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A psicologia diz: a razão pela qual a maioria das pessoas nunca muda de vida não é o medo, é por terem normalizado a infelicidade

Diversos especialistas destacam que a vivência de uma pessoa pode afetar drásticamente sua perspectiva sobre a própria felicidade

Por Júlio Nesi
13/04/2026
Em Geral
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A infelicidade pode se tornar uma resença tão constante que se torna algo "passivo" na vida.

Reprodução: Unsplash / Ben Hershey

A infelicidade pode se tornar uma resença tão constante que se torna algo "passivo" na vida. Reprodução: Unsplash / Ben Hershey

O assunto de “lifestyle” é uma constante no repertório de páginas e influenciadores na internet que tentam ensinar os seguidores a “mudar de vida” para melhor e dizem para as pessoas não “terem medo” da mudança. Apesar da emoção do “medo” ser sim um fator para as pessoas, a psicologia destaca que há um outro motivo mais sutil: a normalização da infelicidade.

A infelicidade é algo simples: é o oposto da felicidade. Uma pessoa feliz está satisfeita com a vida, está em um estado de equilíbrio emocional, paz interior e satisfação. Enquanto as infelizes passam pelo inverso: desequilíbrio emocional, estão insatisfeitas com suas vidas e se sentem “desconectadas” de si mesmas.

Ou seja, a infelicidade não se trata de algo que “existe”, e sim da ausência da felicidade. Assim como o frio é ausência de calor e o escuro é ausência de luz. Se o sociólogo Zygmunt Bauman já dizia que a felicidade verdadeira vem com a superação de obstáculos e autonomia, a infelicidade é a falta de perspectiva de vencer os obstáculos da vida e reaver o controle sobre si mesmo.

O que a psicologia fala disso?

A ciência destaca um fenômeno psicológico chamado “adaptação hedônica“. Esse fenômeno é a tendência humana de retornar rapidamente a um nível estável de felicidade após eventos positivos ou negativos significativos. Com isso, nos acostumamos com melhorias e pioras como “novo normal” e nosso corpo passa a esperar isso.

A ideia básica dessa adaptação diz o seguinte: eventos bons ou ruins são temporários. Tanto a alegria de uma festa de aniversário quanto a tristeza causada por perder um ente querido eventualmente acabam e nosso emocional volta a um “estado padrão”. É um traço evolucionário que nos impede de sentir fortes emoções constantemente.

Acontece que a psicologia também aponta a gravidade disso, pois podemos nos “adaptar” a estilos de vida que ativamente nos impactam negativamente. No caso, se uma pessoa fica infeliz por muito tempo, pode ser que o cérebro pare de ver essa infelicidade como um “evento isolado” e se torne o “novo normal”.

A pessoa para de enxergar a infelicidade como um “problema a ser resolvido” e se torna o cotidiano dela. Um relacionamento tóxico, um emprego estressante, uma vida “vazia”, todas essas coisas se tornam um novo padrão. No lugar de enxergar essas questões como problemas a serem solucionados, a pessoa adota uma perspectiva de “é assim como as coisas são e serão”.

Como isso pode nos impactar?

Segundo a psicologia, isso pode causar uma mentalidade em que a pessoa pode desistir das coisas antes sequer de iniciá-las. O psicólogo Martin Seligman identificou, em um estudo realizado em 1967, que pessoas e animais expostos a situações fora de seu controle eventualmente deixam de tentar mudar essas realidades.

Na prática, o estudo mostrou que, diferente de traumas pontuais, esse cinismo é causado por situações recorrentes na vida. Exemplos disso seriam falhas na busca por carreiras novas, relacionamentos que não deram certo ou solidão mesmo com esforço ativo de melhorar. Com isso, o corpo passa a esperar o pior, ao invés de se manter neutro ou esperar o melhor.

Como quebrar o cíclo?

Especialistas destacam que, nesse caso, há uma questão de aprendizado: a mente das pessoas não é fixa, ela muda e aprende constantemente. A psicóloga da Universidade de Stanford, Carol Dweck, destacou isso em um estudo sobre mentalidades “fixas” e de “desenvolvimento”.

Segundo a psicóloga, pessoas que tratam suas mentes como “fixas” tendem a ver falhas como prova de limitação e evitam tentar de novo. Enquanto aquelas que se desenvolvem, tratam a falha como aprendizado.

No caso, especialistas recomendam que, quem não enxerga possibilidade de sucesso nas coisas comece “pequeno”. Vai ler um livro e não consegue? Comece lendo duas páginas por dia. Vai aprender a cozinhar? Comece com algo simples como arroz ou ovo.

Além disso, o budismo também apresenta perspectivas vistas como edificadoras à felicidade. Para os monges budistas, o aprendizado vem com a experiência e não o contrário. Uma pessoa não “pensa na felicidade” até se tornar feliz, uma pessoa age e corre atrás dessa felicidade.

O monge Matthieu Ricard, considerado o “homem mais feliz do mundo“, diz que não existe uma fórmula para a alegria, que uma pessoa não consegue ser feliz buscando apenas a satisfação pessoal. Para o monge, a alegria vem para aqueles que simplesmente vivem suas vidas de forma sincera e altruista.

Enfim, existem diversas formas de chegar à satisfação com a vida e para cada pessoa será uma experiência diferente, mas as autoridades do assunto concordam que o reconhecimento pela mudança e a ação são seus principais fatores.

 

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Tags: adaptação hedônicaCarol DweckciênciafelicidadeinfelicidadelifestyleMartin SeligmanMatthieu RicardpsicologiaZygmunt Bauman
Júlio Nesi

Júlio Nesi

Jornalista alagoano formado pela UFAL, já atuei em produção de conteúdo digital para portais, rádio e redes sociais.

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