida.
Para preencher esse tempo, algumas práticas ajudam a manter o pico de cortisol ativo: tomar água ao acordar, se expor à luz natural e fazer alguma movimentação leve, como uma caminhada curta ou alongamentos.
Aurelio Rojas destaca ainda que o café está longe de ser o “vilão”. Para pessoas com estresse crônico elevado ou sistema cardiovascular mais reativo, tomar café muito cedo pode provocar ansiedade, palpitações ou nervosismo. Mas, consumido no momento certo, o café está associado a benefícios significativos para a saúde.
“O café, quando consumido corretamente, está associado a um menor risco de doenças cardiovasculares, menor mortalidade geral e melhor função metabólica”, afirmou o cardiologista.




