Lula Marques/FolhapressDe volta ao Congresso, o senador Ney Suassuna vestiu seu figurino predileto: o de governista

O senador quase sincero

Legítimo representante da velha política, Ney Suassuna, que está de volta ao Senado depois de 14 anos, se diz "perplexo" com os novos modos dos políticos e culpa as redes sociais por deixar "todo mundo neurótico"
06.11.20

Entre os anos 1990 e 2000, o paraibano Ney Suassuna foi um dos políticos mais influentes de Brasília. Ministro da Integração Nacional no governo Fernando Henrique Cardoso e vice-líder de Lula no Congresso, o então senador do MDB dava as cartas na política e negociava cargos e emendas em disputados eventos em sua mansão – em 2004, o correligionário Mão Santa revelou ter engordado oito quilos só com os jantares na casa do colega. As refeições à mesa do parlamentar selaram muitos acordos, alguns rompimentos e foram cenário de ruidosos relacionamentos extraconjugais de autoridades. Em 2006, depois de perder a eleição, o emedebista submergiu e passou a se dedicar à vida de empresário. Suassuna sobreviveu politicamente a alguns dos maiores escândalos políticos da histórica recente do país, como a CPI dos Sanguessugas, a Lava Jato e a Operação Calvário, que prendeu boa parte da elite política da Paraíba. Catorze anos depois de deixar o Senado, ele acaba de voltar à casa, para um curto período de quatro meses de mandato – suplente de Veneziano Vital do Rego, do PSB, o paraibano assumiu o cargo durante a breve licença do titular.

Representante do que hoje se convencionou chamar de “velha política”, Suassuna revela estar “perplexo” com as mudanças que se sucederam desde que ele deixou a casa. Diz que as redes sociais, instrumento preferido dos políticos da nova geração, deixam “todo mundo neurótico” e acirram “facções”. Em sua nova temporada no Congresso, o senador vestiu seu figurino predileto: o de governista. “Acredito em Bolsonaro. Ele é uma pessoa dura, que diz o que pensa, mas é melhor do que ser um cara que embroma”, justifica.

Umbilicalmente associado ao MDB, Suassuna tomou posse como representante do Republicanos, partido ao qual se filiou há dois anos. Ele conta ter levado um susto no mês passado, quando foi assumir o mandato. “Eu sempre fui PMDB na vida. Nem me lembrava que tinha ido para o Republicanos.” A mudança, conta, se deu por exigência da sigla para que um parente dele tivesse legenda para se candidatar em 2018. Aos 79 anos, o senador diz estar vivendo finalmente sua última experiência como parlamentar. “Agora é a hora dos mais novos, a gente tem que saber a hora de ceder o lugar para aqueles que representam os problemas dos tempos de hoje.”

O sr. estava sem mandato havia 14 anos. O Senado mudou muito?
Eu estou perplexo com a velocidade das mudanças. Eu nasci em 1941, vivi várias mudanças importantes. Usei teletipo, depois passou para o fax, do fax passou para a xerox. Fui precursor na área da computação, fiz um dos primeiros cursos nos Estados Unidos. O computador que eu comprei na época era mil vezes maior do que o telefone que eu uso. Além das mudanças tecnológicas e sociais, que não são poucas, hoje temos as minorias todas gritando e querendo seu espaço, e ainda tem o problema da pandemia. Nunca enfrentamos nada semelhante. E tem as redes sociais, que deixaram todo mundo neurótico, apavorado. Na época da gripe espanhola, morreu muita gente, mas não tinha esse pavor, porque não tinha televisão fazendo disso notícia, nem rede social para enfiar medo todo dia no cidadão. Hoje temos tudo isso. Criou-se um terror que levou os países pela primeira vez a fecharam as suas fronteiras. Nunca no Brasil tivemos esse acirramento das facções, sobretudo por conta das redes sociais.

Por que o sr. quis voltar ao Senado? Houve um acordo com o titular da vaga?
Não, eu sou o suplente, a cada vez que ele sair, eu vou assumir. É normal, é assim para todos os outros senadores. O que posso lhe acrescentar é que esse mandato vai até 2026, eu estarei com 85 anos e não serei candidato a nada. Ser político neste país é quase como ser tachado de bandido, não é bom para um velhinho ficar ouvindo acusação. E só arrumei inimigo na política. O que posso dizer é que assumir a suplência no meu estado foi necessário. Eram duas vagas, eu entrei faltando 12 dias para a eleição, a pedido do meu grupo, e disparamos para primeiro lugar.

Jefferson Rudy/Agência SenadoJefferson Rudy/Agência Senado“Ser político neste país é quase como ser tachado de bandido, não é bom para um velhinho ficar ouvindo acusação”
O que se diz é que suplentes normalmente contribuem financeiramente com a campanha do titular e, por vezes, como compensação, ganham um período na cadeira. Foi o que aconteceu?
Não foi o caso. É impressionante como vocês fazem as perguntas sempre para pichar os políticos.

Qual é a posição do sr. em relação ao governo?
Eu estou instalado no gabinete de uma pessoa que não é radical, mas é de oposição. E eu sou situação, sou governo. Porque acredito em Bolsonaro. Ele é uma pessoa dura, que diz o que pensa, mas é melhor do que ser um cara que embroma. E tem contra ele uma legião de pessoas que gostariam que ele nem existisse. A imprensa penou com a suspensão dos patrocínios. E não podemos nem mais acreditar em pesquisas. As pesquisas mostravam que Bolsonaro perdia até para uma cachorra que passasse na rua, e o homem ganhou. Não acertaram nada. E agora, ele é perseguido pela imprensa. Eu outro dia fui em uma missão para a Europa, os jornais criticaram. Eu estava em busca de investimentos para a Paraíba e não quis passagem, diária, nem sequer ajuda no aeroporto. Eu não acho correto, são coisas da minha cabeça, dizem que eu sou maluco, mas acho que não está certo. Eu acho que sou o único senador que não quis aposentadoria do Senado.

Depois de uma vida no MDB, hoje o sr. está no Republicanos. Por quê?
Quando assumi o mandato agora, eu tomei um susto, porque realmente eu sempre fui PMDB na vida. Nem me lembrava que tinha ido para o Republicanos. O que aconteceu é que, há uns dois anos, um concunhado meu queria ser candidato e disseram que, para ele ser candidato, era preciso que eu fosse para o Republicanos para dar peso. Aí eu assinei. Mas não posso reclamar do partido, não, porque me trataram com muita gentileza e muito respeito. Estou com 79 anos, este mandato vai até 2026, eu vou estar com 85 anos. Quero cuidar da minha vida, sou empresário, tenho um filhinho de oito anos. Não quero voltar para a política e não quero ficar andando pelo Senado de fraldão, Deus me livre. É a hora de deixar que os mais jovens tomem lugar.

O sr. é colega de partido do senador Flávio Bolsonaro, que é acusado de operar um esquema de rachid. Qual a sua opinião sobre esse caso?
Quem tem culpa tem que responder. Mas por que só falam do Flávio e não de todos os outros? Na Assembleia do Rio, tem gente com muito mais coisa (denúncia) do que ele, se é que ele tem. É uma pessoa educada, que está cumprindo o dever dele. Só o vejo trabalhando.

Jefferson Rudy/Agência SenadoJefferson Rudy/Agência Senado“Não quero voltar para a política e não quero ficar andando pelo Senado de fraldão”
Davi Alcolumbre deve ser reeleito?
Não sou capaz de dizer porque não presto atenção nisso, não acompanho. Mas a experiência que tenho das outras várias vezes que tentaram isso é que não conseguiram.

Quais deveriam ser as prioridades do Congresso neste momento?
O mais urgente é fazer a reforma administrativa. Ela não vai atingir os servidores que já estão no serviço público, mas quem virá no futuro. Quem tem estabilidade vai manter. Não vejo outra solução, esse modelo não existe em nenhum outro país do mundo. Para as carreiras de estado pode ter estabilidade, mas para as outras, é demais. Em Portugal, o servidor público te trata igual na iniciativa privada. Aqui, você chega e o cara não dá a menor pelota. Por quê? Porque tem estabilidade. Tem também o problema de empresas públicas com salários de 50 mil reais, 60 mil reais, tem que ser uma coisa mais justa. Para onde você olha, você pensa: isso só acontece no Brasil. A outra reforma urgente é a fiscal. Não tem empresário que aguente. Eu sou da área da educação e, só no Rio de Janeiro, nós perdemos 3.686 colégios, que fecharam nos últimos três anos. Mais 500 só neste ano. Mesmo os religiosos que não pagam impostos, muitos estão falindo. Na proposta, o setor de serviços foi penalizado. Pode algum país do mundo viver sem ensino para as novas gerações? Olha a Coreia, como está avançando. A impressão que dá é que todo mundo é contra a iniciativa privada.

O sr. foi citado na Operação Calvário, que levou à prisão de Ricardo Coutinho. Recentemente, houve uma nova ação contra o governador João Azevedo, seu aliado.
Estamos vivendo um tempo difícil, com essa coisa de escândalo. Eu já tive cinco processos. Cinco! Ganhei todos eles, surgiram mais dois, porque aí passou a ser uma coisa política. De repente aparece na imprensa: fulano de tal recebeu tanto de beltrano. Você nem sabe quem é beltrano. Depois, muitas vezes o juiz dá um carão no cidadão que fez a acusação. Quando é um empresário, o banco fecha a porta para as pessoas, mesmo quando inocentes. Quando você acusa injustamente, já está matando o cara, a empresa e os empregos. A gente precisava ter mais profundidade nas coisas. São maluquices que estão acontecendo. No caso do governador, não sou capaz de julgá-lo. Algumas pessoas disseram que eu sou criminoso porque o apresentei quando era candidato. Apresentar alguém está previsto no Código Penal? Oxente! A gente tem que ter uma coisa mais ponderada, e não fazer acusações sem ter depois como avançar.

O sr. também foi denunciado na Lava Jato. Hoje, a operação é alvo de ataques e sofreu baixas. Está entre os que acham que ela tem que acabar?
Eu vi um processo de um amigo meu, botaram que ele tinha navios, que tinha estaleiros, o cara não tem nada, nunca teve nada disso. No entanto, colocaram isso na acusação. E para quem acusou injustamente nunca tem punição. No final, quem perde é a nossa sociedade, com muitos empregos saindo. Por quê? Muitos empresários estão indo para o exterior, porque o nosso país está ficando inviável.

“As pesquisas mostravam que Bolsonaro perdia até para uma cachorra que passasse na rua, e o homem ganhou”
O sr. entrou em muitas polêmicas quando estava no Senado. Como enxerga as polêmicas dos políticos de hoje?
Não posso criticar os de hoje. Mas vejo que as eleições e as discussões estão guiadas pelas redes sociais. As eleições também são feitas com mais radicalização. Fui representante de todas essas revoluções, com pessoas que lutaram por causas. Hoje as grandes bandeiras são meio ambiente e minorias. São as coisas pelas quais se clama no mundo. Outro dia li uma notícia dizendo que 24% das empresas não têm negros. Espera aí, quando no Brasil fizeram essa pesquisa? A Constituição diz: todos são iguais perante a lei. Mas tem vaga para as pessoas diferentes. Tem vaga para ideologias e sexos diferentes. Que igualdade é essa? Na minha geração, igualdade era igualdade. Tudo isso para mim é novidade.

O sr. foi ministro de FHC e vice-líder do governo Lula, dois ex-presidentes constantemente atacados por Jair Bolsonaro. Por que algumas brigas políticas hoje estão muito mais acirradas e agressivas?
É um fenômeno das redes sociais e da imprensa. Você conta nos dedos os jornalistas que não tomam partido. Tenho inúmeros amigos que pararam de assinar certos jornais, do começo ao fim é uma ladainha contra beltrano, contra fulano. A Paraíba hoje não tem mais jornal privado, fecharam todos. Mas isso é na maioria dos estados. As pessoas acabam correndo para as redes sociais, onde a coisa é pior ainda. Acontecem coisas incríveis. Outro dia, vi um cidadão atacando o Supremo e pensei: oxente, mas está solto ainda? Porque o linguajar era de botequim. Pior, de bordel, porque botequim é até civilizado perto do linguajar que o cidadão usou para falar do Supremo.

O sr. é senador pela Paraíba, mas mora no Rio de Janeiro. Faz sentido?
Eu sempre estou na Paraíba. E quando não estou na Paraíba, graças às redes sociais, me sinto perto. Se as redes sociais têm problemas de um lado, por outro facilitam a vida das pessoas. Vou fazer tudo o que puder, caso assuma novamente em outra licença (do titular do mandato), e vou correr atrás para ajudar meu estado. Mas não quero mais saber de política depois deste mandato.

Ao longo dos anos que o sr. passou no Senado, quais foram as situações mais curiosas que viveu?
A mais curiosa foi ter virado amigo do (Muammar) Kadafi, porque eu fui lá (na Líbia) três vezes representando o Brasil, no governo FHC e no governo Lula, e depois o filho dele veio aqui e ficou hospedado na minha casa. O Kadafi me mandou uma sela de presente. Muito bonita, muito bem trabalhada.

Como o sr. reage ao epíteto de “padrinho da corrupção na Paraíba”, que lhe foi dado pelo Ministério Público?
Não quero falar nesse ponto, não. Deixa eles para lá.

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  1. Excelente entrevista. Devemos ouvir mais o q o cidadão diz. Estigmatizar como discurso de corrupto ou da velha política somente reforça a cortina de fumaça q impede o brasileiro de enxergar o distópico, kafkiano e bizarro estado brasileiro.

  2. linguagem acadêmica do tradicional político sobretudo do nordeste. raso, liso, protegido e demagogo. pra quase sincero vai mais 79 anos. é do esquema que por mais de um século desconheciamos. salve as redes sociais.

  3. Se o velhinho não quer ouvir acusações é só não se envolver em tramoias! Pena a LavaJato ter sucumbido aos ataques da "Velha Política", tinha muito serviço a prestar ao Brasil. Pena mesmo!!!

  4. Malandro na para, da um tempo, essa e a realidade politico do Brasil. 2022 vamos fazer uma limpeza geral e levantar a Lava Jato e trazer o Deltan de volta e dar uma arrumada no STF, STJ e acabam com nomeacao politica para a justica, chega de clubinho de amigos poderosos na justica e chega de imunidade policial para os escritorios de advocacia no Brasil, tem que investigar tudo e a todos e arrumar geral. Chega de impunidade, chega de aparelhamento, vamos reduzir o numero de politicos em 30%.

  5. Está aí mais uma razão de nosso país não ir pra frente. Pessoas como este senhor já era pra estar enterrado na lata de lixo da história. Que falta faz uma guerra de verdade pra eliminar todos os homens ruins de serviço.

  6. Não concordo quando ele diz que ser político é quase ser considerado como bandido,passou tanto tempo lá e ainda não entendeu os roncos das ruas.

    1. Ou as ruas, “educadas” pelas “escolas” e pela “imprensa”, ainda não entenderam o estado brasileiro?

  7. Esse cidadão assumiu o Senado nesse momento para apoiar o Flávio Bolsonaro,o senador a quem ele substituiu não o faria.A vida “est belle “em Brasília para os políticos,só para eles.

  8. As redes sociais são fruto da mente humana em q bárbaros e civilizados se manifestam. É só isso! Ele tem medo de que se descubra a q time ele pertence?

  9. Quem quer saber das opiniões retrógradas desse político, digno representante do coronelismo nordestino, envolvido em maracutaias desde sempre? Façam entrevistas com gente que faça a diferença no mundo!! Nos poupem de idiotas populistas com a cabeça no século passado!!

    1. Mas que infelizmente ainda atormenta no século presente.A política brasileira é horrorosa.Esse senhor voltará a nós atormentar.Parabéns Crusoé para mostrar que os “mortos” ainda sentam em cadeira de senador.

  10. Sou Paraibana Votei No Governador João Azevedo Sempre Acompanhei O Trabalho Dele Como Secretário muito Correto e muito Atencioso Com Todos Os Paraibano o mesmo Digo Com Veneziano . 👏👏👏

  11. Um agatunado das antigas. Mito dos rachadinhas e dos ptralinhas. Mesmo octogenário não perde o gosto por mais um a$erto na sua longa carreira.

  12. O título da matéria é perfeito, já que nunca vi uma pessoa usar tantas "frases feitas" como respostas, numa única entrevista...

  13. E tem idade para largar o osso? Esse é um dos maiores agatunados. FHC sabe como ele construiu seu império educacional. Vai me contradizer e etc. Mas, o travesseiro é minha testemunha. Será que um traste desse tem sossego em seus pensamentos, ele pensa no quanto foi desviado dos menos favorecidos para seu proveito? Segue o baile! Tudo dentro do script!

    1. Bom, pelo que disse em sua entrevista, Suassuna que não o é Arino o poeta e escritor do sertão, é outro Suassuna, deve ter tido um ataque de consciência e caiu na real antes de partir onde merece ir, se foi um bom tem o Céu assegurado, e se parcipou das traquinagens, lêia-se propingens dever ter outro rumo. Mas no geral, ate que gostei da entrevista, pareceu-me ter dito a verdade, pareceu mais uma confissão Este está senador sem compromisso, apenas para cumprir tabela, esta certo ele

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