ReproduçãoO empresário colombiano Alex Saab em audiência na Flórida: Maduro fez todo o possível para que ele fosse libertado

Laranja no espremedor

O julgamento do empresário colombiano Alex Saab, extraditado para os Estados Unidos, pode desmontar a rede que permite à Venezuela driblar as sanções americanas e ainda revelar o destino de milhões de dólares desviados pelo regime de Maduro
22.10.21

Centenas de pessoas acompanharam por um aplicativo de videoconferência a breve audiência do empresário colombiano Alex Nain Saab Moran, de 49 anos, em uma sala da Corte do Distrito Sul da Flórida, na segunda-feira, 18. De cabelos compridos, com o macacão laranja típico dos detentos das prisões americanas, máscara na boca e mãos algemadas, ele ouviu um juiz federal ler as oito acusações que lhe pesam: sete de lavagem de dinheiro e uma de conspiração. Ao final, o advogado de Saab pediu mais tempo para apresentar a defesa. O pedido foi atendido com limites: a audiência foi remarcada para 1º de novembro. Enquanto isso, Saab permanecerá na prisão, sem direito a fiança.

O novelo que começará a ser desenrolado é gigantesco e dá a volta no mundo. Passa por empresas de fachada de Hong Kong, indústrias ligadas à Guarda Revolucionária do Irã, companhias de alimentos no México e pelo Palácio Miraflores, a sede do governo da Venezuela. Tudo costurado por Saab, cuja carreira começou na cidade colombiana de Barranquilla. Filho de um imigrante libanês, ele começou a vida vendendo chaveiros promocionais e uniformes para empresas. Quando estava sendo procurado por credores, conheceu Álvaro Pulido Vargas, um empresário próximo da ex-senadora colombiana Piedad Córdoba, aliada do chavismo e das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Viraram sócios. A empresa criada pelos dois, a Shantex, passou a exportar em 2004 para diversos países. O maior cliente era a Venezuela de Hugo Chávez.

Iniciado no chavismo, Saab deslanchou para valer no “madurismo”, após a chegada de Nicolás Maduro à presidência, em março de 2013. O empresário audacioso expandiu, então, seus negócios pelo mundo, a ponto de se tornar uma peça fundamental para a Venezuela driblar as sanções econômicas americanas. Agora, na prisão, ele tem condições de desfazer toda a teia global de relacionamentos que mantinha e revelar as contas bancárias de seus camaradas, incluindo eventuais fortunas do próprio Nicolás Maduro. “É perfeitamente lógico supor que Saab tenha informações muito precisas e fidedignas de como foram construídas as grandes fortunas do madurismo e onde esses bilhões de dólares se encontram”, diz o sociólogo venezuelano Trino Márquez.

A reação excessiva da ditadura venezuelana à prisão do empresário, em junho do ano passado, dá a dimensão do personagem para Maduro. Após um pedido feito pelos Estados Unidos, a Interpol fisgou Saab quando seu avião aterrissou no arquipélago de Cabo Verde, no meio do Oceano Atlântico, em uma parada para reabastecer, a caminho do Irã. Para libertá-lo, Maduro tentou de tudo. Primeiro, disse que Saab era um enviado especial do governo para o Irã e para a Rússia. Depois, em dezembro de 2020, o colombiano Saab ganhou cidadania venezuelana e foi designado embaixador na União Africana. O objetivo de Maduro era conseguir soltá-lo sob a justificativa de que, sendo diplomata, Saab desfrutaria de imunidade.

ReproduçãoReproduçãoMaduro com Erdogan: ouro por comida

Nada menos que oito bancas de advogados com sede em Bogotá, Madri, Lisboa, Dakar e Miami, entre outras cidades, foram acionadas para tentar barrar a extradição do empresário para os Estados Unidos. Entre elas, estava o escritório do ex-juiz espanhol Baltasar Garzón, que condenou o ditador chileno Augusto Pinochet. Na Venezuela, uma guerra foi aberta em diversas frentes. Nas redes sociais, integrantes do governo iniciaram uma campanha com a expressão #FreeAlexSaab. Maduro foi à televisão dizer que Saab havia sido “sequestrado pelo império” americano. Nos muros, pichações com o rosto do empresário pediam sua liberdade. Nada adiantou. Depois de os advogados apelarem em todas as instâncias, ao longo de 16 meses, a Justiça de Cabo Verde ordenou a extradição para os Estados Unidos no sábado, 16.

Mesmo com o destino de Saab já definido, Maduro seguiu com suas atitudes desesperadas. O ditador interrompeu as negociações com representantes da oposição venezuelana, no México, que tinham por objetivo pacificar o quadro político no país. Também ordenou a prisão de seis funcionários americanos da estatal PDVSA que estavam na Venezuela. Esses americanos trabalhavam na PDVSA, no Texas, e em 2017 foram convocados para uma reunião urgente em Caracas. Ao botar os pés na Venezuela, foram detidos sob alegações vagas de corrupção – especula-se que o objetivo real era trocá-los por dois sobrinhos de Maduro que foram presos no Haiti, em 2015, negociando drogas. Depois de três anos presos, os americanos foram autorizados a cumprir a pena em liberdade, na Venezuela. Na semana passada, membros da temida Direção Geral de Inteligência e Contrainteligência Militar, um dos braços encarregados de perseguir inimigos do regime, arrancaram os seis de suas casas. Embora não exista qualquer relação jurídica entre o caso dos executivos e a prisão de Saab, a ditadura imagina que, ao prendê-los, pode exercer pressão sobre os Estados Unidos.

A importância que a ditadura dá a Saab não tem nenhum paralelo. Nem mesmo quando foram presos os dois sobrinhos de Maduro, seus familiares, a reação foi tão brutal. Saab não é parente, não é membro do Partido Socialista Unido da Venezuela, não teve participação em eventos históricos, não foi ministro do governo e nem sequer é alguém da elite política. Ele era somente o operador financeiro que fazia os negócios obscuros”, diz Trino Márquez.

O grande deslize de Saab, justamente o que deu azo à sua prisão em Cabo Verde, foi ter realizado transações obscuras ao passar pelos Estados Unidos, infringindo a Lei de Práticas de Corrupção no Exterior. Entre novembro de 2011 e setembro de 2015, ele transferiu dinheiro de contas bancárias da Venezuela para os Estados Unidos, enquanto fazia negócios com a ditadura. Sua atuação envolvia de construção de casas à distribuição de cestas básicas para a população. O governo americano acusa Saab e Pulido de desviar 350 milhões de dólares, o que pode render uma pena de 20 a 30 anos de prisão.

ReproduçãoReproduçãoCamila Saab leu uma carta do marido na Venezuela: ele diz que não tem o que delatar
Saab se meteu, ainda, em outras operações suspeitas. Com a economia arrasada, a Venezuela liberou a exploração ilegal de ouro e o colombiano foi encarregado de realizar tratativas com o governo de Recep Erdogan, na Turquia — os turcos compravam o metal precioso e, em troca, vendiam alimentos. Uma empresa criada em 2018, após um encontro entre Maduro e Erdogan, é suspeita de ter lavado 900 milhões de dólares. Saab repetiu o mesmo esquema na África, negociando a venda de 7 toneladas de ouro com o Banco Central de Uganda. As operações burlaram as sanções impostas pelos Estados Unidos à Venezuela.

Com empresas ligadas à Guarda Revolucionária do Irã, Saab intermediou a compra de alimentos e de gasolina para a Venezuela. Ele é investigado, ainda, por relações com o grupo terrorista libanês Hezbollah, financiado pelos aiatolás iranianos. Por meio de uma fabricante de milho do México, Saab negociou a venda de petróleo bruto em 2019, o que também viola os embargos americanos contra Caracas. “Para que Saab expandisse suas ações pelo planeta, ele precisou cooptar ministros, governantes, presidentes de bancos centrais e funcionários públicos de órgãos de controle. Todas essas pessoas agora poderão ser alcançadas pela investigação”, diz o ex-procurador venezuelano Zair Mundaray, que vive na Colômbia.

Por ter resistido à extradição em Cabo Verde, Saab conta com poucos recursos para reduzir sua pena. Se, por fim, decidir colaborar com as autoridades americanas, ele poderia reduzir para sete os seus anos no cárcere. Para tanto, porém, teria de revelar informações úteis que levem à descoberta de crimes por pessoas do mesmo nível hierárquico ou acima dele, o que implicaria chegar ao Palácio Miraflores. No domingo, 17, um dia após a extradição para os Estados Unidos, a mulher de Saab, Camila, leu em Caracas uma carta escrita pelo marido. “Não tenho nada a colaborar com os Estados Unidos e não cometi nenhum crime. Não vamos deixar que nos derrotem”, dizia o texto.

Mesmo que Saab não colabore, o processo poderá seguir adiante. “Pessoas do mundo todo que sabem que serão procuradas em breve podem se antecipar e chegar a alguma negociação com os promotores americanos. Eles podem dar informações em troca de imunidade”, diz Mundaray. Se isso acontecer, o regime venezuelano terá mais entraves para se financiar com manobras irregulares. Além disso, os americanos poderão rastrear o dinheiro desviado por Maduro e sua turma.

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  1. Parabéns, Duda! Excelente matéria sobre a teia da corrupção no âmbito internacional! Nem conhecia esse sujeito, mas a Crusoé, através de seus grandes jornalistas, descobrem tudo.

  2. Boa matéria sobre grande teia regida por forças obscuras que vem de acordo com Cristina Segui: 'o tráfico de drogas patrocina a esquerda'

  3. Como brasileira, estou com uma inveja louca de Cabo Verde e dos Estados Unidos. Lá a lei existe e é cumprida. Sem chances para a bandidagem.

    1. Sim, futuro do Brasil...com o atual governo estamos muito próximos de nos transformarmos em uma Venezuela.

  4. O desastroso governo Hugo Chavez que destruiu a economia Venezuelana começou com ideologia, depois se tornou forma de enriquecimento quando viram que o país caminhava pro colapso. No meio do caminho Chavez morre de câncer e Nicolas Maduro assume o Butim. Assim o pais foi sendo demontado e destruido ano a ano.

  5. \o/.....Viva a Lula que defende com unhas e dentes o regime Bolivariano.........e aos acéfalos brazucas que por tabela adoram o Luladrão...........#tamutudofu

  6. A extradição de Alex Saab é uma luz depois de muita escuridão para os venezuelanos. Milhares de famílias veram seus filhos desnutridos devido à pésima qualidade das cestas básicas que a ditadura vendia, ainda com sobreprecio. Que a justiça prevaleça!

    1. Vamos aguardar o que ainda está na Espanha. Aquele que financiava o foro de São Paulo. aí a petralhada pira.

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