Ricardo Stuckert/PRLula e Janja chegam a Washington: encontro com Biden nesta sexta, 10

Ninguém é louco por ti

Os Estados Unidos perderam o interesse em liderar a América Latina, e o Brasil, que poderia assumir a dianteira, se perdeu por causa dos escândalos de corrupção, partidarismo ou puro desinteresse
10.02.23

Ao adiantar os assuntos que estarão na pauta do encontro entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, nesta sexta (10), diplomatas listaram mudança climática, defesa da democracia e dos direitos humanos, crise na Venezuela e invasão russa da Ucrânia. Porém, não existe a perspectiva de discutir integração econômica com novos acordos de livre-comércio ou cooperação política. A reunião deve acabar sem que qualquer um dos dois presidentes declare o interesse em liderar o continente ou tome as medidas necessárias para isso.

As coisas já foram diferentes no passado. Na Guerra Fria, entre 1954 e 1989, os americanos estavam atentos para o que acontecia ao sul do Rio Grande. Tanto é que se envolveram em golpes de Estado, tentativas de derrubar governos e ações de repressão em pelo menos 13 países na América Latina. Com a redemocratização na região, os EUA passaram a buscar uma integração mais econômica do que política. Em 1994, chefes de Estado e de governo de todos os países do continente, exceto Cuba, reuniram-se em Miami na primeira Cúpula das Américas, por iniciativa dos americanos. O principal resultado foi a largada das negociações para a Área de Livre Comércio das Américas, a Alca, que seria a maior zona de livre-comércio do mundo.

O principal responsável por enterrar a Alca foi o presidente Lula em seu primeiro mandato. Ao tomar posse em 2003, o petista se recusou a discutir o tema. A fase de negociações não se concluiu dentro do prazo determinado em Miami, no final de 2005, e a Alca morreu antes de nascer. Em seu discurso na Cúpula, Lula subiu no palanque para falar do “orgulho” do Brasil, que estava deixando de “ficar de costas” para a América do Sul, após “séculos olhando” para EUA e União Europeia. “O PT se opôs à Alca por ideologia, e os EUA deram margem para isso”, analisa o embaixador Rubens Barbosa, que representou o Brasil em Washington nessa época. Concomitantemente, com os atentados terroristas em 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos perderam interesse pela América Latina ainda mais, desviando suas atenções para o Oriente Médio.

Com o continente à deriva, o Brasil se absteve de assumir a liderança e passou a embarcar em projetos políticos criados ou apoiados por Cuba e Venezuela. Um deles foi a União das Nações Sul-Americanas, Unasul, fundada em 2008. Nascida da cabeça do ditador venezuelano Hugo Chávez, a entidade buscava expandir a influência dos governos identificados com o seu bolivarianismo. Logo em seguida, em 2010, criou-se a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, Celac. A instituição tinha como missão substituir a Organização dos Estados Americanos, OEA, que, por ter a participação dos Estados Unidos, entrava frequentemente em confronto com as ditaduras latino-americanas que desrespeitavam os direitos humanos. Ambos os projetos acabariam perdendo força por inutilidade. A Unasul foi abandonada por vários membros a partir de 2016 e sua sede, em Quito, no Equador, foi doada para uma universidade indígena. Em janeiro deste ano, Lula viajou para Buenos Aires para tentar dar um fôlego novo para a Celac, mas acabou sendo obrigado a ouvir um esculacho do presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou. Ele atacou o caráter de “clube de amigos ideológicos” dos diversos fóruns regionais, que servem apenas a discursos partidários, são “protecionistas” e não avançam em negociações comerciais.

Além de embarcar nos projetos bolivarianos, o Brasil buscou expandir sua influência na região com o BNDES, financiando a exportação de bens e serviços de engenharia em dezenas de bilhões de dólares para 17 países em todas as Américas até o final de 2015. Essa liderança forjada em empréstimos a juros baixos e condições vantajosas acabou tendo o efeito oposto do pretendido, com a revelação de escândalos de corrupção pela Lava Jato. Nove países latino-americanos beneficiados por empréstimos do BNDES foram citados na delação da Odebrecht às Justiças dos EUA e da Suíça em dezembro de 2016. Segundo relatório do Departamento de Estado americano, divulgado no ano seguinte, mais de 20 obras estavam sob suspeita de irregularidades e o montante de propina envolvido ultrapassou 385 milhões de dólares.

Um fator não menos importante que impediu que o Brasil assumisse a dianteira na região foi o desinteresse dos presidentes brasileiros. Dilma Rousseff, que governou entre 2010 e 2016, ignorou a política externa, ainda mais por causa da instabilidade doméstica. Seu sucessor, Michel Temer, precisou se concentrar em questões internas, e teve pouco tempo para olhar para fora. Além do mais, ele foi ignorado por governantes de vários países, que deram trela para a campanha de propaganda petista que tentou deslegitimá-lo, dizendo que Dilma tinha sido vítima de um golpe de Estado. Jair Bolsonaro só tinha olhos para o então presidente americano Donald Trump e, embora tenha se aproximado do Grupo de Lima, suas ações estavam mais no plano interno, repetindo sempre que o Brasil corria o risco de se tornar uma Venezuela. Bolsonaro foi “o Lula de sinal trocado”, afirma Barbosa. “Ele não falou com a Argentina por problemas ideológicos, uma loucura”, explicou.

Hoje, Lula articula a retomada das iniciativas de seus primeiros mandatos. Em Buenos Aires, em janeiro, ele anunciou a recriação da Unasul, extinta em 2018, participou de uma cúpula da Celac e afirmou que o BNDES financiará o gasoduto de Vaca Muerta, no sul da Argentina. Porém, as manchas geradas pelos escândalos de corrupção do passado e a proeminência das questões internas podem dificultar uma ação continental. “Lula tem potencial para liderar a América Latina, visto que não há candidatos com bom desempenho na política interna de seus países desenvolvendo uma ação coordenada com outros países na região. Contudo, o presidente brasileiro provavelmente terá de se concentrar mais em seus problemas internos”, diz o cientista político americano Peter Hakim, do think tank Inter-American Dialogue. O petista terá de contornar a oposição no Congresso, que já oferece resistência a um cavalo de pau na economia. Além disso, sua eleição se deu por apenas 1,8 ponto percentual, o que não lhe confere uma aprovação popular tão consolidada para que possa se projetar no exterior. Sem que Estados Unidos ou o Brasil se aventurem a liderar a América Latina, a região ficará cada vez mais marginalizada. “A única região no mundo sem integração é a América Latina. Então, ela se enfraquece e perde importância econômica-comercial”, explica Barbosa. Com cada país procurando cada vez mais perseguir os seus próprios interesses, ninguém é louco por ti, América.

Os comentários não representam a opinião do site. A responsabilidade é do autor da mensagem. Em respeito a todos os leitores, não são publicados comentários que contenham palavras ou conteúdos ofensivos.

500
  1. Bem lembrado, Caio Mattos. Lula ganhou a eleição, mas por pífios 1,8%. Foi um empate técnico. Por isso, é melhor ele "não se achar", como anda fazendo.

  2. Último tratado de Defesa entre EUA e Brasil e cooperação militar foi assinado em 2020 filmado pelo Southcom, com um intruso espectador, que 2 anos depois foi ser solidário ao homólogo genocida là n'a Rússia. É interessante para os EUA ter o Brasil como aliado, interessante também para União Europeia. O Brasil não é líder na América do Sul põe causa da escolha do sistema político ao cargo de Presidente, uma gentalha de ignorância abundante, escória.

  3. Os EUA apenas não largaram de vez a América Latina por puro orgulho, pois ficaria mal deixar outra potência brincar no seu quintal. De fato o Brasil deveria tentar liderar um processo de integração económica forte na região, mas temos líderes extremamente limitados: o governo PT só queria fortalecer iguais ideológicos; o governo Bolsonaro não fortalecia ninguém, pois tinha forte preconceito com o 3º mundo, e ignorava parceiros importantes por ser adversário ideológico. Imbecilidade e cegueira.

  4. O excesso de bebidas alcoólicas degenerou ainda mais o cérebro do luladrão. Os 2 anos de cadeia também não fizeram bem, apesar da presunção de tratamento do alcoolismo do expresidiário. Agora casado com uma pessoa de comportamento duvidoso, creio que ele queira mais diversão, pinga e sexo (rará)

  5. O Brasil junto com a Argentina, a Venezuela, Cuba. Tem como dar errado? Tem como não ficarmos ricos e fazer esgoto para os trinta milhões dos sem esgoto? Não tem. MS

  6. Essas sopas de letrinhas (Alca, Unasul, Celac) não decolam e jamais decolarão porque, no fundo, os governos dos países sul-americanos, em sua maioria, não inspiram nenhuma confiança. São governos repletos de casos de corrupção, malversação do dinheiro público e falta de vontade política por parte dos governantes - quase sempre populistas - em trabalhar pelo bem-estar do seu povo. Todos rezam a mesma cartilha, quanto pior, melhor - para mais facilmente obter seus interesses de riqueza pessoal!

    1. Bandidos sempre montam quadrilhas para roubarem em conjunto e se protegerem , estas com siglas. O Brasil sozinho vale mais do que todos os demais paises da ALatina. Na mão de pessoas certas é uma potencia, não precisa de quadrilha. Tivemos exemplo recente, só não admite quem se deixa levar pelas narrativas dos quadrilheiros, perpetuando-os. Não foi o que fizeram ? Dar aval ao maior corrupto do mundo, é muita alienação! E que me obriga ser representado por estas figuras. Que vergonha de voces

    2. Concordo também. O latino, até mesmo na Europa (Portugal, Espanha, Itália) traz a corrupção no DNA, é muito difícil de mudar. É como tentar emagrecer depois de uma certa idade e certo peso, é quase impossível.

    3. Falou tudo, tenho a mesma visão do mundo político da AL 👏👏👏👏 isso aqui não vai dar mais nada

  7. Lula precisa parar de "agredir" quem não reza por sua cartilha procurar a paz para melhor governar. Pensar no Brasil em primeiro e único lugar e deixar de lado suas ideias de financiar, via BNDES obras em outros países, temos milhares de obras inacabadas em nosso Brasil com desperdícios bilionários aguardando por finalizações. Vamos presidente Lula, vamos cuidar do Brasil e do sofrido povo brasileiro!

    1. Lula só quer que ser indicado pro Nobel da Paz. Ele realmente acredita nisso, que merece o prêmio. Pra mim ele voltava pra cadeia e levava o Boçal junto. Poderiam trocar idéias ideológicas até baterem as botas.

  8. E pensar quão importante foi a Lava-Jato para desvendar os trambiques organizados pelos camaradas e as "nobres" empreiteiras! E lembrar do energúmeno Bozo colocando fim nessa operação que só trouxe orgulho para o brasileiro honesto, trabalhador, pagador de impostos.

Mais notícias
Assine agora
TOPO