Brasil é o segundo mais atingido pela crise de fertilizantes
Com a volta dos conflitos no Irã, o acesso a fertilizantes fica mais difícil, pressionando os preços bem quando a demanda volta a crescer
O fim da frágil trégua entre Estados Unidos e Irã voltou a ameaçar o abastecimento de fertilizantes para seus maiores importadores, dentre eles Brasil e Argentina, justamente quando os dois países se preparam para a próxima safra de grãos.
Desde o início de julho, ataques iranianos a navios no Estreito de Hormuz reacenderam o temor de nova escalada, e o fluxo de navios que buscam carregar fertilizante na região praticamente secou.
Antes do conflito, entre 20 e 40 navios carregavam fertilizante por semana no Golfo Pérsico; hoje esse número caiu para cerca de cinco. Apenas quatro navios vazios entraram na região para carregar fertilizante desde 30 de junho.
Segundo analistas do setor, o problema não é mais a produção em si, mas a confiança das companhias de navegação: se os armadores considerarem arriscado atravessar o estreito, as cargas não chegam aos compradores.
A mineradora Mosaic já sente esse efeito e informou que está reduzindo temporariamente a produção de fertilizante fosfatado no Brasil por causa do risco renovado em Hormuz, que também deve reduzir a oferta mundial de enxofre, insumo essencial para esse tipo de adubo. A empresa afirma que retomará a capacidade plena assim que a situação se normalizar.
O momento é delicado porque as importações brasileiras de ureia já haviam caído 32% no primeiro semestre de 2026, com produtores adiando compras e migrando para nitrogenados mais baratos.
Com os conflitos voltando na região, o acesso a esse fertilizante deve ficar mais distante, pressionando os preços justamente quando a demanda do Brasil e da Argentina volta a crescer para o plantio.
A Índia, segunda maior consumidora e maior importadora mundial de ureia, também enfrenta forte pressão. O país depende significativamente de suprimentos do Golfo Pérsico e corre o risco de reduzir sua área plantada, com impactos diretos na produção de arroz e trigo e consequente inflação interna.
O quadro se soma a um cenário internacional ainda não recuperado da fase mais aguda da guerra, quando cerca de 17% do gás natural e mais de 30% do nitrogênio fertilizante do mundo ficaram comprometidos, e quase metade do enxofre exportado no planeta ficou presa no Golfo.
A Austrália também enfrenta a possibilidade de redução de área plantada e alta de preços, enquanto partes da África tiveram dificuldade para encontrar fertilizante. Para o Brasil, que importa a maior parte do que consome, a alternativa segue a mesma: pagar mais caro pelo insumo ou reduzir a aplicação e arriscar uma safra menor, com o agravante da previsão de um El Niño forte tornar o cenário ainda mais incerto.
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