Os 65 bilhões que podem redesenhar uma gigante brasileira
Como uma dívida bilionária colocou credores, acionistas e a Shell no centro de uma negociação decisiva para salvar a Raízen
Uma das maiores empresas de energia do país tenta reorganizar um passivo de mais de 65 bilhões de reais por meio de um acordo que envolve aporte de capital, conversão de dívidas em ações e divisão de negócios. O desfecho da negociação pode alterar a estrutura de controle da companhia e o destino de milhares de credores.
A Raízen apresentou aos credores um plano de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de 65,4 bilhões de reais em dívidas. O valor representa a maior parte de um endividamento total estimado em 75,3 bilhões de reais. A proposta busca evitar uma recuperação judicial tradicional, considerada mais longa e complexa.
Um dos pilares da operação é a entrada de novos recursos pelos acionistas. A Shell se comprometeu a investir 3,5 bilhões de reais por meio da compra de ações a 0,25 real por papel. A Aguassanta, veículo de investimentos ligado ao empresário Rubens Ometto, poderá acrescentar até 500 milhões de reais nas mesmas condições.
O plano oferece três alternativas aos credores. A principal prevê que 45% dos créditos sejam convertidos em ações da empresa, enquanto os 55% restantes seriam transformados em novos títulos de dívida com vencimentos de longo prazo.
Outra opção envolve desconto de 80% sobre o valor devido, com pagamento apenas em 2047. Há ainda uma terceira alternativa voltada aos menores credores, com pagamento limitado a valores reduzidos.
Com a conversão de parte da dívida em ações, credores passariam a deter participação relevante no capital da empresa, enquanto os atuais acionistas veriam suas fatias diluídas.
Segundo os documentos apresentados aos investidores, a Raízen pretende separar suas operações em duas estruturas. Uma reuniria a distribuição de combustíveis sob a marca Shell no Brasil. A outra concentraria os negócios de açúcar, etanol, bioenergia e operações internacionais.
O material analisado pelo Valor Econômico destaca que a reorganização busca tornar cada atividade mais independente financeiramente. Para os credores, a divisão também cria ativos distintos que poderão servir de garantia para os novos instrumentos de dívida.
A deterioração financeira da companhia foi associada a uma combinação de fatores. Relatórios citados por analistas mencionam expansão financiada por dívida, juros elevados por período prolongado, quebra de safra em algumas regiões e margens mais apertadas em parte das operações.
Os termos ainda não são definitivos. A própria companhia afirma que mudanças podem ocorrer durante as negociações. Para entrar em vigor, a proposta precisa obter adesão da maioria dos credores submetidos ao processo de recuperação extrajudicial.
As assembleias de credores ocorrem nesta quarta-feira, com expectativa de homologação até o dia 8. O plano prevê ainda uma reformulação na governança: o conselho de administração passará a ter sete membros, sendo quatro indicados pelos credores e três pelos acionistas atuais.
Além disso, o fechamento da operação, previsto para até 31 de março de 2027, depende da aprovação de uma transação tributária com a União e da execução de um plano de desinvestimentos.
Ao justificar o apoio ao processo, a Shell afirmou que a recuperação extrajudicial representa uma medida necessária para enfrentar os desafios financeiros da companhia.
Em nota reproduzida pela imprensa, a Raízen declarou que o procedimento é “uma medida prudente e necessária” para apoiar a recuperação da Raízen e buscar uma solução negociada entre as partes envolvidas.
Agora, credores, acionistas e administradores terão de decidir se aceitam a proposta ou se exigem novos termos. O resultado definirá não apenas o futuro da companhia, mas também o destino de uma das maiores reestruturações corporativas já realizadas no Brasil.
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Comentários (1)
Clayton de Souza Pontes
2026-06-03 09:45:32Pelo que vi, estão buscando transformar dividas em capital, reduzindo as despesas financeiras . Pode dar certo