Agência Senado"Queremos aprofundar o regime já adotado pelos países avançados, que oferecem melhores condições de vida"

Horizonte promissor

Escolhido para o posto de embaixador do Brasil em Washington, o diplomata Nestor Forster aposta que os negócios com os americanos vão se ampliar e que as relações com os Estados Unidos seguirão fluidas independentemente do resultado da corrida presidencial
01.05.20

Nestor Forster, de 57 anos, conta os dias para ser nomeado oficialmente o novo embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro, ele já foi sabatinado pelo Senado, como manda a lei, e teve seu nome aprovado por unanimidade pela Comissão de Relações Exteriores. Agora falta apenas aprovação pelo plenário.

No Itamaraty há 36 anos, o diplomata, que já serve em Washington como encarregado de negócios da embaixada, participou da comitiva presidencial que esteve na Flórida, em março. No resort em Mar-a-Lago, esteve à mesa do jantar do presidente brasileiro Jair Bolsonaro com o americano Donald Trump. A viagem prometia impulsionar a agenda bilateral em várias áreas. Mas, assim que ela acabou, outro assunto tomou as manchetes: 25 dos integrantes da comitiva foram diagnosticados com o coronavírus, incluindo o próprio Forster.

Foram oito dias de isolamento até a volta ao trabalho. Embora admita que um acordo de livre comércio é algo mais complicado de construir, o virtual embaixador tem participado ativamente das negociações para ampliar os negócios entre os dois países. Também vem trabalhando na costura para o ingresso do Brasil na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, a OCDE. Forster falou a Crusoé na semana passada, de sua casa, na capital americana.

Logo após a visita do presidente Jair Bolsonaro à Flórida, em março, vários membros da comitiva, incluindo o sr., testaram positivo para o coronavírus. Como foi pegar a doença?
Nós voltamos da Flórida em 10 de março. Dois dias depois, recebi a notícia de que um integrante da comitiva (Fábio Wjangarten, secretário de Comunicação da Presidência) tinha pegado o coronavírus. Eu estava na embaixada, em Washington, mas não apresentava nenhum sintoma. Ainda assim, achei prudente fazer o exame e tomar as medidas preventivas para proteger os mais velhos. Também orientei nossos funcionários a trabalhar de casa. O resultado do meu exame saiu no dia seguinte e deu positivo. Tive sorte porque meu caso foi muito suave. Foram oito dias de sintomas, entre febre, congestão e muita fadiga. Meu tratamento basicamente foi com líquidos e alimentação normal. Não tomei remédios. Entre os 100 colegas que também trabalham na embaixada, não tivemos nenhum outro caso. Isso mostra que fizemos a coisa certa. Conseguimos manter a embaixada funcionando e também a nossa rotina de trabalho. Uma semana depois, eu já estava bom novamente.

O que aconteceu com as negociações em curso?
Nosso grande desafio tem sido preservar os avanços na agenda bilateral, apesar de uma óbvia e necessária atenção que se deve dar à pandemia do coronavírus. Nesse esforço, temos tido resultados muito positivos. Na Flórida, assinamos um acordo de cooperação que permite pesquisa conjunta na área de defesa, o qual ainda precisa ser aprovado pelo Congresso. Também realizamos conversas com o representante comercial americano, Robert Lighthizer, visando a uma aproximação econômica e comercial. Para a próxima reunião da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (a OCDE), em que se debaterá a entrada de novos membros, o apoio dos Estados Unidos ao Brasil continua firme e sólido (a reunião estava originalmente marcada para maio. Com a pandemia, o encontro poderá ser realizado virtualmente em outra data).

Agência SenadoAgência Senado“A embaixada não tem conhecimento de confisco algum”
Teremos um acordo bilateral mais adiante?
Não é tudo isso. Nos Estados Unidos, a negociação de acordos de livre-comércio, que implicam em mexer nas tarifas, é uma prerrogativa constitucional do Legislativo. Para chegar a essa etapa, várias condições precisam ser cumpridas. Mas há muitas outras coisas que podem ser feitas e que não requerem aprovação legislativa. É possível facilitar os negócios harmonizando os regulamentos, por exemplo. São questões que podem ser vencidas em um prazo relativamente curto, até o final do ano.

Para entrar na OCDE, o Brasil concordou em renunciar ao status de país em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio, a OMC. Foi uma troca inteligente?
Do ponto de vista prático, o status de país em desenvolvimento não representava nenhum benefício ou vantagem para o Brasil. Ao contrário, isso era usado muitas vezes como desculpa para a ineficiência, para o atraso. Não entregamos nada de importante. Pelo contrário, nós nos livramos de um empecilho. A OCDE, por outro lado, é de uma importância absolutamente fundamental. É o grande marco regulatório para países que têm economia de mercado. Ao anunciar que a OCDE é o nosso objetivo, mandamos uma mensagem bem clara para o resto do mundo. Queremos aprofundar o regime já adotado pelos países avançados, que oferecem melhores condições de vida para a população. Vamos modernizar nossa economia e reduzir o custo Brasil.

A diplomacia brasileira tem dado demasiada atenção aos Estados Unidos em detrimento da China?
Temos de saber de onde a gente vem. A relação com os Estados Unidos é a mais antiga e mais próxima que o Brasil tem. Eles foram o primeiro país a reconhecer a independência do Brasil, em 1824. Um tratado de amizade e cooperação foi firmado em 1828. Ao elaborar a primeira Constituição republicana do Brasil, em 1891, Rui Barbosa se inspirou largamente na Constituição americana. Adotou valores como o princípio federativo e o equilíbrio de poderes. É natural que haja uma relação especial. Compartilhamos os mesmos valores, como a democracia, o estado de direito, a liberdade de consciência e a religiosa. Se olharmos para a história recente do Brasil, veremos que o país estava de costas para os Estados Unidos. A relação estava muito aquém do seu enorme potencial. Agora, em um momento em que há uma aproximação dos dois chefes de estado, Jair Bolsonaro e Donald Trump, essa identidade profunda pode aflorar com grande intensidade.

Essa é a melhor opção para fazer a economia brasileira crescer?
Se olharmos para a história do mundo dos últimos 70 anos, veremos que todos os países que deram um salto econômico tinham uma relação especial com os Estados Unidos. Depois da Segunda Guerra, vimos o progresso do Japão e da Alemanha. Também foi esse o caso do Chile nos anos 1970 e 1980. As economias do México e do Canadá se expandiram com o Nafta. Nem mesmo a China seria a potência que é hoje sem uma boa relação com os Estados Unidos a partir dos anos 1970. O Brasil ficou muito tempo olhando para os lados. Com o governo de Bolsonaro, voltou-se para o seu próprio hemisfério. Mas isso não está sendo feito em detrimento da relação com nenhum outro país. A China é o maior parceiro comercial do Brasil em termos de volume de comércio. Temos interesses importantes com a China e queremos que eles sejam preservados. Da mesma maneira, temos interesses com os Estados Unidos. São coisas que não se comparam.

Equipamentos médicos comprados por governos do Nordeste foram confiscados em Miami?
A embaixada não tem conhecimento de confisco algum. Saíram notícias enganosas a esse respeito. O que nos chegou foi que o governo do estado da Bahia fez uma aquisição, mas a exportadora cancelou o envio dos equipamentos, alegando, primeiro, que estava impedida de adquirir esses produtos. Nós verificamos a legislação, conversamos com a Casa Branca, e isso tudo foi desmentido. Não havia absolutamente nenhum impedimento legal à exportação de equipamentos para coronavírus. Depois disso, a empresa admitiu que exagerou na resposta ao estado da Bahia e que, na realidade, eles tinham arranjado outro comprador. Em resumo, foi uma operação comercial, em que o exportador resolveu vender para outro cliente que ofereceu mais. Como se trata de uma negociação comercial, a embaixada não se mete. O que fizemos foi oferecer ajuda ao governo da Bahia para encontrar outro fornecedor. Mas isso nada tem a ver com medidas tomadas pelo governo americano. A palavra “confisco” me parece totalmente inapropriada.

Ao usar a Lei de Produção para a Defesa (a Defense Production Act, em inglês), o governo americano poderia realizar esses confiscos?
Essa legislação permite que o governo federal dos Estados Unidos redirecione a produção de empresas ou suspenda a exportação de produtos considerados importantes para a segurança nacional. Os americanos querem ter certeza de que dispõem dos recursos necessários para combater a doença. Não sei dizer se isso afetou o Brasil. Não tenho conhecimento de nenhuma operação que tenha prejudicado importações brasileiras.

DivulgaçãoDivulgação“Nós não queremos prolongar a detenção de um cidadão brasileiro”
O Brasil tem sido submisso ao permitir que os Estados Unidos deportem brasileiros detidos ao tentar entrar ilegalmente no país?
De forma alguma. A admissão ou não de um estrangeiro no território de um país é um ato soberano. O Brasil deixa entrar em território brasileiro quem as autoridades imigratórias permitirem, de acordo com a lei. Aqui não é diferente. Com relação aos brasileiros que tentam emigrar ilegalmente para os  Estados Unidos, nossa posição é a de prestar assistência. É uma tradição nossa, reconhecida pela comunidade brasileira nos Estados Unidos. Visitamos a pessoa, vemos se ela está sendo bem tratada, se sofre discriminação. Agora, uma vez que alguém é detido em situação irregular, o assunto entra na esfera da legislação americana.

Os diplomatas brasileiros têm cooperado com as autoridades americanas?
Às vezes, usa-se a palavra “cooperação” em sentido ambíguo, como uma crítica. O que nós fazemos é identificar o nacional brasileiro como tal. É nossa obrigação. Sem esse trabalho, esse indivíduo ficaria sem pátria e teria prolongada sua detenção indefinidamente por uma questão burocrática. Há convenções internacionais que obrigam os países a fazer isso. Assim, uma vez identificado, o indivíduo pode ser deportado para o Brasil. Nós não queremos prolongar a detenção de um cidadão brasileiro. Achamos que é melhor ele estar livre no Brasil do que continuar preso em outro país. Parece óbvio, não? Ninguém gosta de ficar detido. Eu conversei com o chefe da área de imigração nos Estados Unidos e ele me disse que pretende aprimorar as instalações. Apesar disso, elas não perderão a condição de ser um lugar de detenção: uma prisão. Ninguém gosta de ficar em um ambiente assim.

Como estão os números de brasileiros detidos tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos?
Esses números caíram muito este ano, mas não sabemos exatamente qual foi o efeito da pandemia. No ano passado, tivemos um aumento forte do total de brasileiros tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Isso tem a ver com o crime organizado, com o tráfico de pessoas. Eles entram em contato com indivíduos e famílias em certas regiões do Brasil. Cobram preços extorsivos para trazer as pessoas ilegalmente. Às vezes, os brasileiros vendem tudo o que juntaram e ainda contraem empréstimos. No final, são apreendidos na fronteira e voltam para o Brasil. É uma fonte enorme de frustração. A Polícia Federal e o Ministério da Justiça estão fazendo um trabalho enorme para combater essas organizações e estancar o problema.

Por que essas organizações criminosas se voltaram para o Brasil no ano passado?
Após diversas medidas tomadas pelos governos dos Estados Unidos e de países da América Central, o número de centro-americanos dispostos a cruzar o México caiu muito. Com isso, as organizações criminosas perderam renda e se voltaram para o Brasil. Foi então que notamos um aumento expressivo de famílias brasileiras tentando entrar nos Estados Unidos, sem que existisse uma razão econômica para isso. No ano passado, a economia estava melhorando e o desemprego, diminuindo. Não havia justificativa para uma elevação nesse fluxo de gente.

O Brasil está preparado para lidar com um presidente democrata no ano que vem, caso Donald Trump seja derrotado nas eleições de novembro?
É claro que a relação que se tem hoje com o presidente republicano é única, mas nós estamos preparados para lidar com qualquer presidente, de qualquer partido. Sempre estivemos. Não sabemos qual será o resultado das eleições. E isso é fundamental numa democracia: temos de estar preparados para a alternância de poder. Aqui, a Câmara dos Representantes tem maioria democrata. Por causa disso, os presidentes das comissões, que são os parlamentares-chave, são do Partido Democrata. A Frente Parlamentar Brasil-Estados Unidos é copresidida por um republicano e por um democrata. Nós temos excelentes relações com os dois e procuramos sempre manter esses canais abertos.

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500
  1. Espero que o Embaixador, com a sua expertise da carreira diplomática, consiga desativar as trapalhadas BOÇALnarianas e as armadilhas montadas pelo ArnestOLAVISTA.

  2. Terá passado no principal crivo presidencial: ser terrivelmente evangélico? É bom tomar uma aula com os ungidos e ungidas de plantão.

  3. E reconfortante saber que temos um diplomata ja familiarizado com os americanos pois para o Brasil é muito importante os Eua, é uma enorme economia e nos devemos nos aliar pra fortalecer nossas exportações, é o que + interessa

  4. Todo diplomata adota um discurso assim em cima do muro, desconversando, não respondendo algumas perguntas etc. cabe sempre lembrar que esse Nestor Foster é olavista de carteirinha, o que não é bom sinal.

  5. Coisa engraçada.... o kim jong-un apareceu mas não apareceu!.... Apareceu mas não há foto alguma provando que ele apareceu.... apareceu mas não apareceu muito.... rsrsrsrs...... quem sabe não precisamos desistir de sonhar e ele desapareceu..... mesmo!

    1. A história continua esquisita.... essa foto seria autenticamente do tal dia da inauguração?.... Falhar nas comemorações sempre fanaticamente tratadas..... muito estranho.....

  6. + Brasil sempre, temos gente boa e uma base industrial razoável , mais USA para ajudar nosso crescimento tecnológico/comercial e, menos China sempre.

  7. Sem contar as perguntas com viés prejudicial ao governo Trump que esta’ virtualmente reeleito, e tentar colocar o Brasil de uma maneira “subserviente” - essa foi a única reportagem que tivemos essa semana no blog. O embaixador Foster e’ muito bom, preparado e entende claramente quais são os pontos importantes para a diplomacia e estado brasileiro. O blog vai ter dificuldade em promover a agenda do lobista que ocupa a cadeira do governo de SP, tentando vender tudo para o dragão por uma comissao

    1. Esse Doria vai cair do dragão já ,já ; ops do cavalo também . Está vendendo o país

  8. Dá até pena dos repórteres ou seja lá o que escrevem esses artigos da Crusoe! O titulo da reposição deveria ser morre um candidato! Afinal para seu conhecimento, Moro fazia parte do governo! Óooo surpresa? E provavelmente seria o candidato com melhores chances após a saída de Bolsonaro na próxima ou na outra eleição!! Moro perdeu uma valiosa chance, pois a esquerda o odeia e JAMAIS vai esquecer do carrasco de Lula e a direita o considera um traidor e politicamente fraco a pressões! 😘

    1. Que direita playboy? O gado bozotralha? Nao vai chegar a 15% do eleitorado - turma marginal tipo eleitorado Ciro Gomes.

    2. você não sabe mesmo o que fala, a gula do seu político de estimação faz com que ele engula qq um q brilhe mais do que ele, mas isso acabou com o lula, o bolsonaro caminha para a destruição causada por ele mesmo, logo ninguém mais aguentará ouvir a sua voz, assim como lula e dilma.

    1. Citibank, HSBC se acovardaram. O Bank of America (BofA) que deveria vir ao Brasil; é um banco de varejo, não cobra tarifa de manutenção de conta e em 2008 passou bem pela crise, pois não tinha derivativos pesados em sua tesouraria.

  9. Até que enfim um rumo correto de Bolsonaro quanto à embaixada brasileira nos Estados Unidos. A outrora indicação de seu filho para este posto foi um ato de molecagem do Presidente. Seria desprestigiar os diplomatas de carreira.

  10. Simples: todo país que comercializa com os EUA ficam ricos, aqueles que comercializam com a China viram escravos. Escolham. Parabéns Nestor Foster, pelo brilhante trabalho e entrevista. Falar em submissão é abjeto quando vemos que no passado recente o Governo petista seguiu regras de uma entidade chefiada por traficantes, assassinos e ladrões.

    1. Concordo com o senhor! Quanto à imigração, ambos os lados procuram seguir as leis; infelizmente, as tentativas ilegais de entradas por brasileiros superam muito a eventual vinda ilegal de americanos para cá. Basta um brasileiro ser barrado por tentativa ilegal, todos aqui esbravejam.

  11. Mesmo se esforçando bastante para arrancar uma crítica ao governo brasileiro ou americano,o jornalista tomou um baile do futuro embaixador, sério,equilibrado e técnico,e indicado pelo Bolsonaro viu amigues.

    1. Jornalismo brasileiro, assim como o estrangeiro, está deixando a desejar.

  12. o embaixador se saiu brilhante da ratoeira do entrevistador. Pela relevância do assunto, o antagonista se viu obrigado a publicar. Leitores apurados perceberão a arapuca das perguntas!!! kkkkk

    1. Concordo. Incrível que o jornalismo se rebaixou ao nível dos comentaristas e repórteres esportivos

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