Matthieu Ricard tem 78 anos, é francês, monge budista, assessor do Dalai Lama e carrega um título incomum: o de ser o “homem mais feliz do mundo”. A fama veio depois de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, que submeteram seu cérebro a ressonâncias magnéticas com duração de até três horas e conectaram 256 sensores à sua cabeça para medir emoções como estresse, prazer e irritabilidade.
A escala do experimento ia de 0,3 para muito infeliz até -0,3 para muito feliz. Ricard marcou -0,45, superando até os próprios limites da escala. Os cientistas identificaram também que ele produz ondas cerebrais de alta frequência em níveis nunca antes registrados na literatura científica, além de uma atividade elevada no córtex pré-frontal esquerdo, região ligada ao equilíbrio emocional e à regulação de estados negativos.
O monge trata o título com bom humor, mas também com ceticismo. Para ele, o estudo media compaixão, não exatamente felicidade, e não faz sentido comparar o nível de bem-estar de bilhões de pessoas. Mesmo assim, o apelido grudou e, com ele, vieram décadas de entrevistas, livros e palestras em que ele compartilha o que aprendeu sobre o tema.
Antes de ir para os Himalaias, Ricard tinha uma trajetória acadêmica promissora na França. Doutorado em biologia molecular, trabalhou ao lado do ganhador do Nobel de Medicina François Jacob. Trocou o laboratório pelo mosteiro Shechen Tennyi Dargyeling, no Nepal, após se aprofundar nos ensinamentos do budismo tibetano e, desde então, dedica sua vida à prática espiritual e a projetos humanitários. Sua organização, a Karuna-Shechen, atende mais de 300 mil pessoas por ano nas áreas de saúde, educação e serviços sociais na Índia, no Nepal e no Tibete.
O que o homem mais feliz do mundo diz sobre a felicidade
Ricard é direto ao afirmar que não existe uma “fórmula instantânea”. Para ele, a felicidade não é uma sequência de momentos prazerosos, mas um estado mental treinável, construído ao longo do tempo com prática e perseverança.
Para o monge, a primeira virada de chave é largar a “busca egoísta” pela satisfação pessoal. Segundo Ricard, tentar ser feliz pensando apenas em si mesmo não funciona e tende a tornar a vida de todos ao redor mais difícil. O caminho oposto, o altruísmo, é apontado por ele como o principal motor do bem-estar genuíno: ao agir com generosidade e compaixão, a felicidade aparece como consequência natural.
O segundo ponto é o treinamento da mente. Ricard compara a meditação a qualquer outra habilidade, como aprender a mergulhar ou a jogar xadrez: com prática regular, o cérebro muda. A neurologista Claudia Klein aponta que o córtex pré-frontal, área responsável pelo autoconhecimento e pela regulação emocional, pode se remodelar com exercícios mentais, algo que Ricard já entendia na prática antes dos neurocientistas confirmarem em laboratório.
Qualquer um pode chegar lá
Quando questionado se é possível ser feliz sem virar monge budista, Ricard diz que sim. Para ele, qualquer pessoa que cultive gentileza, abertura para os outros e capacidade de se satisfazer com o que tem já está no caminho certo. Para ele, o budismo não é condição, foi apenas um contexto onde ele praticou essas habilidades.
A ciência, por sinal, sustenta parte dessa visão. Estudos de neuroplasticidade mostram que o treino mental pode alterar estruturas e funções cerebrais independentemente da idade, o que reforça a ideia de que a felicidade é menos dom genético e mais resultado de escolhas repetidas ao longo da vida.





