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Por que a Alemanha não quer ficar perto demais dos EUA nem longe da China

28.01.21 07:22

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, prometeu uma reaproximação com os países europeus durante a campanha eleitoral. Após sua vitória eleitoral em novembro, governantes da União Europeia foram efusivos em parabenizá-lo. Seu secretário de estado, Antony Blinken, que assumiu o posto nesta quarta, 27, viveu sua juventude na França e é considerado um “europeísta”.

Contudo, a chanceler alemã Angela Merkel (com Xi Jinping, na foto, em 2014) parece ter jogado um balde de água fria na expectativa americana de reaproximação. “Eu gostaria muito de evitar a construção de blocos. Não acho que faria justiça a muitas sociedades se disséssemos que aqui estão os Estados Unidos e ali está a China e estamos nos agrupando em torno de um ou de outro. Esse não é o meu entendimento de como as coisas devem ser“, disse Merkel.

Em vez de alinhar-se automaticamente com os americanos e distanciar-se da China, Merkel prefere manter uma equidistância dos dois. A primeira razão para isso é de ordem geopolítica. “A União Europeia sempre teve uma ambição de se colocar no centro, como um dos focos de poder em um mundo multipolar“, diz Ana Paula Tostes, colaboradora do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), no Rio de Janeiro.

Ao buscar essa relevância, os europeus entenderam que deveriam ganhar mais independência dos americanos. “Não haveria motivo para a Europa ficar a reboque dos Estados Unidos, principalmente depois de ter sido tão maltratada por Donald Trump.”

A outra questão é de natureza econômica. A Alemanha é o motor da Europa e exporta automóveis e máquinas para o mundo todo. Como outros países europeus, tem subsidiárias na China e busca uma penetração maior no mercado asiático. Em dezembro do ano passado, Merkel aproveitou seus últimos dias como presidente do Conselho Europeu para anunciar um acordo de investimentos entre a União Europeia e a China. “Quem ganhou com esse anúncio foi principalmente a Europa, e quem perdeu foram os Estados Unidos, que ficaram para trás“, diz Ana Paula.

Ao buscar satisfazer a sua economia, a Alemanha de Merkel não pode fechar suas portas para os rivais dos americanos. Os europeus precisam do gás russo, têm negócios na Turquia e não podem abrir mão do mercado chinês. “A Alemanha é um dos maiores exportadores do mundo. Desde a Guerra Fria, os alemães sabem que não podem e não devem escolher um lado. O que mudou recentemente não foi a postura alemã, mas a retomada da relação americana com a Europa. Obviamente, não é por causa disso que a Alemanha irá excluir os demais“, diz o cientista político Christian Lohbauer.

Vale lembrar também que o tabuleiro mundial deverá mudar com o governo de Joe Biden. Estados Unidos e Europa continuarão pressionando a ditadura de Xi Jinping em questões como meio ambiente, campos de concentração e trabalho escravo. Mas a tensão se manifestará de outra maneira. “As disputas passarão a acontecer principalmente nos fóruns internacionais, como a Organização Mundial do Comércio e o Tribunal Penal Internacional“, diz Lohbauer. A Alemanha, portanto, não está se distanciando dos americanos. A questão é que o jogo mudou, será mais diplomático e terá mais atores envolvidos.

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  1. 1.0 Bolsonaro ameaça os USA com pólvora. Seria cômico se não fosse trágico. Bolsonaro e a sua trupe, ataca ideologicamente a China. Bolsonaro se indispõe com a União Europeia por causa de questões ambientais. Ou seja, Bolsonaro é um desastre nas Relações Internacionais. Merkel tem um visão holística e estratégica no plano geopolítico. Sabe que hoje, o que funciona nessas relações, é o Soft Power. E para potencializar isso, precisa criar pontes e não erguer muros.

    1. 1.1 Os países se movimentando no tabuleiro e o Brasil cada vez ficando mais irrelevante internacionalmente.

  2. Diria Trump: "Minha senhora, ou vc é aliada, ou inimiga dos Estados Unidos (para Trump, é na base do "sim"ou "não"; o resto é coisa do diabo). Sendo uma inimiga, vamos retirar nossas tropas e equipamentos da NATO. Querem ser uma potência? Passe no teste: russos e chineses assediando seus territórios...e nós, americanos, só a parte assistindo o bicho pegar e vc virem suplicar socorro como ja Segunda Guerra Mundial.

  3. Aumentar gastos militares pra q? O q aconteceu com o Peace Dividend de Reagan anunciado após a queda do muro de Berlin? Desde entao gastos com destruicao aumentaram vertiginosamente puxado alianças anacronicas como OTAN q soh servem para beneficiar a industria bélica

  4. Ou seja o mais importante é o financeiro , se o mundo vai se tornar mais dependente de uma ditadura comunista , deixe para a geração futura resolver e sofrer as consequências , hoje o que interessa é alimentar o dragão e ganhar dinheiro, quem pode imaginar se ao invés de potência hegemônica do pós guerra ao invés de nos alinharmos com os americanos , tivéssemos todos juntos com união soviética, com certeza se ainda existissemos estaríamos correndo atrás do governo para comer , Deus nos ajude.

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