O assunto de “lifestyle” é uma constante no repertório de páginas e influenciadores na internet que tentam ensinar os seguidores a “mudar de vida” para melhor e dizem para as pessoas não “terem medo” da mudança. Apesar da emoção do “medo” ser sim um fator para as pessoas, a psicologia destaca que há um outro motivo mais sutil: a normalização da infelicidade.
A infelicidade é algo simples: é o oposto da felicidade. Uma pessoa feliz está satisfeita com a vida, está em um estado de equilíbrio emocional, paz interior e satisfação. Enquanto as infelizes passam pelo inverso: desequilíbrio emocional, estão insatisfeitas com suas vidas e se sentem “desconectadas” de si mesmas.
Ou seja, a infelicidade não se trata de algo que “existe”, e sim da ausência da felicidade. Assim como o frio é ausência de calor e o escuro é ausência de luz. Se o sociólogo Zygmunt Bauman já dizia que a felicidade verdadeira vem com a superação de obstáculos e autonomia, a infelicidade é a falta de perspectiva de vencer os obstáculos da vida e reaver o controle sobre si mesmo.
O que a psicologia fala disso?
A ciência destaca um fenômeno psicológico chamado “adaptação hedônica“. Esse fenômeno é a tendência humana de retornar rapidamente a um nível estável de felicidade após eventos positivos ou negativos significativos. Com isso, nos acostumamos com melhorias e pioras como “novo normal” e nosso corpo passa a esperar isso.
A ideia básica dessa adaptação diz o seguinte: eventos bons ou ruins são temporários. Tanto a alegria de uma festa de aniversário quanto a tristeza causada por perder um ente querido eventualmente acabam e nosso emocional volta a um “estado padrão”. É um traço evolucionário que nos impede de sentir fortes emoções constantemente.
Acontece que a psicologia também aponta a gravidade disso, pois podemos nos “adaptar” a estilos de vida que ativamente nos impactam negativamente. No caso, se uma pessoa fica infeliz por muito tempo, pode ser que o cérebro pare de ver essa infelicidade como um “evento isolado” e se torne o “novo normal”.
A pessoa para de enxergar a infelicidade como um “problema a ser resolvido” e se torna o cotidiano dela. Um relacionamento tóxico, um emprego estressante, uma vida “vazia”, todas essas coisas se tornam um novo padrão. No lugar de enxergar essas questões como problemas a serem solucionados, a pessoa adota uma perspectiva de “é assim como as coisas são e serão”.
Como isso pode nos impactar?
Segundo a psicologia, isso pode causar uma mentalidade em que a pessoa pode desistir das coisas antes sequer de iniciá-las. O psicólogo Martin Seligman identificou, em um estudo realizado em 1967, que pessoas e animais expostos a situações fora de seu controle eventualmente deixam de tentar mudar essas realidades.
Na prática, o estudo mostrou que, diferente de traumas pontuais, esse cinismo é causado por situações recorrentes na vida. Exemplos disso seriam falhas na busca por carreiras novas, relacionamentos que não deram certo ou solidão mesmo com esforço ativo de melhorar. Com isso, o corpo passa a esperar o pior, ao invés de se manter neutro ou esperar o melhor.
Como quebrar o cíclo?
Especialistas destacam que, nesse caso, há uma questão de aprendizado: a mente das pessoas não é fixa, ela muda e aprende constantemente. A psicóloga da Universidade de Stanford, Carol Dweck, destacou isso em um estudo sobre mentalidades “fixas” e de “desenvolvimento”.
Segundo a psicóloga, pessoas que tratam suas mentes como “fixas” tendem a ver falhas como prova de limitação e evitam tentar de novo. Enquanto aquelas que se desenvolvem, tratam a falha como aprendizado.
No caso, especialistas recomendam que, quem não enxerga possibilidade de sucesso nas coisas comece “pequeno”. Vai ler um livro e não consegue? Comece lendo duas páginas por dia. Vai aprender a cozinhar? Comece com algo simples como arroz ou ovo.
Além disso, o budismo também apresenta perspectivas vistas como edificadoras à felicidade. Para os monges budistas, o aprendizado vem com a experiência e não o contrário. Uma pessoa não “pensa na felicidade” até se tornar feliz, uma pessoa age e corre atrás dessa felicidade.
O monge Matthieu Ricard, considerado o “homem mais feliz do mundo“, diz que não existe uma fórmula para a alegria, que uma pessoa não consegue ser feliz buscando apenas a satisfação pessoal. Para o monge, a alegria vem para aqueles que simplesmente vivem suas vidas de forma sincera e altruista.
Enfim, existem diversas formas de chegar à satisfação com a vida e para cada pessoa será uma experiência diferente, mas as autoridades do assunto concordam que o reconhecimento pela mudança e a ação são seus principais fatores.





