Não vai desenrolar
Quem renegociar em maio começa a pagar em junho. Quem renegociar em agosto começa a pagar em setembro
O governo federal lançou há alguns dias o “Desenrola Brasil 2” com um objetivo ambicioso: chegar a 42 bilhões de reais em dívidas renegociadas em 90 dias.
Na primeira semana, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o programa chegou perto de 1 bilhão de reais em débitos renegociados.
Havia cerca de 200 mil pedidos enviados aos bancos, dos quais 100 mil estariam praticamente concluídos.
Parece muito. Mas, dentro da meta oficial, é pouco.
R$ 42 bilhões em 90 dias exigem R$ 467 milhões por dia.
R$ 1 bilhão em sete dias significa algo próximo de R$ 143 milhões por dia.
O programa largou em 31% do ritmo necessário. Mantido esse passo, chegaria ao fim do prazo perto de R$ 13 bilhões.
Só que a tendência é diminuir, visto que lançamentos assim geram mais hype no início devido à intensa propaganda estatal.
A comparação com o primeiro Desenrola também reduz o brilho do anúncio.
A versão de 2023 renegociou R$ 53 bilhões em oito meses e alcançou 15 milhões de pessoas. E, pasmem, pouco mudou o quadro de Lula nas pesquisas.
Agora, a meta é quase do mesmo tamanho, em prazo muito menor, com eleição batendo à porta e famílias mais cansadas e desconfiadas.
Outubro chegará mais rápido do que o governo imagina.
A taxa máxima do novo programa é de 1,99% ao mês. Ou seja, 26,7% ao ano. Mesmo bem mais baixa que o rotativo, ainda assim é dinheiro caro para uma família já esmagada por dívida, comida, combustível, bets e aluguel.
O prazo pode chegar a 48 meses. A primeira parcela pode vencer em até 35 dias. O limite é de R$ 15 mil por pessoa em cada banco.
Aqui está o ponto político central: a renegociação gera sensação inicial de fôlego, alívio, respiro.
Depois, gera um carnê mensal duradouro. Quem renegociar em maio começa a pagar em junho. Quem renegociar em agosto começa a pagar em setembro. Outubro, mês da eleição, tende a ser mês de parcela recorrente.
O problema eleitoral vai voltar na cara do governo quando ele mais precisa. O eleitor vota com a sensação concreta daquele mês.
Nome limpo ajuda? Sim. Juros menores ajudam? Sim. Desconto ajuda. Mas a dívida continua existindo e o eleitor pensa no curto presente.
A parcela entrou no orçamento, tirou outras coisas do lugar. Menos qualidade de vida, menos poder de compra. Quando a renda já estava apertada, cada novo compromisso mensal ocupa o lugar de alguma coisa: supermercado, farmácia, escola, gasolina, gás.
A situação está crítica.
A Serasa registrou 82,8 milhões de negativados em março, recorde da série, após 15 meses de alta.
A CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) apontou, em abril, 80,9% das famílias com dívidas a vencer, também recorde, quarto mês seguido no topo histórico.
A inadimplência ficou em 29,7%. Quase metade dos atrasados tinha contas vencidas há mais de 90 dias.
O Banco Central mostrava, em fevereiro, R$ 4,5 trilhões em crédito às famílias no Sistema Financeiro Nacional e comprometimento de 29,3% da renda com dívidas.
Leva uns 3 a 4 anos, com muita boa vontade, competência e responsabilidade, para mudar de verdade esse quadro. Não é quatro meses.
Diante disso, 42 bilhões de reais representam menos de 1% do crédito das famílias. Mesmo que a meta fosse cumprida, continuaria sendo uma intervenção bem parcial sobre um problema colossal.
A família brasileira está espremida.
A inflação completa o quadro. Em março, o IPCA foi de 0,88% e acumulava 4,14% em 12 meses.
Transportes e alimentação responderam por 76% do índice. A gasolina subiu 4,59%. O diesel, 13,90%. A alimentação no domicílio avançou 1,94%, a maior alta desde abril de 2022.
Esses números podem antecipar que medidas “tecnicamente positivas” podem evaporar no cotidiano do eleitor até as urnas. O dinheiro entra por uma fresta e sai por três portas.
Foi o que aconteceu com a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais.
A pesquisa Genial Quaest de abril mostrou que 31% disseram ter sido beneficiados. Entre eles, 49% afirmaram não ter sentido diferença na renda. Apenas 17% disseram ter percebido aumento significativo.
Ou seja, um exemplo prático de que o bolso não absorveu a mudança como o governo esperava.
O Desenrola corre o mesmo risco.
O governo está tentando transformar uma operação financeira em dividendo eleitoral, mas é puro desespero.
E sejamos sinceros. Populismo eleitoral costuma funcionar melhor quando coloca dinheiro líquido no bolso ou elimina uma obrigação de forma visível.
Sim, para lucrar com populismo, o jogo é mais pesado: zerar dívidas. Auxílio, saque, bônus, antecipação, perdão total.
Renegociação tem outra natureza. Ela organiza a dor, mas distribui o peso, o passivo no calendário, justamente mais à frente, na época da eleição.
A promessa ainda tropeça na execução.
Uma das vitrines do programa era a possibilidade de usar até 20% do saldo do FGTS, ou até R$ 1 mil, o que fosse maior, para quitar total ou parcialmente dívidas. A regra aparece no desenho oficial do Novo Desenrola.
Mas, uma semana depois do lançamento, segundo o Valor Investe, esse uso ainda não estava disponível para o consumidor.
Ou seja: até o alívio prometido como reforço emergencial entrou na fila da burocracia. O programa nasceu falando em destravar. Começou sem liberar uma de suas próprias chaves, como quase tudo em um Estado lento.
Essa é toda a fragilidade política do Desenrola 2.
O governo pode plantar notinha e comemorar R$ 1 bilhão na primeira semana, mas, no fim, o Desenrola promete tirar o nó do CPF, enquanto deixa intacto o nó da vida real.
O rolo em que o Brasil está metido continua.
Roberto Reis é estrategista eleitoral
X: @RobertoReis
Instagram: robertor.eis
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