Uma nova paideia
Os gregos transformaram gradualmente a educação de uma simples transmissão de costumes numa reflexão consciente sobre o que significa formar um ser humano excelente
Werner Jaeger (1888–1961) foi um dos mais importantes filólogos clássicos e historiadores da cultura do século 20. Nascido na Alemanha, destacou-se precocemente nos estudos gregos e tornou-se professor da Universidade de Berlim, ocupando uma posição de enorme prestígio na tradição humanista alemã.
Sua obra está associada ao chamado Terceiro Humanismo (Dritter Humanismus), movimento intelectual que buscava renovar a cultura europeia por meio do reencontro com os ideais formativos da Grécia clássica. Após a ascensão do nacional-socialismo, Jaeger deixou a Alemanha e passou a lecionar nos Estados Unidos, especialmente na Universidade Harvard e na Universidade de Chicago.
Sua obra mais célebre é Paideia: A Formação do Homem Grego, considerada um dos maiores clássicos dos estudos helênicos modernos. O primeiro volume foi publicado em 1933, o segundo em 1944 e o terceiro em 1947. O conjunto da obra representa décadas de pesquisa dedicadas à compreensão do processo pelo qual os gregos construíram um ideal de formação humana que moldou toda a civilização ocidental.
O termo grego paideia não significa apenas educação no sentido escolar. Para Jaeger, designa o processo integral de formação do homem, envolvendo caráter, inteligência, sensibilidade moral, vida cívica e cultivo das virtudes.
Seu argumento central é que a originalidade da Grécia não reside apenas na criação da filosofia, da democracia ou da literatura, mas na elaboração consciente de um ideal de excelência humana (areté) transmitido de geração em geração por meio da poesia, da política, da religião, da filosofia e das instituições sociais.
Ao longo dos três volumes, Jaeger acompanha a evolução desse ideal desde Homero e a aristocracia heroica da Ilíada, passando pelos legisladores, pelos poetas líricos e trágicos, até alcançar Sócrates, Platão e Aristóteles. A narrativa mostra como os gregos transformaram gradualmente a educação de uma simples transmissão de costumes numa reflexão consciente sobre o que significa formar um ser humano excelente.
Jaeger procurou demonstrar algo que os gregos jamais esqueceram: toda ordem política repousa sobre uma ordem educativa anterior. Antes de existir uma boa Constituição, deve existir um determinado tipo de homem. Antes da cidade justa, existe a alma educada para a justiça. Essa talvez seja a tese mais profunda e mais atual de Paideia.
Weimar
Werner Jaeger escreveu sua obra seminal Paideia num momento em que a Alemanha atravessava uma profunda crise de identidade cultural e política.
A derrota na Primeira Guerra Mundial, a instabilidade da República de Weimar e a crescente radicalização ideológica haviam produzido uma sensação difusa de esgotamento da identidade europeia (algo que, como quero evidenciar, lembra o abandono de um processo formativo alto como o que verificamos atualmente).
Para Jaeger, porém, a raiz do problema não estava apenas nas instituições ou na economia, mas numa desorientação mais profunda: a perda de um ideal capaz de formar homens à altura das exigências da vida civilizada.
Sua investigação sobre a Grécia antiga nasce, então, menos de uma curiosidade arqueológica do que de uma inquietação filosófica diante do destino do Ocidente, de um momento de crise humana de valores… de uma convicção de que, sem balizas civilizatórias claras, estamos todos perdidos.
Jaeger procura mostrar que a grande originalidade dos gregos não se restringe a criar formas políticas, artísticas ou filosóficas superiores. Faz parte essencial da fortuna que deles herdamos a compreensão de que toda cultura depende de um projeto consciente de formação humana. Sem homens bem formados, a barbárie está sempre à porta.
De fato, a educação, para os gregos, não era mera transmissão de conhecimentos ou treinamento técnico. Era a modelagem do caráter, da inteligência e da sensibilidade segundo um ideal de excelência (areté).
Homero, os legisladores, os trágicos, Sócrates, Platão e Aristóteles aparecem, em Jaeger, como participantes de um mesmo esforço civilizacional: a construção de um tipo humano capaz de sustentar a pólis.
Por trás dessa reconstrução histórica encontra-se uma crítica implícita à modernidade. Jaeger via uma Europa extraordinariamente avançada em ciência, técnica e organização material, mas cada vez mais incapaz de responder à pergunta sobre o que significa formar um homem verdadeiramente culto.
Numa fórmula, o progresso havia multiplicado os meios, mas obscurecido os fins.
Ora, com efeito, nenhuma civilização permanece viva apenas pela força de suas instituições ou de sua riqueza. Ela depende da continuidade dos ideais que moldam as almas das novas gerações.
A obra Paideia assume, portanto, um caráter simultaneamente histórico e normativo.
Ao retornar à Grécia clássica, Jaeger deseja mandar uma clara mensagem para a Alemanha de seu tempo (e talvez para todo o Ocidente contemporâneo): a renovação política só poderia ser duradoura se precedida por uma renovação educativa.
Como Platão após a morte de Sócrates, Jaeger acreditava que as crises da cidade começam sempre como crises da alma, e que a reconstrução da ordem civilizada exige, antes de tudo, a reconstrução do homem.
De fato, meus amigos, a impressão que tenho ao observar o mundo contemporâneo é que atravessamos uma dificuldade semelhante àquela enfrentada por Jaeger.
Uma sociedade podia produzir indivíduos moralmente falhos e ainda conservar algum consenso sobre as virtudes que deveriam orientar a conduta humana. A honra resguardava algum significado, a honestidade era reconhecida como uma exigência do caráter, a coragem despertava respeito mesmo entre aqueles incapazes de praticá-la.
Certos comportamentos provocavam reprovação espontânea porque existia uma linguagem moral compartilhada, uma linguagem que estava espalhada no ambiente doméstico, mesmo o mais intelectualmente prejudicado, o mais iletrado ou não livresco.
Eis que… o que antes causava constrangimento passa a ser recebido com indiferença, quando não com aplauso.
Essa transformação aparece tanto entre líderes quanto entre cidadãos comuns. Mentiras públicas, abusos de poder, atos de corrupção, fraudes, manipulações e condutas vergonhosas circulam diante de todos sem produzir a reação moral que outrora seria esperada.
Vergonha
A lei sempre encontrou limites diante da criatividade humana para o erro. O elemento mais inquietante, para mim, é a ausência de vergonha. Muitos parecem não sentir qualquer necessidade de justificar seus atos perante uma medida superior de dignidade pessoal. Como se a própria ideia de honra tivesse sido deslocada para um lugar distante, preservada apenas em discursos ocasionais ou em referências históricas cada vez mais abstratas.
Jaeger provavelmente enxergaria nesse quadro uma crise da formação humana antes de enxergar uma crise política. Eu enxergo exatamente assim! Nenhuma comunidade se sustenta apenas por regulamentos, procedimentos ou mecanismos institucionais. Nenhuma comunidade se sustenta apenas por prosperidade técnica ou material.
Existe uma dependência silenciosa de hábitos morais, de exemplos admirados, de modelos de caráter que as novas gerações absorvem antes mesmo de refletirem sobre eles; uma absorção “por osmose" ética.
A isso os gregos chamavam paideia!
Não era uma disciplina específica nem um programa escolar delimitado.
Era a tentativa de formar um determinado tipo de homem. Um homem capaz de sentir repulsa diante da baixeza e responsabilidade diante de seus próprios atos.
Por essa razão, qualquer esforço sério de renovação civilizacional terá de passar por reformas educacionais profundas.
A palavra reforma, entretanto, costuma induzir imediatamente o pensamento para ministérios, currículos nacionais, legislações ou políticas públicas. Tudo isso tem sua relevância, mas toca apenas uma parte do problema.
A formação humana começa muito antes da sala de aula. Ela começa quando uma criança observa a maneira como seus pais falam, cumprem promessas, lidam com responsabilidades, tratam os mais fracos, enfrentam dificuldades e assumem as consequências de seus próprios atos. A educação formal pode aperfeiçoar ou ampliar esse trabalho. Dificilmente consegue substituí-lo.
Os gregos não acreditavam que o caráter pudesse ser produzido por decretos ou por técnicas pedagógicas isoladas. O caráter era cultivado pela convivência com exemplos concretos. A criança aprendia a admirar antes de aprender a argumentar. Aprendia a reconhecer a nobreza de certas atitudes antes de ser capaz de formular uma teoria sobre elas. A pólis era vista como uma extensão do sujeito, não o seu limite moral.
Nenhuma sociedade consegue transmitir virtudes que seus próprios adultos deixaram de levar a sério.
Quando pais desprezam a verdade, a alta cultura… professores relativizam qualquer noção de excelência e figuras públicas alcançam prestígio apesar da evidente indignidade de suas condutas, a educação torna-se uma atividade contraditória. As palavras seguem afirmando determinados valores, enquanto os exemplos ensinam exatamente o contrário.
Talvez por isso a crise contemporânea apresente uma resistência tão grande às soluções rápidas. Não estamos diante de uma deficiência de informação. Nunca existiram tantos meios de acesso ao conhecimento. Bibliotecas inteiras cabem hoje na palma da mão. O desafio encontra-se em outra esfera. Uma civilização pode acumular quantidades impressionantes de informação e, ao mesmo tempo, perder a capacidade de formar seres humanos moralmente orientados.
O domínio de ferramentas não produz, por si só, prudência. O desenvolvimento tecnológico não gera espontaneamente coragem, temperança ou senso de dever. Essas qualidades pertencem a uma ordem diferente da experiência humana e exigem um trabalho formativo que atravessa gerações.
Nesse sentido, a recuperação de uma autêntica paideia exige uma mudança de mentalidade que alcança o lar, a escola, a universidade e a vida pública. Exige pais que compreendam sua responsabilidade como educadores morais, escolas que voltem a apresentar modelos de grandeza humana e comunidades capazes de distinguir prestígio de virtude.
Exige também que a própria ideia de excelência seja resgatada de uma suspeita permanente que a cerca em muitos ambientes culturais. Uma sociedade que deixa de admirar o homem honrado, o homem íntegro, o homem corajoso e o homem disciplinado acaba encontrando dificuldade para produzi-los.
Jaeger acreditava que a sobrevivência do Ocidente dependia da preservação de um ideal elevado de formação humana. Sua preocupação surgiu em uma Europa marcada por crises políticas e espirituais profundas. A distância temporal que nos separa daquele contexto não torna sua reflexão menos atual, pelo contrário.
Em muitos aspectos, ela parece descrever uma questão que continua aberta. Afinal, toda geração precisa decidir se deseja apenas transmitir conhecimentos e habilidades ou se pretende formar homens e mulheres capazes de viver segundo algo mais alto do que seus interesses imediatos.
Essa decisão não pertence exclusivamente ao Estado, à escola ou à universidade. Ela começa dentro de casa, na esfera mais íntima da convivência humana, e se expande gradualmente até alcançar o destino de uma cultura inteira.
Dennys Xavier é escritor, tradutor e PhD em Filosofia
Instagram: prof.dennysxavier
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