DivulgaçãoCena do filme Vá e Veja, de Elem Klimov: na arte, o feio é belo

Para que serve a arte

É na vida contemplativa do espírito que ela encontra seu papel central
15.06.23

Existe um paradoxo fundamental em se tratando de arte. O paradoxo é: por princípio, a arte não serve para nada. Entretanto, não se pode conceber a vida humana ou a cultura dos povos sem ela. Nem mesmo a religião, os Estados nacionais, a vida nas cidades poderiam existir sem arte.

É exatamente por não servir para nada especificamente que ela acaba tendo diversas funções – nenhuma delas exclusiva.

Especialmente na pandemia – com as pessoas confinadas em casa – ficou evidente a importância do cinema, da música, da literatura. As pessoas usaram a arte para se entreter, se distrair, aprender, pensar, ou apenas passar o tempo.
Definir como função da arte qualquer uma dessas coisas, entretanto, seria reduzi-la.

O cinema comercial é muito voltado para o entretenimento. Mas muitas obras, feitas para o simples entretenimento, terminaram atingindo muito mais. Casablanca, o clássico de Michael Curtis, foi um filme comercial voltado para o entretenimento das massas. Mas não há quem duvide que esse filme é muito mais do que isso.

Para quem trabalha com arte esse paradoxo pode ser um problema. Fazer arte exige recursos, especialmente o cinema. Um longa-metragem costuma custar milhões e para conseguir o dinheiro é preciso apresentar um objetivo, uma função. A função mais comum que se alega ao fazer um filme é “mostrar uma realidade”. Seja a realidade de um povo, de uma época, de um fato histórico, de um personagem relevante – esse último é muito comum no cinema brasileiro feito nos últimos anos, viciado em cinebiografias.

Nesse sentido, a arte teria uma função educativa. Só que isso ainda é muito pouco. Se ficarmos apenas nesse aspecto, ela reduziria consideravelmente a sua atuação.

Em 2006, numa palestra em Brasília, Bruno Tolentino respondeu à pergunta: “Para que serve a poesia?”. A resposta que ele deu foi: “Espero que não sirva para nada”. E continuou: “Ela é uma oportunidade que o espírito tem para se manter num nível sempre mais elevado”.

Chegamos a uma questão central: o elemento espiritual na arte. Ananda Coomaraswamy diz que a arte não tem uma função prática, mas espiritual. A arte pode servir para entreter, para informar, para educar o gosto, para representar uma época um questão moral ou ética relevante, mas é na vida contemplativa do espírito que ela encontra seu papel central.

Roger Scruton fala da importância da beleza na arte. É evidente que a beleza é um elemento importantíssimo, apesar de os teóricos da arte contemporânea negarem a sua validade hoje em dia. Só que muita gente não leva em conta uma questão fundamental: o belo é o resultado final do efeito de uma obra, que pode ser conseguido inclusive com coisas desagradáveis, feias, terríveis.

Por exemplo: o filme Vá e Veja, de Elem Klimov, trata da vida de um menino russo em plena Segunda Guerra Mundial. Ele vê a própria família ser morta. Conhece uma menina da sua idade, se apaixona por ela, e a vê ser estuprada por um batalhão de soldados. Vê a população de uma aldeia inteira ser queimada numa igreja.

Vá e Veja é reconhecido como um dos filmes mais terríveis já feitos e, entretanto, o resultado final, da obra de arte como um todo, é belo. É como se diz: o feio na arte é belo. Um artista que queira representar apenas coisas belas em si mesmas conseguiria apenas o kitsch. 

Todos os elementos que citei atuam na vida do espírito através da catarse. Tudo que vemos, sentimos, aprendemos, atua na purificação dos sentimentos, do pensamento. É por isso que Bruno Tolentino afirma: “A poesia pertence à vida contemplativa do espírito”. Na realidade, isso se aplica a todas as artes. Se a arte não serve para nada no sentido prático, ela serve no sentido espiritual, profundo e contemplativo, para além da vida cotidiana imediata.

 

Josias Teófilo é jornalista, escritor e cineasta

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