Como virar o jogo do comércio internacional
Chegou o momento de deixarmos de exportar apenas o couro da bola para entregar a tecnologia que vai dentro dela
Há uma regra essencial que une a geopolítica dos gramados e a diplomacia corporativa: o desenho tático dita os rumos antes do primeiro apito do juiz.
Na Copa do Mundo de 2026, o cruzamento das chaves faz mais do que definir adversários esportivos, expõe as feridas históricas da nossa inserção econômica.
Em minha trajetória profissional, liderando missões comerciais dentro e fora do ambiente governamental, sempre encarei o comércio exterior com o mesmo rigor de um esquema de jogo, convicto de que o passaporte para a vitória, nos campos ou nos negócios, reside na estratégia.
Ao observar as nações no torneio, percebe-se que o Brasil repete uma "retranca estratégica", exportando biomassa primária de baixo custo e comprando inteligência manufaturada.
Retranca brasileira
A soberania econômica não se mede em toneladas despachadas, mas no controle dos canais de distribuição e no valor percebido pelo consumidor estrangeiro. Esse diagnóstico ganha força frente a gigantes como Estados Unidos e Alemanha.
Nos EUA, mesmo com vendas em 37 bilhões de dólares sob novas barreiras, o déficit atingiu 7,5 bilhões de dólares pela dependência de manufaturados complexos.
No embate com a Alemanha, que fornece 14 bilhões de dólares em importações ao país, o cenário repete nossa vulnerabilidade: enviamos café cru e soja, enquanto importamos maquinários pesados, reatores e insumos farmacêuticos. Seja contra a maior economia das Américas ou contra o motor industrial europeu, o Brasil atua na posição passiva de fornecedor de insumos básicos.
O paradoxo de Marrocos
Esse fenômeno se replica na relação com nosso primeiro adversário no torneio, o Marrocos.
Os dados revelam equilíbrio na corrente de 2,8 bilhões de dólares, divididos em exatos 1,39 bilhão de dólares de cada lado. Parece que o empate dentro de campo se aplica também no volume de comércio.
A análise qualitativa, contudo, desmascara esse empate: o Brasil entrega açúcar e melaços (66% dos envios) para receber fertilizantes (84% das importações).
Exportamos a caloria barata e importamos o insumo tecnológico que sustenta nossa terra, permitindo que a infraestrutura deles, ancorada no hub de Tanger Med, opere como a mente logística que dita as margens de lucro para o Norte da África e o Oriente Médio.
O confronto com os gigantes industriais
Quando migramos para o grupo A desta Copa do Mundo, o cenário de assimetria tecnológica ganha contornos ainda mais dramáticos, agora frente ao México e à Coreia do Sul.
Diante de uma corrente comercial de 10,8 bilhões de dólares, o Brasil vende para os coreanos óleos brutos de petróleo (32,6% das exportações) para alimentar os motores de Seul.
Em contrapartida, absorvemos eletrônicos, chips e circuitos integrados sofisticados, que superam 20% da pauta. Enquanto eles convertem sua identidade em marca global de valor intangível através do K-Beauty, o ecossistema brasileiro observa passivamente esse avanço sem conseguir contra-atacar com uma marca própria baseada na nossa biodiversidade.
No intercâmbio com o México, cujo PIB atinge 1,85 trilhão de dólares, a corrente bilateral de 13,6 bilhões de dólares é ancorada no setor automotivo controlado por matrizes estrangeiras.
No varejo mexicano, os números murcham: exportamos apenas 16,8 milhões de dólares em móveis, nicho dominado por outros blocos. O mesmo ocorre com a Tchéquia, operando em uma corrente de 1,0 bilhão de dólares, disputamos espaço na sétima economia mais complexa do mundo com insumos mecânicos, sem relevância em bens premium.
Frente à África do Sul, com quem movimentamos 2,2 bilhões de dólares nos BRICS, ficamos restritos ao envio de aves e petróleo bruto, deixando de explorar a união aduaneira da SACU para distribuir alimentos industrializados com marca nacional.
A sinergia oculta
A sinergia oculta nesses cenários reside no fato de que o mercado internacional está ávido por ativos ligados à sustentabilidade e saudabilidade.
Cosmética natural de biodiversidade e alimentos funcionais de alto padrão são verticais contemporâneas que movimentam bilhões. No entanto, o cacau brasileiro ainda vira chocolate premium estrangeiro e os óleos essenciais de biomas nacionais retornam em frascos de luxo sem menção à nossa origem.
Vendemos o ingrediente a granel e compramos a marca estruturada, a propriedade intelectual e o design de embalagem. Esse é o jogo comercial de alto nível que a diplomacia corporativa brasileira precisa passar a disputar.
O próximo movimento
Para virar esse placar histórico e atingir a soberania econômica, o Brasil precisa mudar sua postura tática, abandonando a retranca protecionista.
O caminho exige ação coordenada entre os setores público e privado na diplomacia corporativa, escalando pequenas e médias empresas para o varejo internacional por meio de hubs mundiais estruturados.
O caminho é deixamos de ser apenas eterno fornecedor de matéria-prima para as indústrias alheias e passarmos a vender produtos de valor agregado.
Chegou o momento de deixarmos de exportar apenas o couro da bola para entregar a tecnologia que vai dentro dela, enxergando o futebol não apenas como entretenimento, mas como um ecossistema que respira inovação. Este certamente é o caminho para a vitória.
Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia
X: @mcoimbra
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