A alternativa Barbosa e a falência da política brasileira
Pré-candidatura de ex-ministro do Supremo Tribunal Federal reafirma abismo institucional em que o Brasil se meteu desde 2018
O lançamento do nome do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa (Democracia Cristã) para a corrida presidencial de 2026 é menos um sinal de força política e mais um sintoma agudo de falência do sistema partidário brasileiro. Quando um país começa a revisitar candidaturas que pareciam enterradas desde 2018 (sim, ele cogitou lançar seu nome pelo PSB), é porque o cardápio disponível se tornou indigesto até para os próprios eleitores habituados ao caos.
A eventual candidatura de Barbosa não nasce de uma onda popular organizada, de um movimento partidário robusto ou de um projeto claro de país. Surge do vazio. Surge do cansaço. Surge, principalmente, da percepção cada vez mais disseminada de que o Brasil entrou em 2026 sem conseguir produzir uma liderança presidencial capaz de inspirar confiança fora das bolhas ideológicas.
De um lado, o presidente Lula (PT) tenta vender a imagem de estabilidade institucional enquanto seu governo se afoga em velhos hábitos fisiológicos, loteamento político e sucessivos escândalos que transformaram a prometida “frente democrática” numa versão gourmetizada do toma-lá-dá-cá.
A essa altura, o lulismo parece preso numa espécie de negacionismo ético seletivo: corrupção virou problema apenas quando envolve adversários. Quando os escândalos orbitam aliados, ministros, estatais ou figuras próximas ao Planalto, o governo reage como quem sofre de amnésia institucional crônica. O PT, que passou anos acusando adversários de destruírem a democracia, hoje governa como quem administra uma máquina eleitoral permanente financiada pelo contribuinte.
Do outro lado, o senador Flávio Bolsonaro (PL) tenta se consolidar como herdeiro político do bolsonarismo, mas carrega nas costas um passivo que jamais conseguiu dissipar completamente. A retórica anticorrupção da família Bolsonaro derreteu sob o peso de investigações, suspeitas financeiras, relações nebulosas e personagens que parecem saídos de um roteiro paralelo de Brasília. A história mal explicada do financiamento do filme “Dark Horse” está aí e não nos deixa mentir.
Flávio virou uma caricatura involuntária do discurso que o bolsonarismo ajudou a popularizar. É difícil posar de paladino moral enquanto ressurge, vez ou outra, alguma capivara raivosa que carece de maiores explicações. De novo: a história mal contada do financiamento do filme “Dark Horse” está aí e não nos deixa mentir.
Nesse ambiente de descrença generalizada, Joaquim Barbosa reaparece quase como um produto de nostalgia institucional. Uma espécie de “lembram da Lava Jato?” ambulante. Para parte do eleitorado, seu nome representa o último momento em que o país acreditou que alguém poderoso poderia ser punido sem necessidade de autorização prévia do condomínio político de Brasília.
Ironicamente, a única figura que se coloca como verdadeiramente antissistema é filho... do sistema. Sem um comandante sério e confiável, o nome de Barbosa surge como alento. Mas dificilmente com forças para desbancar os dois protagonistas das eleições de 2026.
Uma pena.
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