XinhuaO governo americano estuda criar um fundo de investimento para multinacionais tirarem empresas da China

Inimigos íntimos

Manobras militares, fechamento de consulados, pressões comerciais e trocas de acusações elevam as tensões entre Estados Unidos e China. Saiba como a "nova Guerra Fria" pode afetar você
31.07.20

Em cinquenta anos, a relação entre a China e os Estados Unidos deu um giro completo. Nos anos 1970, o presidente americano Richard Nixon e seu secretário de estado Henry Kissinger surpreenderam o mundo ao reatar os contatos com Pequim. O objetivo era expandir a influência americana, enfraquecendo a esfera soviética. “No longo prazo, simplesmente não podemos deixar a China de fora da família de nações. O mundo não pode estar seguro até que a China mude”, escreveu o presidente Richard Nixon, em artigo na revista Foreign Affairs, em 1967.

Após cinco décadas de engajamento com os chineses, os americanos hoje se mostram extremamente incomodados com a presença do gigante asiático entre os mais poderosos. Para os Estados Unidos, é a segurança mundial que novamente está em jogo. Na quinta, 23 de julho, o trecho do artigo de Nixon foi citado no discurso China Comunista e o Futuro do Mundo Livre, pelo atual secretário de estado Mike Pompeo, realizado justamente na Biblioteca Richard Nixon, na Califórnia. Pompeo decretou o fracasso da aproximação com a China e pediu que o mundo livre resistisse à ascensão de Pequim. “O discurso de Pompeo é um ponto de virada simbólico, formalizando a saída do governo americano da política de engajamento iniciada por Nixon”, diz Pepe Zhang, diretor associado do Centro China-América Latina no Atlantic Council.

A China ocupou o posto de maior parceiro comercial dos Estados Unidos na última década. Só perdeu a posição em meados do ano passado, quando as barreiras tarifárias afetaram as importações e exportações entre os dois países. Ainda assim, são duas economias muito dependentes uma da outra. O problema é que cada um dos lados — o chinês e o americano — não pode acatar as demandas do outro sem comprometer a essência de seus sistemas. A mentalidade baseada nas liberdades individuais que rege os Estados Unidos é oposta à chinesa, que vê no coletivismo e no controle do estado peças fundamentais para o bem-estar social.

Os americanos querem que a China deixe de reprimir minorias uigures ou manifestantes em Hong Kong, que abandone suas pretensões militares na Ásia, que deixe de roubar propriedade intelectual e que empresas de tecnologia como a Huawei não estejam subordinadas ao Partido Comunista. Para a China, abrir mão dessas coisas só seria possível com uma troca de regime, o que é impensável. Da parte dos chineses, querer que os americanos façam comércio sem se importar com a natureza ditatorial parece um desejo distante, uma vez que no Partido Democrata a ojeriza a Pequim também é grande. “Há um crescente consenso em Washington de que os Estados Unidos precisam ser mais duros com a China “, diz Trey McArver, da consultoria Trivium China.

Biblioteca Richard NixonBiblioteca Richard NixonO presidente americano Richard Nixon em visita à China, em 1972
Os Estados Unidos consideram que a ascensão da China na área militar, tecnológica e na seara dos organismos internacionais, como a Organização Mundial de Saúde, constitui uma ameaça a sua segurança nacional. No mesmo dia em que Pompeo discursou na Biblioteca Richard Nixon, os americanos ordenaram o fechamento do consulado chinês em Houston, no Texas, sob alegação de espionagem. A resposta chinesa veio na semana seguinte, com o fechamento da representação americana em Chengdu, sudoeste da China. Foi o ápice da escalada de tensões.

“É muito raro, fora de períodos de guerra, que um país ordene o fechamento da missão diplomática de outro país. Não existe precedente para essa decisão no relacionamento moderno entre Estados Unidos e China”, diz o especialista do Instituto Brookings Ryan Hass, que foi diretor para China do Conselho de Segurança Nacional americano, entre 2013 e 2017. Pouco antes, em junho, Trump assinou um decreto para encerrar o tratamento econômico e comercial especial concedido a Hong Kong. A medida foi uma retaliação à nova lei de segurança nacional imposta pelo regime comunista à cidade.

No front militar, as tensões devem permear os próximos meses. Exercícios conjuntos da Marinha americana e da Índia, que não aconteciam desde 2012, voltaram a ocorrer no Oceano Índico em junho. Dias antes, militares de China e Índia se enfrentaram a pauladas em uma região da fronteira. Ao menos 20 soldados morreram. No domingo, 26, dois aviões militares americanos foram vistos a menos de 100 quilômetros de Xangai. Na terça imediatamente anterior, dia 21, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Mark Esper listara diversos exemplos de maus comportamentos da China, em seminário pela internet. Falou dos exercícios com a Marinha da Índia e previu um conflito de alta intensidade na região do Mar do Sul da China. “Nós esperamos nunca precisar lutar, mas temos de estar preparados para derrotá-los”, disse Esper.

ReproduçãoReproduçãoForças navais americanas em exercícios com a Marinha da Índia
Um confronto aberto não interessa a nenhuma das partes e tende a ser evitado por questões pragmáticas, para além da obviedade de poder degenerar em guerra nuclear. Para os chineses, a estabilidade interna do regime está ligada ao crescimento econômico, o qual depende muito do comércio internacional. “À China não interessa um confronto bélico porque isso alteraria o seu curso de crescimento econômico e de desenvolvimento”, diz Marcus Vinícius de Freitas, professor-visitante de direito internacional público da Universidade de Relações Exteriores da China. No front comercial, a guerra de tarifas iniciada por Trump em 2017 é um campo aberto. Uma trégua veio com um acordo assinado em janeiro, no qual Pequim se comprometeu a elevar a compra de produtos americanos e a respeitar a propriedade intelectual. Com a chegada da pandemia do coronavírus e as críticas americanas à China por ocultar dados da doença, o acordo pode ter a implementação atrasada ou até mesmo ser suspenso.

Há ainda o front eleitoral. Em 2016, o plano de governo do então candidato Donald Trump citou “China” ou “chineses” oito vezes. No documento da campanha pela reeleição deste ano, foram 25 referências. O assunto, contudo, não deverá ser decisivo no pleito de novembro. Nas pesquisas de opinião abertas, em que os entrevistados citam livremente os principais temas, a China nem sequer aparece. Coronavírus, economia, saúde e relações raciais são os assuntos mais relevantes. Quando perguntados sobre a China, a maioria dos entrevistados afirma que o rival democrata Joe Biden seria a pessoa mais indicada para lidar com a tensão. A rejeição ao país asiático é bipartidária: 73% dos americanos afirmam ter uma visão negativa da China.

Casa BrancaCasa BrancaTrump com a placa na fábrica da Apple, em 2019: “Feito nos EUA”
A expectativa para os próximos meses é que a disputa tenha variações de intensidade e que os governos de ambos os países gastem suas munições nos vários fronts, o que gera consequências diretas para a vida das pessoas. De uma maneira geral, as incertezas sobre a briga das duas nações têm elevado o valor do dólar. “Ainda que isso possa favorecer as exportações do agronegócio brasileiro, outros setores, como o industrial, que dependem de importações, acabam sendo prejudicados”, diz o cientista político e especialista em relações internacionais Marcelo Suano, do Ibmec, em São Paulo. “Além disso, a imprevisibilidade inibe os investimentos.”

Medidas governamentais contra empresas chinesas têm se multiplicado pelo mundo. Os americanos pressionam diversos governos, inclusive o brasileiro, a não incluir a companhia chinesa Huawei nos leilões para a construção de redes de infraestrutura 5G. Reino Unido, Austrália, Japão e Suécia seguiram os americanos. Alemanha e França estão perto de fazer o mesmo. O governo dos Estados Unidos também estuda banir o aplicativo de vídeos TikTok dos celulares, temendo o roubo de dados de privacidade e a exposição de crianças. A Índia, que era o maior mercado do aplicativo, tomou a medida em junho, após o conflito com soldados chineses na fronteira.

Há ainda uma tendência crescente de companhias cancelarem, por conta própria ou estimuladas por autoridades, investimentos em fábricas na China e inaugurarem unidades nos Estados Unidos e outros países ocidentais. A dificuldade de obter insumos chineses para combater a pandemia contou muito para esse movimento. Na quarta-feira, 29, o candidato da Casa Branca para assumir o Banco Mundial, Mauricio Claver-Carone, disse que está pensando em um plano para oferecer incentivos de 30 bilhões a 50 bilhões de dólares para multinacionais americanas mudarem suas fábricas da Ásia para os Estados Unidos, para a América Latina e para o Caribe. O processo, também chamado de reindustrialização, é visto por alguns políticos como uma maneira de gerar empregos e ganhar votos. Em novembro do ano passado, o presidente da Apple, Tim Cook, visitou com Donald Trump uma nova fábrica de computadores da companhia no Texas. Uma placa comemorativa de metal dizia: “Mac Pro. Desenvolvido pela Apple na Califórnia. Fabricado nos Estados Unidos.” A mensagem faz referência à frase “Desenvolvido pela Apple na Califórnia. Fabricado na China” que costuma aparecer nos celulares iPhone. A consequência indireta desse tipo de política é um aumento dos preços de vários produtos e inflação, uma vez que é muito difícil produzir a um custo menor que o da China.

Boicotes para que consumidores deixem de comprar produtos chineses também são uma possibilidade no horizonte, a pretexto de protestar contra as persistentes violações de direitos humanos, como os campos de concentração para minorias muçulmanas em Xinjiang. “Seria uma retomada de técnicas da Guerra Fria, quando a União Soviética, também comunista, era criticada por perseguir cristãos”, diz o professor Marcus Vinícius de Freitas. “A questão é que a China é muito mais importante economicamente do que foi a União Soviética, o que gera efeitos maiores.” Os reflexos da “nova Guerra Fria” nunca estiveram tão perto da vida de cidadãos de todo o planeta.

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  1. Onde os Estados Unidos está o progresso acontece. Até a China cresceu. Que não seja tarde demais para o mundo conter o avanço do ‘dragão vermelho comunista.’

  2. Quem está certo, não deveria nos interessar. Sabemos que os US, também como todos, pensam primeiro em resolver os seus problemas.

  3. Hoje nós vendemos para china amanhã eles tomam da gente, sem pagar nada. cuidado com comunistas !!!! eles não são confiáveis.....

  4. Se mundo se unir, descobriremos que a China precisa muito mais do mundo do que o mundo precisa da China. Temos que transferir sim, maciçamente, fábricas para o ocidente. Se vai encarecer produtos, é um preço que devemos pagar. E precisamos de uma legislação que impeça a China de comprar terras e empresas ligadas a agronegócio e infra estrutura.

  5. Para nós brasileiros nada interessa a destruição econômica da China visto que são o nosso maior comprador, dos EUA nosso maior concorrente no agro negócio. As favas os americanos.

    1. Errado o seu pensamento. Quem se mistura com porcos farelos come. A China é comunista e não quer negociar somente, quer tomar posse e fazer o Brasil uma nação escrava.

  6. a China parece ser mais importante economicamente por comprar matéria prima em demasia de muitos paises, maquinario efetivo e mão de obra escrava, fazendo seus preços serem imbatíveis, no entanto numa guerra contra vários países aliados, eles tendem a enfraquecer rapidamente essa economia dependente de matéria prima.

  7. Vale lembrar que manobras navais conjuntas entre Índia e Estados Unidos não são inéditas desde 2012. Os chamados exercícios Malabar vêm ocorrendo desde 1992 e com o tempo incorporaram também o Japão.

  8. As vestais da democracia mundial criaram a serpente e agora querem produzir antídoto para o seu veneno. Quando lhes são convenientes apoiam todo o tipo de ditadura, sem nenhum questionamento. Regimes totalitários árabes, iraquianos, latino americanos e outros sempre foram tolerados enquanto abasteciam o voraz e insaciável mercado americano. Quando incomodam viram inimigos. Não defendo regimes autoritários e desumanos, apenas não creio que serão combatidos com a hipocrisia americana.

    1. Os democratas americanos querem que isso continue... que os escravos chineses sejam livres!

  9. Que curioso, quando Bolsonaro assumiu, Trump era o “Deus” da direita brasileira. Ideólogos desonestos como Ana Paula Henkel, Narloch, Duda Teixeira e Rodrigo Constantino teciam loas ao “mito do mito”. Hoje, ninguém mais fala nos EUA de Trump, a não ser os muito fanáticos. A China planejava assumir a liderança mundial até 2050. Graças a Trump e às grandes corporações americanas, essa meta foi bastante antecipada. A direita errou com Bolsonaro e errou com Mr. Trump. Tá faltando discernimento.

  10. Morei em Foz do Iguaçu, os produtos chineses que comprava em CIUDAD DEL ESTE a maioria de má qualidade. Nos supermercados e em qualquer outra parte do mundo, quando leio "Made in China" não compro. Cansei de me decepcionar, pouca durabilidade, quando não de má qualidade e durabilidade, sem contar outros maus predicados....

  11. A CHINA INTERESSA A GUERRA BIOLÓGICA, CONTRA O MUNDO. OS AMARELOS COMEÇARAM A DOMINAR O MUNDO. SÓ OS EUA PARA PARAR ELES. POR MUITO MENOS QUE ISSO, O JAPÃO LEVOU 2 BBS ATÔMICAS.

  12. Só a América yankee, de quem nos aproximamos pós desastre comunista dos últimos 35 anos por aqui, resguardará esta nova caminhada iniciada em 2018, livre de táticas espúrias de domínio, em q o enriquecimento ilícito era o principal instrumento. Comunismo foi provado, representa o q de pior a humanidade pode experimentar.

    1. Raimundo, é exatamente isso que a China quer que aconteça com os brasileiros que votaram no Bolsonaro... infelizmente, você está se alinhando ao dragão.

    2. José, essa caminhada iniciada em 2.018 tinha tudo para conquistar novos mercados para os produtos brasileiros, não fosse Flávio Bolsonaro Fake News Foro Privilegiado Retroativo Centrão PURO que fez a máscara de Bolsonaro Fake News cair. Eu votei em Bolsonaro Fake News. Agora é Dr. Sérgio Moro!

    3. China com seu regime de partido único, que não preza pelas liberdades individuais, democracia, enfim os direitos humanos não pode ser alternativa para ninguém civilizado. Está mais que na hora dos EUA corrigir o erro cometido no passado quando se aproximaram da China acreditando que poderiam tirar vantagens comerciais e influenciar para alterar o sistema vigente.

    4. Concordo plenamente. Mas não vai ser fácil não. A China está capitalizada e aproveitou para construir o seu parque tecnológico, coisa que o Brasil nunca procurou implementar. Tem muito capital para a contrainformação, vide as parcerias com a Globo, Band e EBC.

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