Encrenca Master
Crise do banco de Daniel Vorcaro mistura irresponsabilidade e jogo político pesado
Entre um terço e metade de todo o fundo que os bancos criaram — com o dinheiro dos seus correntistas e investidores — para proteger o sistema financeiro de uma quebradeira poderá evaporar nos próximos meses.
Tudo isso porque o Banco Master, comandado pelo mineiro Daniel Vorcaro, passou quatro anos captando dinheiro de milhões de brasileiros oferecendo juros irreais e usando os valores em operações suspeitas ou extremamente arriscadas.
Para agentes experientes do mercado financeiro que acompanharam o movimento desde o início, era evidente que a coisa nunca daria certo.
Mesmo assim, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Banco Central fizeram vista grossa.
Agora que a conta chegou, uma vez que a instituição não tem caixa para pagar de volta o que pegou emprestado dos brasileiros, o Banco Master articula para conseguir uma solução mágica, com a ajuda de seus padrinhos políticos.
O Banco Master já se aproximou de gente graúda em Brasília, como Guido Mantega ("o mago das pedaladas fiscais" de Dilma Rousseff), o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e atual ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, além dos senadores Ciro Nogueira (PP) e Antonio Rueda (União).
A empresa ainda contratou o escritório de Viviane Barci, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, segundo nota de O Globo. O banco não diz em quais processos a banca está trabalhando.
E tudo ainda pode ser resolvido sem que o principal responsável pela encrenca master, Daniel Vorcaro, sofra um único arranhão.
140% do CDI
Vorcaro multiplicou por dez o patrimônio de seu banco em quatro anos principalmente com a venda de CDBs.
O Master chegou a oferecer um retorno de 140% do valor do CDI, que se orienta pela taxa Selic, o juros do mercado.
Ao ver um banco pequeno, o Master, oferecendo taxas de retorno altamente rentáveis, os brasileiros, naturalmente desconfiaram.
Para atrair clientes, o Master argumentava em suas peças de propaganda que o Fundo Garantidor de Crédito, FGC, garantiria a devolução do dinheiro mesmo que o banco viesse a falir.
O FGC é uma instituição privada, que conta principalmente com a contribuição dos maiores bancos, assegurando o reembolso dos valores de CDB até o valor de 250 mil reais.
Usando o FGC como argumento, o Master atraiu milhões de brasileiros incautos, vendendo esses títulos principalmente por meio de plataformas digitais, como a XP.
O problema veio em seguida. Após coletar esse dinheiro, o banco precisa entregar o montante para empresas que consigam pegar dinheiro emprestado e devolver mais tarde valores ainda maiores, pagando juros exorbitantes.
É aí que a conta não fecha. As empresas que contraem dívidas nos bancos a juros muito altos, acima do mercado, só fazem isso porque não teriam como solicitar isso a outras instituições, com juros menores. Ou seja, estão desesperadas ou quebradas.
Nelson Tanure
A percepção piora quando se analisa o destino dos valores arrecadados pelo Banco Master com os CDBs dos brasileiros.
O dinheiro foi usado para comprar precatórios, que são dívidas dos governos que estão enroladas na Justiça.
Se um juiz qualquer obrigar o governo a pagar o valor, o lucro pode ser enorme. Mas, na maior parte das vezes, o comprador sai no prejuízo ou só recebe, tardiamente, uma parte do que tinha de direito.
Além disso, o Banco Master já foi acusado de aplicar o dinheiro sem critérios técnicos, para beneficiar o empresário baiano Nelson Tanure.
O Banco Master teria comprado ações, precatórios e investido em empresas em que Tanure teria alguma participação, mesmo gerando prejuízos para a instituição financeira.
Entre as companhias envolvidas com o Master estão a Oncoclínicas, um grupo de hospitais e clínicas oncológicas, Ambipar, MetalFrio, Gafisa e Restoque.
“O Banco Master chegou a comprar 20% das ações da Oncoclínicas, mas não é normal um banco comprar ações de uma empresa. Essa ação chegou a cair de 20 reais em 2021 a 2 reais este ano”, diz Rogério Mauad, professor de Finanças do Ibmec-SP.
A maior parte das empresas continua em dificuldades financeiras, mesmo após a injeção de dinheiro ou a compara de ações.
A suspeita é que Tanure seria, na realidade, o controlador do Master, e que o dinheiro dos compradores de CDBs e o caixa das empresas investidas ou compradas estaria sendo usado para beneficiá-lo.
A desconfiança é reforçada pelo fato de que, em 2023, a Comissão de Valores Mobiliários multou Tanure em 500 mil reais. Entre outras coisas, ele foi penalizado por omitir que era o controlador da Prio, ex-Petro-Rio.
Crusoé perguntou ao banco Master se Tanure seria o controlador oculto do Banco Master mas não teve resposta.
Solução
Ao captar bilhões de reais na praça e aplicá-lo em atividades controversas, o banco Master sabia que em algum momento daria um calote.
De acordo com o balanço publicado nesta quarta, 2, o banco só tem condições de pagar metade das obrigações que assumiu com os compradores de CDBs e CDIs até o final deste ano.
Caso a solução envolva o uso do Fundo Garantidor de Crédito, isso evitaria o contágio de outras instituições.
Mas essa utilização geraria uma grande injustiça, uma vez que quem pagaria a conta seriam os bancos maiores, que seguem as boas práticas financeiras, emitem CDBs menos atrativos que os do Master e financiam o FGC com o dinheiro dos seus clientes.
"Como o Banco Master tem um volume alto em operações com esses CDBs, ele pressiona o caixa do FGC, que, no limite, pode ficar sem dinheiro para honrar todos os compromissos no caso de insolvência da instituição. Por isso, o investidor deve sempre desconfiar de rentabilidades muito altas oferecidas em CDBs ou outros investimentos garantidos pelo Fundo. Cada vez mais, os bancos menores utilizam essa estratégia para tranquilizar o investidor, mas, aos poucos, estão sobrecarregando todo o sistema", diz o analista e consultor de investimentos Rodrigo Oliveira, que comanda o canal Esquina Sucupira.
Ostentação
O que torna tudo ainda mais indigesto é que Vorcaro leva uma vida nababesca, que em nada se parece com o perfil discreto dos banqueiros de longa data.
O mineiro, que vem do setor imobiliário, já comprou o hotel Fasano em São Paulo e em Belo Horizonte, uma mansão em Orlando por 37 milhões de dólares e uma mansão em Trancoso, na Bahia, avaliada em 280 milhões de reais.
Ele também é sócio do Clube Atlético Mineiro e gastou 15 milhões de reais na festa de debutante da filha, em agosto de 2023. No palco da festa, tocaram o DJ Alok e a dupla americana The Chainsmokers.
E, mesmo com toda a confusão, essa ostentação pode nunca ter fim.
Na sexta, 28, o Banco Regional de Brasília, BRB, um banco público do Distrito Federal, anunciou a intenção de comprar o Banco Master por 2 bilhões de reais.
Se a negociação for aprovada pelo Banco Central, o BRB ficaria com 58% do capital total e 49% das ações ordinárias, com direito a voto, do Master.
Com isso, o BRB não passaria a dar as cartas no Master.
E, o mais chamativo: Vorcaro seguiria como controlador do Banco Master, que passaria a se chamar BRB Banco de Investimentos.
Padrinhos políticos
Ao tocar uma operação insustentável, Vorcaro foi hábil em se aproximar da política para garantir seu próprio sucesso, mesmo quando os negócios degringolam.
No ano passado, o Banco Master contratou o economista Guido Mantega como consultor, de acordo com O Globo.
Conhecido como o “mago das pedaladas fiscais” no governo de Dilma Rousseff, Mantega nunca é chamado pela sua capacidade como consultor, mas pela sua rede de contatos.
Cumprindo com as expectativas, ele conseguiu uma reunião entre Vorcaro e o presidente Lula.
O Master também contratou Ricardo Lewandowski, ex-ministro do STF, para participar de um "comitê consultivo". Ele só deixou o posto ao assumir o Ministério da Justiça, em 2024.
Também no ano passado, dois gerentes da Caixa Econômica Federal foram demitidos após se opor à compra de um lote de 500 milhões de reais em letras financeiras do Banco Master.
As demissões indicam uma pressão política para que o negócio fosse aprovado.
Se a Caixa recusou a proposta, cinco fundos de pensão de funcionários públicos de prefeituras e estados, mais suscetíveis à interferência política, investiram 1,1 bilhão de reais no banco.
Em abril, o Banco Master foi um dos patrocinadores do 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, que aconteceu em Londres.
Vorcaro custeou a palestra com o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, em que os dois fizeram um debate para uma plateia de brasileiros.
Também participaram do Fórum os ministros do STF Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli.
Do Superior Tribunal de Justiça estavam cinco ministros. Entre eles, Luis Felipe Salomão.
Proposta de compra
A proposta de compra pelo BRB é o ápice desse processo político que vem sendo tramado há tempos, mas ganhou força no ano passado.
Caso seja aprovada pelo Banco Central, a operação levaria um banco público regional a ganhar presença nacional pela aquisição de uma instituição privada, em uma estatização disfarçada.
A investida conta com o aval do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, do MDB, que prometeu aos seus eleitores “um banco público nacional” que “atuará em áreas de investimento”.
Os presidentes do PP, Ciro Nogueira, e do União Brasil, Antônio Rueda, chancelaram a compra e são próximos de Vorcaro.
Sendo assim, o resultado da ação inconsequente de um pequeno banco privado pode acabar em uma operação de resgate paga com o dinheiro dos grandes bancos e de seus correntistas, criando um banco estatal regional com presença nacional para servir a propósitos políticos.
O Banco Central, agora sob o comando de Gabriel Galípolo, indicado por Lula, tem 360 dias para avaliar a compra do Master pelo BRB.
Na terça, 1º de abril, Galípolo encontrou-se pessoalmente com Daniel Vorcaro no edifício-se do Banco Central, em Brasília, para "tratar de assuntos institucionais".
O Brasil não é um país para amadores.
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Comentários (10)
ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO
2025-04-10 17:23:58Ainda bem que o eleitor recolocou na presidência da república um verdadeiro representante da classe trabalhadora e tudo isso irá acabar. KKKKK!
Cyro Costa Junior
2025-04-06 17:09:01Excelente reportagem que os técnicos do Banco Central deveriam ler para aprender a fazer o seu trabalho. Sinto pela demissão dos dois gerentes da CEF, sabemos quão difícil é lutar contra a corrupção neste país, os guerreiros da Lava Jato que o digam. A promiscuidade entre empresários e ministros das mais altas cortes de justiça deste país é uma VERGONHA. Caso seja concretizada a compra deste banco pelo BRB sem dúvida a podridão está escancarada e quanta gente "ilustre" envolvida nesta tramóia.
Carlos Eduardo Tavares da Silva
2025-04-06 16:14:35Parabéns Duda Texeira e OA pela reportagem relevantíssima para o jornalismo independente nacional. Banqueiros oportunistas se dando bem no Brasil, nem detecção dos órgãos reguladores e fiscalizadores, seguidos de uma operação de resgate financeiro disfarçada de "aquisição estratégica", dessa vez por um banco estatal, o que "socializa" os prejuízos ao contribuinte? Não, imagina se já ocorreu isso no Brasil, um absurdo! Importante lembrar que episódios controversos no setor bancário ocorrem em diversas ocasiões após a redemocratização. Agora, "o Mecanismo" foi muito bem construído para beneficiar os Poderes da República, cada um - Executivo, Legislativo e Judiciário - receberam seu quinhão para solucionar o problema. Meus parabéns Brasil, seguimos confiando que seremos SEMPRE o "País do Futuro".
Gabriel Cajaty
2025-04-06 15:12:44Esse VORCARO tem gastos particulares parecidos com o antigo controlador do extinto Banco Santos!!!
Miguel
2025-04-05 20:32:29Sou cooperado de cooperativa de Crédito; todos os anos são provisionados-destinados- parte das sobras para o Fundo Garantidor de Crédito. Pelo visto, até os pequenos cooperados vão arcar com essa lambança!
Fausto Costa
2025-04-05 10:56:43O Brasil não tem mais jeito. Trata-se de uma lixeira fétida da qual não conseguiremos sair NUNCA! Essa imundice está tão bem emaranhada, tudo tão bem casado e tão bem concebido que nem daqui a 100 anos nos livramos dessa corja nefasta. Sobram poucos e os que sobram não conseguem fazer nada decente pois são calados pela maioria pusilânime. Que nojo!!
Marcia Elizabeth Brunetti
2025-04-05 09:40:02É um caso interessante, principalmente quando se vê o nome dos nossos juízes envolvidos com o empresário. Além deles, seus parentes e amigos. Ainda bem que não investi nesse Banco, mas vale lembrar que os lucros muito altos deves sempre gerar suspeitas. O povo perde dinheiro e o Vorcaro ganha nos gastos estratosféricos. Enfim, só aproveito o momento para saudar o grande Rodrigo Oliveira.
Andre Luis Dos Santos
2025-04-04 19:52:00Pergunta idiota: algum desses FILHOS DAS PUTAS vai ser preso? Ou o PT e varrido do poder em 2026, ou o Brasil vai quebrar. Vai conseguir se tornar uma Venezuela.
Clayton De Souza pontes
2025-04-04 13:15:12São muitas as dimensões que parecem não republicanas nessa confusão , e mais uma vez vai sobrar pro contribuinte pagar pelas falcatruas dos poderosos
Gilberto Aparecido Americo
2025-04-04 12:42:44Ué! Por quê o Tanure não compra o banquinho?