Irã e EUA se aproximam de acordo, mas divergências persistem
De mudança de regime e zero enriquecimento para cessar-fogo e sanções parciais: os recuos de Trump nas negociações com o Irã
Donald Trump passou o fim de semana tentando calibrar as expectativas em torno de um possível acordo com o Irã. Nesta segunda-feira (25), ele publicou uma longa mensagem em sua rede social afirmando que as negociações estão progredindo bem, mas reforçou que só aceitará “um grande acordo para todos ou nenhum acordo”.
Autoridades americanas e iranianas confirmam avanços nas conversas, embora pontos centrais ainda permaneçam sem definição, especialmente sobre suspensão de sanções econômicas, limites ao enriquecimento de urânio e mecanismos de fiscalização e cumprimento do acordo.
As negociações ganharam velocidade após a forte pressão sobre os preços do petróleo e o impacto do bloqueio no Estreito de Ormuz.
Nesta segunda-feira (25), o petróleo Brent caiu cerca de 5%, com investidores apostando que o fluxo de petróleo pode se normalizar nas próximas semanas caso um acordo seja fechado. Nas bolsas asiáticas, os mercados registraram recuperação, enquanto o dólar perdeu força diante da expectativa de redução das tensões.
Trump vinculou explicitamente o acordo com o Irã à expansão dos Acordos de Abraão. Em um telefonema no sábado com líderes regionais (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Paquistão, Turquia, Egito, Jordânia e Bahrein), ele defendeu que esses países assinem simultaneamente os Acordos como parte do pacote.
Trump afirmou que isso tornaria o acordo “muito mais histórico” e chegou a sugerir que, no futuro, o próprio Irã poderia integrar essa iniciativa, o que exigiria reconhecimento de Israel por Teerã.
No post, Trump destacou que os Acordos de Abraão trouxeram ganhos econômicos aos países já participantes e descreveu o potencial de criar “paz verdadeira no Oriente Médio pela primeira vez em 5.000 anos”.
O problema para Trump é que a resistência ao acordo cresce dentro da base republicana e entre aliados de Israel. Parlamentares conservadores e grupos pró-Israel criticam a possibilidade de o Irã manter a capacidade de enriquecimento nuclear durante um período de transição.
Relatórios de inteligência citados pela imprensa americana indicam que o país preservou cerca de 70% de sua capacidade de lançamento de mísseis e drones.
Governos do Golfo apoiam o esforço de encerrar o conflito atual, mas demonstram preocupação com um eventual fortalecimento do regime iraniano caso as sanções sejam aliviadas prematuramente.
Os termos discutidos até o momento preveem um cessar-fogo de 60 dias, livre passagem no Estreito de Ormuz, alívio parcial das sanções e retomada das exportações de petróleo iraniano, em troca da reabertura das negociações nucleares.
O desenho do acordo representa um grande recuo em relação aos objetivos defendidos por Trump no início da crise, como mudança de regime, restrições totais a mísseis balísticos, enriquecimento zero e remoção do estoque de urânio altamente enriquecido.
Diplomatas envolvidos relatam receio de que o cessar-fogo temporário se torne apenas uma pausa antes de novas crises. Mesmo com os avanços, ambos os lados continuam emitindo sinais contraditórios. Trump afirma que não tem pressa e que o tempo está do lado dos Estados Unidos, enquanto autoridades iranianas destacam que ainda há divergências importantes e, com a capacidade de fecharem novamente o Estreito de Ormuz mantida, descartam um anúncio imediato.
Nos bastidores, mediadores europeus e de Omã tentam construir uma fórmula que permita apresentar o acordo como vitória para os dois lados, especialmente na definição de retirada de sanções e mecanismos de verificação de cumprimento do acordo.
Integrantes da Casa Branca admitem que um fracasso nas negociações, após tantos recuos e adiamentos, poderia provocar nova disparada nos preços do petróleo e aumentar a pressão política sobre Trump antes das eleições legislativas de novembro.
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