ReproduçãoBiden abaixa a cabeça durante pronunciamento depois do atentado: sinal de fraqueza

O buraco de Biden

A retirada das tropas do Afeganistão abre um fosso aos pés de Joe Biden já no primeiro ano de seu governo. Os danos à imagem do presidente americano e ao seu legado podem ser irreversíveis
27.08.21

Com os terroristas do Talibã em avanço constante e os soldados americanos abandonando suas bases no Afeganistão, jornalistas pressionaram Joe Biden a falar sobre o assunto durante uma coletiva de imprensa que havia sido marcada para o presidente americano discorrer sobre o feriado americano de Quatro de Julho. “Eu quero falar sobre coisas felizes. Eu não vou responder a nenhuma pergunta sobre o Afeganistão”, disse Biden.

Nas semanas seguintes, a realidade que o presidente tentou ocultar se impôs com violência extrema. O Talibã tomou o controle do país e mandou as mulheres para suas casas, alegando que seus milicianos “ainda não tinham sido treinados para não as machucar”. O país afundou no caos, com milhares de pessoas tentando fugir. Mais de 100 mil foram evacuadas para o exterior em dez dias. Nesta quinta-feira, 26, o grupo terrorista Estado Islâmico, inimigo do Talibã, realizou ao menos dois atentados suicidas nos arredores do aeroporto, matando treze militares americanos e ferindo 18. Mais de 70 afegãos perderam a vida. Fala-se em torno de 140 feridos. Foi o dia mais letal para os militares dos Estados Unidos no Afeganistão desde que um helicóptero foi derrubado há dez anos.

Novos ataques são muito prováveis nos próximos dias, o que pode multiplicar o número de mortos. Se o Talibã já era um pesadelo, nesta semana o mundo lembrou que existe algo ainda pior, o Estado Islâmico, que disputa com os radicais recém-chegados ao comando do Afeganistão algumas posições na escala do terror: quem é o mais cruel, quem tem a versão mais radical do islamismo e quem é capaz de humilhar mais os americanos.

A facção que executou o ataque é conhecida como Estado Islâmico da Província de Khorasan (em inglês, Isis-K). O bando surgiu em 2015 a partir de uma dissidência do Talibã. Seus membros juraram lealdade a Abu Bakr Baghdadi, ex-líder do EI, e passaram a competir com o Talibã por prestígio, fundos e recrutas. Na disputa com o antigo rival, o Estado Islâmico da Província de Khorasan tem se propagandeado como um grupo religiosamente mais puro. A aplicação que eles fazem da lei islâmica é ainda mais rígida. Estima-se que tenham hoje 2 mil integrantes.

ReproduçãoReproduçãoEm mensagem, o Estado Islâmico assumiu a autoria dos ataques a bomba
A imagem de Biden já estava bastante machucada desde a instalação do caos em Cabul, com a tomada da capital afegã pelo Talibã. Ficou ainda mais depois do atentado. Na média das pesquisas, a aprovação do presidente caiu de 51% em julho para 47% neste final de agosto, enquanto sua desaprovação subiu de 43% para 49%. A maioria dos americanos, cerca de 63%, continua sendo favorável à retirada das tropas, mas 74% acreditam que a ação foi mal executada, o que manchará o legado de Biden em pelo menos duas áreas.

A primeira delas é o discurso a favor dos direitos humanos. Na campanha do ano passado, Biden prometeu que essa seria uma questão central. O presidente americano marcou para dezembro uma cúpula que discutirá, entre outros temas, a proteção aos direitos individuais. Soa incoerente, porém, entoar esse discurso e, ao mesmo tempo, deixar meninas, jovens e mulheres expostas ao arbítrio de um bando extremista.

Estou decepcionado com a abordagem de Biden aos direitos humanos. Até acredito que a questão seja importante para ele, mas certamente não é tão relevante quanto sua a agenda política interna e sua determinação de se retirar do Afeganistão”, diz o historiador americano Warren Cohen, autor do livro Uma nação como qualquer outra (em tradução livre), sobre a política externa americana.

O governo também sai seriamente comprometido no quesito da eficiência. “Ao longo deste ano, o presidente projetou uma imagem de alguém competente e rápido. Ele ampliou a campanha de vacinação contra a Covid, aprovou um auxílio econômico para as famílias na pandemia e um pacote de infraestrutura, mas essa imagem de eficaz em grande parte acaba de ser arruinada”,  diz o embaixador brasileiro Rubens Ricupero.

Reprodução/redes sociaisReprodução/redes sociaisO Talibã pressiona os americanos a deixar o Afeganistão o quanto antes
Foram vários os percalços do processo de retirada. Vistos humanitários para pessoas perseguidas pelo Talibã não foram emitidos com antecedência. Os voos só ganharam ritmo quando já era tarde demais. A base aérea militar de Bagram, que podia continuar sendo usada para apoiar o exército afegão, foi abandonada sem aviso. A morte de treze militares americanos nos atentados desta quinta trouxe uma carga ainda mais dramática para a tragédia – e expôs Biden ainda mais diante do público interno americano.  Desde novembro do ano passado, os Estados Unidos não perdiam um combatente em território afegão.

Os erros acumulados das últimas semanas lembram a sina de outro presidente democrata, que também empunhava a bandeira dos direitos humanos. Eleito em 1976, Jimmy Carter teve sua popularidade corroída pela Revolução Iraniana, que nem ele nem a agência de inteligência CIA foram capazes de antecipar. Durante os últimos catorze meses do mandato de Carter, jornais trataram incessantemente do drama dos americanos feitos reféns na embaixada em Teerã. Incapaz ainda de controlar uma inflação de dois dígitos, o presidente não se reelegeu e entregou o poder para o republicano Ronald Reagan.

Em um pronunciamento nesta quinta sobre os atentados em Cabul, um acabrunhado Biden prometeu se vingar do Estado Islâmico, mas não explicou como pretende executar a tarefa. Ele reiterou, porém, sua convicção de que era preciso deixar o Afeganistão. Vamos continuar nossa missão depois que nossos soldados se retirarem. Vamos encontrar maneiras para encontrar qualquer americano que queira sair do Afeganistão. Nós vamos encontrá-los e tirá-los de lá“, disse. “Vamos caçá-los (os terroristas do Estado Islâmico) e fazê-los pagar”. O fosso, por ora, continua aberto.

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  2. Presidente dos EUA toma decisão baseado em informações do serviço de inteligência e analisados por seus assessores escolhidos. Henri Kissinger definiu bem a falha ocorrida.

  3. A ação de retirada das tropas foi mal planejada, deixando muita gente- tradutores, por exemplo-, que foram essenciais às tropas americanas, para trás. Quem irá arriscar a ajudar os americanos no futuro? MS

    1. Os US devem isso aos seu próprios cidadãos; jovens sue deram sua vida pra defender um povo e uma terra que nao eram seus.

  4. Biden não deve estar muito preocupado com a imagem, provavelmente não será candidato à reeleição, tanto que decidiu seguir o agendado pelo antecessor e retirar as tropas do Afeganistão, coisa que já deveriam ter feito há tempos, pois pra resolver de fato o problema teriam de eliminar todos os grupos radicais e refundar aquele país, começar do zero, o que é impossível nos tempos atuais e quiçá a qualquer tempo. Manter o papel de Guardião do Planeta está ficando custoso demais, em vários sentidos.

    1. Helena, em parte você está certa, porém aquilo lá é um berço de terroristas e o principal alvo sempre foram os Americanos. Daí que eles estavam lá para defender seus próprios interesses e, por tabela, o restante do mundo não radical. À saída foi , sim, mal planejada. Deixou para trás mais de 80 bilhões de dólares em equipamentos para os terroristas se rearmarem e voltarem aos costumeiros ataques , inúteis e que só levam vidas inocentes, aos diversos alvos pelo mundo.

    2. Não acho que ele esteja errado. Por que os outros povos não colocam os seus soldados lá? Porque os americanos têm que assumir a responsabilidade pela ordem em um outro país e com isso gastar uma fortuna em dinheiro e ainda perder vidas humanas? Eu não gostaria de ser a mãe que recebe o comunicado de que meu filho morreu. Cada país tem que assumir a sua responsabilidade.

    3. Eu não entendo nada dessa bagunça toda mas, acho que o Bidê e seus conselheiros cometeram um erro CRASSO. A consequência da retirada vai custar , muito mais caro, em vidas e dólares, do que a permanência.

  5. 1- Ouvi a crítica do Guga Chacra, se referindo ao Biden como fraco e desnorteado. A decisão mais difícil que esse comentarista tomou na vida, foi se comprava uma cueca branca ou vermelha para inovar. Biden estava abalado na coletiva, porque é humano. Se escondesse a emoção que estava sentido, seria hipócrita. Agora correlacionar a tristeza do presisidente americano, a expectativa de não haver fortes represálias ao EI, é idiotice pura. Todos diante do caos, podem se alarmar por segundos.

    1. 2- Mais depois vêm a ação. Biden é um senhor experimentado.Tomou uma decisão difícil, a de tirar os militares americanos do Afeganistão; planejou diante das informações que tinha, porém ocorreu essa tragédia. Agora é processar esses novos inputs e melhorar a tomada de decisão. E nisso, Biden foi treinado a vida toda.

  6. Joe Biden herdou os erros do passado, mais precisamente da década de 90, quando os EUA quiseram minar a força da URSS na região e armou esses malucos do Talibã. Como no Vietnã, agora saem do Afeganistão com o rabinho entre as pernas, deixando para trás um povo refém de radicais religiosos. Não dá para bancarem os mocinhos o tempo todo, já que cada povo convive com seus próprios demônios. Ao fim e ao cabo concluímos que tudo gira em torno da venda de armas e demonstrações de força.

  7. É realmente uma pena que as nossas expectativas em relação ao Sr. Biden não se confirmem. Falta-lhe vigor e agilidade, talvez consequência de sua idade avançada. Fazer o quê, né? A natureza das coisas é assim mesmo. Quanto ao fato de os americanos são seguirem ao pé da letra a própria cartilha que professam, isto já era sabido, como pode ser atestado no excelente livro do Prof. Cohen, ao qual esta reportagem faz referência.

  8. Como é mesmo? Erros acumulados, acabrunhado, imagem machucada, desaprovação, desapontamento, incapacidade. Muito fácil de resolver: chama as celebridades de plantão loucas pra posar bem na foto (sempre elas) pra fazer um chamego na imagem do presidente; convoca os companheiros da imprensa que se borram de medo de um governo de direita e manda publicarem matérias elogiosas; tira fotos com as pobres minorias perseguidas; distribui dólares pra essa gente e a imagem do Biden se recupera rapidinho.

  9. Os EUA têm satélites e aviões espiões e podem ver quem está atravessando as fronteiras e ver movimentação de tropas, mas não viram uma fila de Talibãs entrando de moto...

  10. Depois do fanfarrão Trump, os EUA elegeram Biden. Um farsante, e dos bons. Que vem com uma conversinha mansa sobre Democracia e Meio Ambiente. Mas que provoca uma enorme tragédia humanitária, pela incompetência e falta de planejamento. Depois ele vem falar de direitos humanos e, principalmente, das mulheres. E as mulheres do Afeganistão??

  11. É q o Biden está preocupado em reduzir as emissões de CO2 e as queimadas da Amazônia, se nao em 2030 o mundo vai acabar. PS sarcasmo.

    1. Um dia teriam de sair , aliás não deveriam ter entrado. Imaginem tropas estrangeiras desfilando diariamente em Copacabana. Não daria certo, haveria reação. Os naturais do Afeganistão encontrarão eles mesmos uma solução mais cedo ouais tarde

  12. Duda Teixeira e demais Crusoetas foram as maiores cheerleaders do Morto Muito Louco em toda a imprensa brazuca, feito notável considerando que toda a cobertura nacional dos EUA é retuíte do NYT, WashPo e CNN, os equivalentes ao Pravda de SP e O Globo gringos. Agora se decepcionaram com a múmia corrupta de Alzheimer, mas ele era a grande alternativa civilizatória aos tuítes malvados do homem laranja. Vocês são cúmplices do desastre afegão.

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