Divulgação"Trump tem convocado seus apoiadores a sair no dia da eleição para monitorar o voto. Por que o Brasil deveria estar tão próximo disso?"

O último brasilianista

Anthony Pereira, professor do King’s College, afirma que o Brasil perdeu influência no mundo a partir do governo de Dilma Rousseff e aponta a falta de estratégia do Itamaraty
23.10.20

Com cidadania americana e britânica, o cientista político Anthony Pereira é um dos raros brasilianistas em ação – um dos últimos, na verdade. O termo foi criado na Guerra Fria para designar os acadêmicos americanos que se especializaram no Brasil, às vezes contando com apoio governamental. Com a queda da União Soviética e a diminuição da importância da América Latina, o grupo acabou entrando em extinção. Aos 61 anos, Pereira afirma aceitar o adjetivo brasilianista, mas sob certas condições. “Se por brasilianista se entende o acadêmico americano que ganhou notoriedade durante a ditadura, com acesso privilegiado a fontes oficiais, então eu não me enquadro nessa categoria”, diz. “Mas se a expressão significa alguém que se identifica com o povo brasileiro, que quer entender o país e deseja o seu bem, então aceito ser um brasilianista.”

Anthony Pereira começou a estudar português porque queria aprender a língua do avô, um açoriano de quem herdou o sobrenome. No primeiro ano da faculdade de Ciências Políticas, ele ganhou uma bolsa para estudar o meio ambiente no Brasil. Desde então, tem se debruçado sobre vários temas do país, incluindo diplomacia e segurança pública.

Para o acadêmico, a diplomacia brasileira começou a perder relevância no governo de Dilma Rousseff e a queda não foi revertida com as mudanças que aconteceram no Itamaraty após a posse de Jair Bolsonaro. “Não me parece que este governo tenha uma estratégia para a América do Sul ou para o resto do mundo”, diz. Pereira é professor no Brazil Institute do King’s College, em Londres. Nesta entrevista a Crusoé, ele diz que a aproximação com o governo de Donald Trump pode ser um perigo, uma vez que o presidente americano tem tomado atitudes antidemocráticas. Mesmo outros governos de direita, como o do Reino Unido, têm sido mais cautelosos e se aproximado dos democratas. “O governo Bolsonaro precisa ser ágil e pragmático para não ser pego de surpresa.” A seguir, os principais trechos da conversa.

Em que medida o Brasil tem perdido influência no exterior?
Antigamente, o debate sobre a política externa brasileira girava em torno dos méritos relativos das abordagens dos governos de Fernando Henrique Cardoso, que foi um pouco mais tradicional e respeitoso com as instituições, e de Lula, que apostou nas relações Sul-Sul e criticou os poderes estabelecidos. Foi um debate substancial. Mas, desde o governo de Dilma Rousseff, a política externa brasileira parece ter ficado muda, e o país perdeu influência. Não observo que essa trajetória declinante tenha sido alterada pelo atual governo brasileiro.

Investir em uma aproximação com Estados Unidos não ajudou a mudar isso?
A principal questão é que o governo Bolsonaro não se alinhou automaticamente com os Estados Unidos, mas com o governo de Donald Trump. Isso é um perigo, porque não se trata de um governo republicano comum, nos moldes dos de George W. Bush, George H. Bush, Ronald Reagan e Gerald Ford. É algo muito diferente. Por esse motivo, muitos republicanos, incluindo ex-membros do gabinete de George W. Bush, como o ex-secretário de estado Colin Powell, estão condenando publicamente Trump e endossando a campanha do democrata Joe Biden.

Em que o governo de Trump é diferente dos republicanos que o antecederam?
O presidente está assumindo posições antidemocráticas nesta eleição. Ele está dizendo que, se perder o pleito, terá sido por causa de uma fraude. Ele diz que seus opositores são comunistas e está espalhando o medo ao alegar que a lei e a ordem serão desrespeitadas, caso ele seja derrotado. Ao mesmo tempo, Trump tem convocado seus apoiadores a sair no dia da eleição para monitorar o voto, o que pode estimular a violência. É essa a cara do governo que o Brasil afirma ser um de seus principais aliados. Por que o Brasil deveria estar tão próximo disso?

Arquivo pessoalArquivo pessoal“Como presidente, Biden deverá manter uma relação cordial”
Outros governos com viés de direita assumiram atitudes diferentes?
Sim. Um bom exemplo é o governo do primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson. Ele tem sido muito mais cuidadoso. Recentemente, o ministro das Relações Exteriores britânico, Dominic Raab, visitou os Estados Unidos e se reuniu com Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Deputados, e com outros democratas.

Como o senhor acha que Trump será lembrado?
Acho que Trump será lembrado pela maioria dos americanos com vergonha e embaraço. Será visto como um mentiroso e um valentão, alguém que abusou de seu poder, agiu principalmente em seu próprio interesse e se envolveu em atos grotescos de teatro político, expondo seu narcisismo e autoritarismo. Provavelmente será lembrado da mesma forma que os americanos se recordam do senador Joseph McCarthy, o caçador de bruxas anticomunista dos anos 1950. Uma vez, McCarthy foi repreendido em uma de suas audiências por um advogado que lhe perguntou: “Você não tem decência, senhor?”. Muitos americanos estão fazendo a mesma pergunta a Trump hoje. O presidente não inventou as divisões na política dos Estados Unidos, mas ele as aprofundou, explorou-as para seu próprio ganho e baixou o nível de conduta presidencial.

No caso de uma vitória de Joe Biden, que mudanças o Brasil poderia esperar?
Os Estados Unidos provavelmente continuarão a pressionar Brasília a não incluir a Huawei no leilão de 5G, marcado para o primeiro semestre de 2021. A cooperação com o Brasil, feita pelo governo atual, será mantida principalmente porque as concessões e adaptações foram feitas principalmente pelo lado brasileiro. Mas muitas outras mudanças poderão ocorrer. O governo Bolsonaro precisa ser ágil e pragmático para não ser pego de surpresa. Em um possível governo Biden, os Estados Unidos terão um discurso totalmente diferente em relação ao meio ambiente. Se ele adotar uma posição mais dura com o Brasil por causa das queimadas na Amazônia, isso aumentaria sua popularidade entre os eleitores da sua base. Negar essa realidade, afirmando que o aumento da taxa de desmatamento é uma mentira, como fez Bolsonaro em agosto, pode não chamar a atenção de Trump, mas certamente não cairia bem em uma Casa Branca democrata.

A relação com a América Latina também poderia mudar com Joe Biden?
Biden provavelmente se engajaria mais na América Latina. Quando foi vice-presidente, ele fez 16 viagens à região. Trump só fez isso uma vez, quando esteve em Buenos Aires para a Cúpula do G20, em 2018. Nunca viajou ao Brasil, apesar de o presidente Jair Bolsonaro tê-lo visitado quatro vezes. Um governo Biden provavelmente manteria as sanções do governo Trump contra a Venezuela. Em relação a Cuba, as restrições de viagens poderiam ser relaxadas, mas a situação provavelmente não voltará ao que foi em 2014 e 2015 (quando Barack Obama retomou relações). De qualquer jeito, a participação do Brasil nessas questões será marginal. Como presidente, Biden deverá manter uma relação cordial, mas não necessariamente dará prioridade ao país.

O sr. enxerga alguma estratégia da diplomacia brasileira para ganhar relevância na arena internacional?
Não me parece que este governo tenha uma estratégia para a América do Sul ou para o resto do mundo. Em um artigo publicado em 2017 (Trump e o Ocidente), o diplomata Ernesto Araújo escreveu que a União Europeia era uma instituição falida, que sufocava a soberania nacional de seus membros. Também escreveu que os acordos comerciais faziam parte da ideologia do globalismo, que ele rejeitou. No entanto, quando o acordo UE-Mercosul foi anunciado, em junho de 2019, Araújo, então ministro das Relações Exteriores, o abraçou de todo o coração. Ele não teve qualquer constrangimento ou medo de soar contraditório. Usou o acordo como prova de que sua nova abordagem poderia dar frutos. Outro ponto é a posição em relação à Venezuela. Para mim, colocar-se contra o bolivarianismo na América do Sul ou contra a ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela também não chega a ser realmente uma estratégia para a região.

Arquivo pessoalArquivo pessoal“Brasileiros e europeus têm mantido um diálogo de surdos”
Por que bradar contra o bolivarianismo não conta?
Porque é apenas um slogan que não reflete a realidade atual. O bolivarianismo na região e a Aliança Bolivariana para as Américas (Alba), criada por Hugo Chávez, encolheram com a deterioração da economia venezuelana. Bolsonaro usa isso principalmente para agradar sua base de eleitores, mas não chega a constituir uma estratégia. Para tanto, o governo brasileiro teria de se concentrar em problemas reais, como o coronavírus, o desemprego, a pobreza, o tráfico de drogas, de armas e de pessoas, além do meio ambiente. O governo Bolsonaro está trocando informações com outros governos, estudando quais políticas têm sido eficazes e coordenando sua resposta com esses outros governos? Isso, sim, seria exemplo de implementação de uma estratégia genuína.

Como os europeus têm olhado para o Brasil ultimamente?
Brasileiros e europeus têm mantido um diálogo de surdos. O governo Bolsonaro criou o Conselho Nacional da Amazônia Legal, chefiado pelo vice-presidente Hamilton Mourão, supostamente para fazer cumprir a lei ambiental na floresta tropical. Paralelamente, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, lançou uma campanha contra a abordagem punitiva das exportações agrícolas brasileiras. Tereza defende os compromissos do Acordo de Paris de 2015 e argumenta que muitas fazendas brasileiras adotaram formas sustentáveis de produção. Ela também tem destacado que as emissões anuais de gases de efeito estufa da União Europeia são mais de três vezes maiores que as do Brasil, o que é um ponto válido. O problema é que, para os europeus, o que importa para valer é o índice de desmatamento na Amazônia brasileira. Franceses e alemães podem facilmente acessar os sites do governo brasileiro e constatar que a taxa de desmatamento aumentou 34% entre 2018 e 2019. Eles também podem descobrir, por meio de outras fontes confiáveis, que a taxa de desmatamento subiu novamente entre 2019 e 2020. Para piorar, os europeus não estão recebendo sinais confiáveis de que o governo Bolsonaro se preocupa com esse tema ou pretende fazer algo a respeito. Até que haja uma mudança nesse aspecto, a posição oficial brasileira, representada por Mourão e Tereza, dificilmente será assimilada pela Europa.

Há evidências de que o Brasil perdeu influência na Europa?
Desde sua posse, Bolsonaro só viajou uma vez à Europa. Ele foi para o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, em janeiro de 2019. Seu discurso de seis minutos e meio não foi exatamente o que chamou atenção de todos. Mesmo antes da pandemia do coronavírus, quando viajar era mais fácil, muitos governos europeus — incluindo governos conservadores, como o do Reino Unido — não estavam interessados em recebê-lo. Em parte, isso é explicado pela associação que se fez entre Bolsonaro e Trump. Em janeiro, o Pew Research Center publicou um relatório que mostrou que a porcentagem do público que confia em Trump era baixa em toda a Europa: 13% na Alemanha, 20% na França, 21% na Espanha, 32% na Itália e 32% no Reino Unido. Decididamente, a associação acrítica do presidente Bolsonaro com Trump não ajudou sua imagem por aqui.

Ainda existe a possibilidade de o acordo entre o Mercosul e União Europeia ser ratificado?
Até mesmo o governo da Alemanha, que apoia o acordo, ficou mais cético nos últimos meses. O Parlamento Europeu ainda tem de votar as partes comerciais do tratado, enquanto os componentes políticos, incluindo as disposições sobre o meio ambiente, terão de ser ratificados por cada um dos 27 parlamentos dos países da UE. É muito fácil imaginar que o processo de ratificação ficará estancado em algum lugar. Também é improvável que a ratificação aconteça até 2021, se é que irá ocorrer. Os governos de França, Áustria, Irlanda e Luxemburgo, bem como a maioria no parlamento da Holanda, parecem ser contra a ratificação. Também há membros do Parlamento Europeu que são contra o acordo. E várias ONGs têm se mobilizado, argumentando que o tratado aceleraria a destruição ambiental na Amazônia. Esse é um argumento especialmente atraente para os jovens, que estão preocupados com as mudanças climáticas. Além de tudo isso, os setores agrícolas de países protecionistas como França e Irlanda também devem abraçar a causa ambiental, pois eles não querem competir com os produtos do Mercosul, principalmente carne bovina, suína, aves, soja e açúcar brasileiros.

Um acordo comercial com o Reino Unido, após o Brexit, poderia ser uma compensação?
Uma vez fora da União Europeia, o Reino Unido provavelmente estará mais interessado em um acordo comercial com o Mercosul. Os britânicos não protegem sua agricultura tanto quanto a França. Cerca de um terço das importações de alimentos do Reino Unido vêm da União Europeia, e os produtores brasileiros poderiam substituí-los. Mas é preciso levar em conta que o governo do primeiro-ministro Boris Johnson parece considerar um acordo comercial com os Estados Unidos mais importante que um acordo com o Mercosul. Para o Brasil, a conta básica da situação é que a UE tem 446 milhões de habitantes e o Reino Unido, 67 milhões. O acordo com a União Europeia é muito mais importante do que um possível tratado com o Reino Unido.

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  1. O Brasil nunca teve relevância diplomática. Não temos forças armadas equipadas para ganhar nem no Uruguai, só exportamos comodities, e, mesmo com um grande mercado consumidor, temos a economia tão fechada como a de países comunistas. Temos que fazer como o Chile, fechar acordos bilaterais para abrir a economia e sair dos holofotes. Bom que ele é o último brasilianista, espero que se aposente logo, é só mais um esquerdista democrata radical que nunca nos ajudou em p* nenhuma.

    1. Também acho que essa turma comunista fica focada na Amazônia brasileira e não liga para as usinas atômicas e térmicas que se espalham pela Europa.

  2. Em meio a tantas insinuações maldosa, notícias destorcidas, meias palavras, temas desencontrados com conteúdo de reportagens, gostaria de revelar que pra mim a CRUSOE não mais merece credibilidade.

    1. O entrevistado não é isento nem moderado, basta ver como pinta o Trump como o diabo na terra.

    2. Sr Afrânio o Sr não gosta de uma análise isenta de influências de políticas tupiniquins, a meu ver análise como essa nos faz acreditar mais em uma imprensa livre de influências políticas, meus parabéns ao relator dessa matéria

    1. Ele acha que vamos ganhar algo diplomaticamente patrocinando palestra da Greta e levando índio para discursar em reunião da ONU.

  3. Quem já trabalhou em país industrializado sabe do acerto das palavras do Sr. Pereira. E não foi com Dilma, mas com Lula que iniciou a desconstrução de todo e qualquer sinal de inteligência nesse país. Foi aí que o fácil discurso politico começou a prevalecer sobre o resto. Não há mais pensadores ou intelectuais. As universidades estão aparelhadas e o que as sustenta é o mútuo reconhecimento da mediocridade. Onde acaba o desenvolvimento da inteligência e da educação, acaba a civilização.

  4. Achei a entrevista direcionada, sendo assim péssima, tanto por parte do entrevistado como do entrevistador, ora, não abordar a questão Chinesa, que está criando um barril de pólvora na Ásia, e que a única alternativa a futura escravidão Chinesa, que todos iremos viver, é a América com Trump. A Falida União Europeia nada se opõe à China. Pergunte aos Japoneses, Indianos, Coreanos e demais países daquela região inclusive Taiwan, como estão se sentindo. O que a Europa está fazendo?

  5. Ao contrário da época de Lula,hoje temos estudiosos estrangeiros com uma visão muito lúcida da situação brasileira. Nem sempre é trivial ser estrangeiro e enxergar o óbvio de outro país, mas o Dr. Pereira possui uma visão muito precisa de nossa situação.

  6. Parabéns, Duda, pela excelente intrevista. Não devemos esperar que nada de bom advenha do governo Bolsonaro, composto tão somente por gente muito ignorante, rude, caipira. Vamos levar 100 anos para alcançar os países sérios na área da sustentabilidade e manejo inteligente do meio ambiente.

  7. ...continuando: 2) não consumam nenhum alimento processado (cozinhem sua comida); não utilizem roupas, calçados e acessórios industrializados; não utilizem cosméticos e outros produtos de beleza; higiene pessoal somente com creme dental comum e sabão em barra. O restante é hipocrisia pura.

  8. Sugestão para os jovens preocupados com o meio-ambiente: 1) não troquem de celulares, notebooks e outros eletrônicos antes de estragarem: cada um consumiu metais pesados, terras raras, ouro etc., todos obtidos por garimpagem; não viagem de avião, o veículo de transporte mais destruidor do meio ambiente; não comprem nada produzido longe de suas casas, principalmente do exterior, pois a navegação marítima está destruindo o ecossistema marinho, que é quem produz 80% do oxigênio.

  9. parei no primeiro parágrafo, ao ler que Trump tem tomado decisões anti democráticas. Quem fala isso já mostra ignorância do assunto, de cara.

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