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    Edição Semana 398

    Mainardi não vai para o céu

    O livro "Meus Mortos" pode ser lido como o epitáfio adiado de um homem cínico, que se despede dos seus antes da hora

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    Gustavo Nogy
    3 minutos de leitura 12.12.2025 03:30 comentários 7
    Diogo Mainardi. Reprodução/redes sociais
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    Diogo Mainardi é um homem de muitas existências e de muitas desistências.

    Foi estudante da London School of Economics e logo saiu da universidade. Depois de se graduar e pós-graduar no que interessava, sob a (des)orientação do Ivan Lessa, aproveitou o embalo, seguiu o bom mau exemplo do mestre e foi embora do Brasil.

    Escreveu e produziu filmes, mas desistiu do cinema. Depois de publicar Malthus, Arquipélago, Polígono das Secas e Contra o Brasil, mandou a literatura às favas.

    Para enganar o tédio, virou o colunista mais influente da Veja.

    O tempo passou, o país parou e ele se cansou da influência, do colunismo e da Veja.

    Falou tudo o que quis, até que não quisesse falar mais nada no Manhattan Connection.

    Fundou O Antagonista e encheu o saco do jornalismo chapa-branca, enquanto se enchia da imprensa, da política, dos leitores.

    Até do Lula, de quem foi o melhor inimigo, ele desistiu.

    Primeiro com A Queda, em que conta a história, entre outras histórias, do erro médico que fez seu filho Tito nascer com paralisia cerebral, e agora com Meus Mortos, em que perambula por Veneza com o filho Nico e o cachorro Palmiro, Mainardi parece ter abandonado qualquer esperança.

    Sem o peso da esperança, pode continuar.

    Como um materialista que tivesse fé no espírito artístico, como um budista a quem irritassem as iluminações, ele faz do seu livro um hilário álbum de retratos em que se mostra e se esconde por meio da pintura de Tiziano, das saudades do irmão, dos desencontros com o pai, das cinzas da mãe.

    Ele sabe que somos feitos dos mortos e dos vivos que nos habitam e que habitamos.

    A opção retrô – e experimental – pela fotonovela causa estranheza a princípio, mas é uma ótima solução formal. Mainardi junta o cômico e o melancólico, o factual e o ficcional, o histórico e o biográfico, a arte e a peste para costurar, se possível for, algumas porções de sentido em meio ao absurdo.

    O livro pode ser lido como o epitáfio adiado de um homem cínico, que se despede dos seus antes da hora, porque nunca se sabe quando chega a hora. Mas também pode ser lido como a saudação de um homem que, depois de desistir da vida, resolveu desistir da morte. Só pra ver o que será.

    Gustavo Nogy é escritor

    X: @GustavoNogy

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    Gustavo Nogy

    Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

    Comentários (7)

    Lilian Ermida

    2025-12-14 22:42:01

    O livro é muito, muito bom!!!


    Leila Sibele Pilger Glufke

    2025-12-14 18:25:45

    Excelente! Gosto muito do Mainardi, há muito tempo


    Marcia

    2025-12-14 08:57:38

    Mainardi deixa muita saudades pelo seu trabalho e por ser o que é. Desejo a ele vida longa ainda que ele já exalte a morte.


    Glecy Bragazzi Borja

    2025-12-13 16:38:51

    L I N D O !!!!


    Denise Pereira da Silva

    2025-12-12 21:24:42

    Que texto lindo, Gustavo Nogy. Sensível e comovente. Captou muito bom o espírito irrequieto e indomável de Diogo Mainardi, ser humano que muito admiro e a quem desejo tudo de bom no entender do mesmo.


    Avelar Menezes Gomes

    2025-12-12 17:25:07

    Esse negocio de desistir da morte, será que funciona ?


    Albino

    2025-12-12 08:05:39

    Cacilda!!!


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    Comentários (7)

    Lilian Ermida

    2025-12-14 22:42:01

    O livro é muito, muito bom!!!


    Leila Sibele Pilger Glufke

    2025-12-14 18:25:45

    Excelente! Gosto muito do Mainardi, há muito tempo


    Marcia

    2025-12-14 08:57:38

    Mainardi deixa muita saudades pelo seu trabalho e por ser o que é. Desejo a ele vida longa ainda que ele já exalte a morte.


    Glecy Bragazzi Borja

    2025-12-13 16:38:51

    L I N D O !!!!


    Denise Pereira da Silva

    2025-12-12 21:24:42

    Que texto lindo, Gustavo Nogy. Sensível e comovente. Captou muito bom o espírito irrequieto e indomável de Diogo Mainardi, ser humano que muito admiro e a quem desejo tudo de bom no entender do mesmo.


    Avelar Menezes Gomes

    2025-12-12 17:25:07

    Esse negocio de desistir da morte, será que funciona ?


    Albino

    2025-12-12 08:05:39

    Cacilda!!!



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