ReproduçãoErnesto com Mike Pompeo: longe do chanceler, a ala pragmática do governo tenta estabelecer algum laço com o time de Biden

Corrigindo o rumo

Apesar da incontida torcida por Trump, o governo brasileiro já tenta criar pontes com o futuro governo de Joe Biden com o auxílio de "democratas moderados"
07.11.20

A eclosão dos protestos do movimento Black Lives Matter, após o assassinato de George Floyd, em maio, fez soar uma sirene de alerta na cúpula do governo Jair Bolsonaro. Em junho, estimativas do portal FiveThirtyEight, especializado em estatísticas, já apontavam que o candidato democrata à presidência dos EUA, Joe Biden, tinha 70% de chances de sair vitorioso nas eleições. Foi quando, pela primeira vez, caiu a ficha para o Itamaraty e para o Planalto de que Donald Trump poderia, de fato, deixar o poder no final de 2020. A partir daquele momento, integrantes do governo brasileiro começaram a desenhar cenários e traçar estratégias para se precaver no caso de uma vitória democrata.

O plano consistiu em intensificar contatos com políticos do Partido Democrata vistos por Brasília como integrantes da ala moderada da legenda, e que, por isso, teriam maior proximidade com a futura administração Biden. As conversas preliminares cristalizaram na diplomacia brasileira a convicção de que os rumos da política externa de Bolsonaro precisam de algumas correções, principalmente na área ambiental e nos direitos humanos.

Integrantes do governo a par dos acenos à esquerda americana contam que os principais contatos estabelecidos pelo Brasil com os democratas nos últimos meses se deram com nomes que ocuparam postos de destaque na política externa do governo de Barack Obama, presidente que não dedicou grande atenção às questões da América Latina durante seus mandatos – Obama delegou a função justamente a Joe Biden, seu vice, com quem Michel Temer se encontrou diversas vezes. Só que, para cuidar das relações com a América do Sul, o então vice-presidente contava com uma equipe própria de assessores para assuntos internacionais. Embora não haja confirmação de que o ex-secretário de estado de Obama, John Kerry, tenha participado diretamente das conversas com interlocutores brasileiros, é certo que pessoas sobre as quais ele tem ascendência mantiveram contatos com integrantes do governo Bolsonaro. Kerry abraçou efusivamente a candidatura de Biden e vem enfatizando a importância da agenda ambiental no futuro governo democrata.

Divulgação/ItamarartyDivulgação/ItamarartyForster, o embaixador brasileiro em Washington, mantém canais com parlamentares democratas
Nas próximas semanas, um dos objetivos do governo brasileiro é buscar uma aproximação com Juan Gonzalez, um dos homens de confiança do democrata para assuntos da América Latina, e que assumiu cargos estratégicos no Departamento de Estado durante o governo Obama. Por ora, no entanto, a equipe de política externa de Biden o mantém distante das articulações não só com o Brasil, mas também com os demais governos estrangeiros. Ninguém quer cantar vitória antes da oficialização do resultado eleitoral. “Qualquer colaborador da campanha de Biden está proibido de nos receber até o final do processo eleitoral”, diz um diplomata.

Quem se dispôs, nos últimos dias, a fazer a ponte entre os governos Bolsonaro e Joe Biden foi o ex-presidente Michel Temer, que recentemente foi designado pelo presidente brasileiro para chefiar uma missão humanitária no Líbano. Ele conheceu o democrata em 2012, quando dividiram a mesma mesa durante a recepção da posse de Enrique Peña Nieto como presidente do México. Em 2014, durante a Copa do Mundo, os laços ficaram mais estreitos depois que Biden visitou Temer, vice-presidente do Brasil, no Palácio do Jaburu. Em setembro de 2016, coube a Temer, já investido do cargo de presidente da República, retribuir a cortesia em encontro na Casa Branca. Biden foi a primeira autoridade internacional a defender a legitimidade da ascensão de Temer ao Planalto, na esteira do impeachment de Dilma. Rechaçou as acusações de “golpe” e disse que o Brasil continuaria a ser um dos parceiros mais próximos dos EUA. “No futuro, se o presidente Bolsonaro precisar do meu auxílio, eu vou auxiliar”, disse Temer a Crusoé. Ele admite ter uma “amizade institucional muito forte” com Biden.

Integrantes do Planalto se animam com a disposição de Temer. Um aliado de longa data do ex-presidente crê que ele não aceitaria fazer parte da equipe ministerial de Bolsonaro, mas um cargo de embaixador no exterior viria a calhar. No Planalto, o almirante Flávio Rocha, um dos responsáveis por cuidar da diplomacia presidencial, mantém contatos com Temer, com quem conversa sobre assuntos de governo, incluindo política externa.

Beto Barata/PRBeto Barata/PRTemer com Biden: o ex-presidente se ofereceu para ajudar o governo Bolsonaro nos contatos
Apesar de os canais de diálogo não estarem fechados, no Itamaraty há quem aponte “amadorismo” e “despreparo” na condução do plano do chanceler Ernesto Araújo para lidar com a eleição de Biden. No Ministério de Relações Exteriores, também se admite que as caneladas do chefe do Planalto no candidato democrata por meio de redes sociais “não ajudam”. No entanto, é quase um consenso no governo que os Estados Unidos não têm como prescindir de uma boa relação com o Brasil, mesmo que o presidente seja Jair Bolsonaro.

A avaliação que predomina entre os principais auxiliares do presidente para assuntos internacionais é que os eixos principais da política externa de Joe Biden na América Latina não devem se diferenciar, na essência, daqueles encampados por Donald Trump. Essa constatação é vista com uma boa notícia para os brasileiros. A dúvida é se será possível manter o cronograma de assinatura de novos acordos comerciais com Washington, sob Biden, para além daqueles já assinados em outubro, tendo em vista a importância da questão ambiental para o democrata.

Para isso, o Planalto conta com o embaixador do Brasil em Washington, Nestor Forster, que tenta colher os frutos do seu trabalho de “diplomacia parlamentar” executado nos últimos meses, em contatos com deputados e senadores democratas e republicanos. Na cúpula do Itamaraty, essa é uma das contribuições do diplomata citadas como dignas de elogios. A aposta da chancelaria brasileira é aproveitar as costuras já feitas com parlamentares democratas. Entre eles, o senador Bob Menendez, de Nova Jersey, membro da Comissão de Relações Exteriores e dono de duras posições sobre Cuba e Venezuela. Ele já foi chamado de o “menos favorito dos democratas” na Casa Branca de Obama. Há uma semana, Menendez recebeu elogios públicos de Eduardo Bolsonaro, o filho 03 do presidente da República.

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  1. O que impressiona é que no comando da chancelaria brasileira ainda predominem ideologias que sempre atrapalham os relacionamentos internacionais. O Brasil jamais deveria ter dado, por seus dirigentes, as cordialidades exageradas e simpatias pelo Governo Donald Tramp, que de várias formas e especialmente no combate ao coronavírus mostrou-se um péssimo governante. O melhor modelo de governança no trato internacional seria a neutralidade, mas há os prosélitos do colonialismo que muito atrapalha.

  2. Provavelmente tudo corra melhor do que alguns pensam. O fato de Bolsonaro torcer para Trump, não quer dizer que não consiga asfaltar seu caminho até Biden. Nuestra imprensa tem grande chance em verificar, nos próximos meses, que poderemos manter, e até mesmo aumentar um bom relacionamento que sempre tivemos. Quanto as preocupações ambientais, em que muitas são narrativas infundadas, tem tudo para se acomodar. A esquerda brasileira teima em manter o sonho do Rato acordado, ótimo para a direita !

  3. Michel Temer representando o Brasil??? Onde chegamos. Mas o que esperar de um governo que prometeu apoiar a Lava Jato e indica o Aras para a PGR e agora o Kassio (com K) para o STF!!! Pobre Brasil!! 😢😢😢🇧🇷🇧🇷🇧🇷

    1. verdade, verdadeiro lixo assim como Lula, psdb, etc. moro 2022 e viva lava jato

  4. Hoje estou discordando de minha revista favorita a qual sou assinante desde o primeiro exemplar. Detesto o Bolsonaro, quero que ele se exploda. Mas o Trump não tem culpa dos brasileiros elegerem esse zero à esquerda.

    1. ninguém tem culpa de eleitores ,bestializados,obsediados e hipnotizados pela ignorância, de votarem em.mentecaptos,Energumeros ,ogros imbecis!

    1. manda email para o Relacionamento Crusoé (entra na sua conta e verá como)

    2. Faça elegios a Sergio Moro e veja o que acontece aqui neste espaço de 500 dígitos. O mundo abre as porteiras para elogios, e muitas das vezes, para tembém críticas ,estas desde que não venham carregadas de xingamentos 🤬

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