Raysa Leite/FolhapressO atentado a Bolsonaro: quase um ano depois da facada, a PF está prestes a concluir a segunda investigação

Uma eleição diferente de todas as que o Brasil já teve

Do atentado a Jair Bolsonaro ao surrealismo de um candidato tutelado por um preso, a corrida presidencial de 2018 ficará marcada por um conjunto de ineditismos
28.10.18

A memória é a combinação de fatos ordenados de acordo com critérios de importância diferentes para cada um, em um processo de seleção do que merece ser lembrado e do que deve ser esquecido similar ao que nos leva a uma decisão de voto. Mas as eleições presidenciais de 2018 terão recordações que certamente serão compartilhadas pela maioria, pela sacudida que cada uma de suas peculiaridades deu na política brasileira. Eis as principais.

A facada

Ao longo da história do país houve atentados a presidentes já eleitos, como Prudente de Moraes, e a candidatos derrotados, como João Pessoa, vice na chapa de Getúlio Vargas cuja morte precipitou a Revolução de 30. Mas pela primeira vez o Brasil viu um candidato a presidente que liderava as pesquisas ser vítima de um ataque em plena campanha eleitoral. Jair Bolsonaro, do PSL, foi esfaqueado por Adélio Bispo de Oliveira quando era carregado pelos eleitores em Juiz de Fora, em 6 de setembro. A facada alterou o rumo da campanha. O capitão reformado cresceu nas pesquisas enquanto estava internado no Hospital Albert Einstein, continuou crescendo quando foi para casa convalescer, passou a fazer campanha com vídeos e posts nas redes sociais e manteve-se à frente quando alegou que seu estado de saúde o impedia de comparecer a debates eleitorais.

O ocaso da polarização PT x PSDB

Pelo fim da polarização política foi um brado ouvido com frequência no primeiro turno. Um pedido em certa medida contrário à realidade de uma eleição em dois turnos, que inevitavelmente deixa dois candidatos no segundo. Mas 2018 eliminou uma polarização que engessa a política brasileira desde a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso para presidente, em 1994: a disputa entre PSDB e PT. O partido dos tucanos estava preparado para desmontar primeiro Bolsonaro e depois Fernando Haddad na campanha. Subitamente, teve de adaptar a estratégia e questionar o sobrevivente de uma tentativa de homicídio diante de um eleitorado que convive com taxas de assassinato anuais que ultrapassam 60 mil vítimas. Com Alckmin derrotado, os tucanos dedicaram-se à disputa política que eles parecem mais gostar: brigar entre si. O presidenciável do PSDB acabou a eleição de forma melancólica: acusando de traição o seu ex-pupilo João Doria, candidato ao governo de São Paulo, por ter procurado se associar a Bolsonaro, e de ser o responsável por empurrar o PSDB para o governo Michel Temer – cujos níveis de popularidade ajudaram o ex-governador de São Paulo a afundar-se com a associação.

A internet venceu a TV

A internet já havia mudado a nossa forma de consumir informações, sejam elas notícias, música, filmes ou livros. Faltava saber se iria abalar também a relevância da propaganda política na TV, motivo de alianças como a de Geraldo Alckmin com os notórios partidos do Centrão. Abalou. Desde 1998, os dois candidatos com a maior faixa do horário eleitoral gratuito avançavam ao segundo turno. Neste ano Alckmin obteve 44% da fatia da propaganda na televisão, o maior percentual desde a redemocratização. No entanto, o resultado foi um amargo quarto lugar, com menos de 5% dos votos válidos. Eleito, Jair Bolsonaro, do PSL, teve parcos 0,02% do horário eleitoral. E reinou absoluto na internet. Os marqueteiros profissionais, que até anos atrás ditavam resultados, desta vez passaram em branco. E o dinheiro despejado na campanha não fez diferença.

Nas coligações, menos foi mais

Construída para garantir um tempo de TV que por si só não foi suficiente, a coligação de Alckmin também evidenciou que, quanto mais partidos estão com um candidato, mais motivos os adversários terão para atacá-lo. Cada um dos oito partidos aliados do PSDB na chapa de Alckmin era um argumento a mais para os adversários que queriam carimbá-lo como um candidato ligado às velhas estruturas e à política tradicional do toma lá dá cá que o eleitor já não suportava mais. Quem foi para a fase final teve alianças menores. Jair Bolsonaro se coligou apenas ao nanico PRTB. Fernando Haddad, do PT, fechou com PCdoB e PROS.

A queda dos caciques

Grande parte das estrelas dos grandes partidos sofreram revezes nas urnas, o que permite concluir que a população fugiu não só dos partidos, mas também dos seus comandantes. Alguns dos medalhões que fracassaram nas urnas: Romero Jucá, Eunício Oliveira e o clã Sarney, do MDB; Agripino Maia e Cesar Maia, do DEM; e Dilma Rousseff, Eduardo Suplicy e Jorge Viana, do PT. Herdeiros de caciques presos por corrupção também sofreram as consequências da impopularidade dos pais: os filhos dos presidiários Eduardo Cunha, Sergio Cabral Filho e Jorge Picciani foram barrados pelos eleitores.

O candidato do Monte (e da Ursal)

Ciro Gomes tinha o semblante desanimado no primeiro debate entre os candidatos no primeiro turno. Foi quando Cabo Daciolo conseguiu despertá-lo com uma estrambótica pergunta sobre as relações do pedetista com uma quimérica Ursal. Ciro aproveitou para dar uma resposta educada e bem-humorada àquela esquisitice, afastando por breve momento a fama de grosseiro graças ao candidato do Patriota. Depois da ajuda involuntária, o pedetista conseguiu atrair mais atenção para sua proposta de tirar os brasileiros do SPC. Daciolo subiu o monte: foi em um na Zona Oeste do Rio de Janeiro que passou boa parte da campanha, só descendo para participações flamejantes nos debates, sempre citando o “Jesus Vivo” que mora em seu coração. Daciolo também ganhou algum espaço no coração dos brasileiros, que se divertiram com ele – mas não o suficiente para votar no bombeiro evangélico. Mesmo assim teve mais votos do que Marina Silva e Henrique Meirelles.

As “fake news”

Eduardo Gomes nunca chamou os pobres de “marmiteiros”, mas perdeu uma eleição presidencial por isso. José Serra foi cercado e hostilizado por petistas em uma caminhada em Bangu, no Rio de Janeiro, mas a agressividade contra o tucano foi ofuscada pela insistência com que o PT repetia que não tinha havido agressão e que ele havia sido apenas atingido por uma bolinha de papel. Notícias falsas em campanha eleitoral não são novidade. Novidade foi que, agora, elas passaram a ser definidas em inglês graças ao Twittter planetário de Donald Trump – viraram “fake news” -, para talvez dar à mentira maior importância como elemento na política. Também passaram a ser espalhadas mais rapidamente, com a ajuda das redes sociais da internet e do aplicativo WhatsApp. Fernando Haddad acusou o adversário Jair Bolsonaro de espalhar uma série de mentiras contra ele, mas teve o seu momento de propagador de informação falsa: chamou de torturador o general Hamilton Mourão, vice de Bolsonaro, baseando-se em uma declaração do cantor Geraldo Azevedo que já havia sido publicamente desmentida.

A agressão fake e a violência real

A onda de mentiras – ou de fake news – poluiu o cenário, sem jamais alterá-lo, e turvou o entendimento de casos de violência registrados ao longo da campanha mais radicalizada da história brasileira. Se de um lado Jair Bolsonaro prometia varrer o PT do Brasil, de outro Fernando Haddad chamou o candidato do PSL de “anti-ser humano”. Provocações, brigas, discussões e xingamentos deram o tom da campanha entre os eleitores dos dois lados. Em Salvador, um eleitor do PT foi morto por um eleitor do candidato do PSL no curso de uma discussão política. Em Porto Alegre, uma jovem fez na própria pele uma suástica invertida para dizer que havia sido atacada e agredida por simpatizantes de Bolsonaro. Fatos e fake news se confundiram – e confundiram o eleitor — ao longo da campanha. No Ceará, a polícia investiga se a causa da morte de um vendedor de livros foi, como diz sua família, uma surra que ele teria recebido de militantes do PT.

Da cadeia, um ex-presidente fez o país refém

O Brasil conviveu meses com a farsa da candidatura de Lula à presidência da República. Mesmo com a condenação do petista por corrupção e lavagem de dinheiro e a sua consequente prisão em abril, o que o tornou inelegível pela Lei da Ficha Limpa, o PT insistiu em levar sua candidatura adiante até o último minuto, com o objetivo de transferir o máximo possível de votos ao substituto. Fernando Haddad foi ungido e a transferência de votos até ocorreu, mas não o suficiente para que ele vencesse a eleição. Talvez não tenha sido uma boa estratégia em um país em que vastos contingentes da população têm de conviver com ordens expedidas por líderes de facções criminosas que, de dentro das celas, mandam incendiar ônibus, matar e coordenam redes de tráfico de drogas. A associação não seria difícil de ser feita na mente do eleitor. No processo, Lula acabou alienando Ciro Gomes da possiblidade de comandar uma união dos partidos de esquerda, e na véspera da votação no segundo turno, o pedetista deu o troco: não anunciou voto em Haddad e ainda anunciou a disposição de ser o líder da oposição de um futuro governo Bolsonaro – inaugurando uma disputa com o PT.

A direita mostrou a cara. Ou as caras

A vitória de Jair Bolsonaro é a vitória de um candidato que nunca teve receio de se mostrar à direita do espectro político, chegando a elogiar torturadores do regime militar e a própria ditadura como forma de contrapor-se à esquerda e se destacar no Congresso. A pauta do candidato defendia valores tradicionais: família formada por homem e mulher, patriotismo, religiosidade, e combate a políticas identitárias e de benefícios a minorias que são o discurso dominante da esquerda contemporânea. Para não falar, é claro, da necessidade de combater a criminalidade que a ameaça todos os cidadão de maneira epidêmica. Bolsonaro não foi o único que assumiu ser de direita e saiu vencedor da eleição. Surfando na onda, dezenas de seguidores do militar reformado se elegeram para o Congresso. E pela primeira vez na urna, o Partido Novo, com sua pauta liberal, não fez feio para uma legenda nanica. João Amoêdo, candidato a presidente do partido, terminou o primeiro turno à frente de políticos conhecidos como Marina Silva e Álvaro Dias. Em Minas, o partido elegeu Romeu Zema governador. Quanto ao PSDB, João Doria e Eduardo aderiram a Bolsonaro. À social-democracia brasileira, restou chorar em Paris.

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  1. Ressalta-se que o vencedor foi eleito, sobremaneira, pela maioria da população esclarecida e escolarizada do pai. Seu adversário no segundo turno foi apoiado pela militância radical de esquerda, pseudointelectuais, mídia parcial, políticos corruptos, movimentos sociais que pregam a desordem, crime organizado e infelizmente pelos incautos e beneficiários de programas assistencialistas (voto de cabresto).

  2. O que ficou claro nessa campanha foi que o cidadão através das redes sociais está participando e participará de tudo que se relacionar a política daqui para a frente. As ações do Supremo em relação a Lula foram no mínimo ridículas e provocaram um estress no cidadão, aumentando a desconfiança num STF parcial, o que parece não importar aos ministros do STF. O cidadão entendeu em JB um político que estava lhes devolvendo o poder usurpado por corruptos por muito tempo. Mais políticos cairão.

  3. Eu coloquei uma bandeira verde e amarela na minha casa, coisa que eu não vi na casa de nenhum Petista, vergonha de se mostrar?

  4. O que mais me intriga é que um presidiário consiga votação, o que põe em cheque a honestidade dos tais votantes, votaram em um rabo de rato!

  5. Espera aí ( peraí)!! A briga em Salvador não teve motivação política, foi briga de bar!! Eu assisti à entrevista do acusado e foi esclarecedora! O dono do bar foi testemunha!! Cuidado aí, porque não foi discussão política!!

    1. Essa é uma das fake news nesta matéria: Foi briga de bar, não violencia politica. Segunda fake news: o disparo de fake news por whatsapp, que só a Folha viu, mas não comprovou. Cadê o dever com a verdade? Acho que tem mais.... Mais cuidado aí, caros náufragos.

    2. A Crusoé tem se mostrado descuidada com as informações que propaga. Eu também vi a entrevista e o assassino disse claro e em bom som que a briga não teve nada de política. Cuidado Crusoé com fakenews.

    1. sério!!!! que pena, gosto tanto de Paris.......mas acho que minha proxima viagem será Japão rsrsrsr

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