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Edição Semana 335

Um palco para a enganação

Theatro Municipal de São Paulo engana o público com dinheiro público

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Josias Teófilo
4 minutos de leitura 04.10.2024 03:30 comentários 3
Um palco para a enganação
Nabucco, de Verdi, no Theatro Municipal. Foto: Divulgação
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Já há três meses estavam esgotados os ingressos no Theatro Municipal de São Paulo para a ópera Nabucco, de Giuseppe Verdi. Mas quem foi ver a ópera encontrou algo diferente do anunciado.

De cara, chama atenção o “cenário”, com um grande espelho móvel que de início reflete o maestro no fosso da orquestra, e um grande tecido drapeado que é incorporado ao vestido da protagonista ao centro de um tablado de madeira.

O espelho se divide em partes, e se move durante todo o espetáculo. Também serve como tela de projeção, onde filmagens feitas ao vivo são reproduzidas – closes dos protagonistas cantando, múltiplas imagens sobrepostas, e até imagens feitas pelos cantores segurando a câmera enquanto cantam (o que é algo bem esquisito, para dizer o mínimo).

Tantos elementos precisavam ser harmonizados em função do enredo da ópera. Só que isso não aconteceu. Na verdade, a montagem é altamente dispersiva: vemos, por vezes, no palco ao mesmo tempo, o coro, os cantores, a projeção da imagem dos cantores, o reflexo do coro no espelho – é informação demais para assimilar, informação que não tem função dramática.

Mas o pior ainda está por vir: a diretora Christiane Jatahy cortou cenas inteiras da ópera, como a cena da aliança de Zaccaria com Nabucco, todo o trecho inicial da primeira parte do terceiro ato, e ainda fez acréscimos: uma peça musical não composta por Verdi foi acrescentada ao final, escrita recentemente por Antonino Fogliani. No final, foi acrescentado também uma repetição do famoso coro “Va’, pensiero” a capela, com o coro posicionado na plateia.

Todas essas alterações tem uma função clara: a politização do enredo da ópera e tentativa de atualização para os dias atuais. O que, aliás, é uma tentativa fadada ao fracasso: trazer a história do rei Nabucodonosor II da Babilônia para o ano de 2024 não tinha a menor chance de dar certo.

O coro estava vestido com roupa atual, pareciam ter entrado no teatro com a mesma roupa que vieram do metrô, e o enfoque racial e identitário se revelava a todo momento, nos closes e na falas, chegando ao ponto de um integrante do coro gritar “Palestina livre”.

No camarote ao lado do meu, especificamente o camarote da Prefeitura de São Paulo, uma mulher não parava de falar. Pedi silêncio várias vezes. Depois notei: era a diretora da ópera, Christiane Jatahy, que aparentemente não respeita nem o próprio trabalho. Na música lírica não há amplificação do som, é tudo acústico. E os cantores e músicos estão distante do público, no palco. Qualquer barulho atrapalha. Se a produção do teatro não der o exemplo, imagina o barulho que não podem fazer os 1.523 espectadores que cabem naquele lugar. E com efeito, a plateia estava mais barulhenta do que o normal, uma mulher abriu uma latinha de coca-cola no meio de uma ária, outras pessoas falavam, e ainda tinha o entra-e-sai no camarote da prefeitura.

Não é à toa que ao final da ópera (no dia que fui) parte do público vaiou, e outra parte do público aplaudiu sem entusiasmo – o que não corresponde a uma ópera que estava com ingressos esgotados há três meses (com ingressos que custam até 200 reais). É que as pessoas foram ver a obra de Giuseppe Verdi, e não a peça mutilada e pessimamente dirigida por Christiane Jatahy, que usa do espaço prestigiado do teatro para fazer militância política identitária.

Infelizmente, esse caso não é isolado na atual gestão do Theatro Municipal, esse tem sido o procedimento padrão nas montagens: desde a vergonhosa e também alterada versão de O Guarani, de Carlos Gomes. Acontece que o teatro não se dá nem ao trabalho de informar que é uma versão alterada da ópera, no site está escrito apenas: “Ópera em quatro atos de Giuseppe Verdi, com libreto de Temistocle Solera”, o mesmo em relação ao Guarani. Se informasse, o público seria consideravelmente menor.

O Theatro Municipal de São Paulo tem usado dinheiro público para enganar o público – o objetivo é apenas sustentar uma agenda política identitária. E não é pouco dinheiro: a Fundação Theatro Municipal de São Paulo recebeu da Prefeitura em 2024 146 milhões de reais.

Josias Teófilo é escritor, fotógrafo e cineasta

As opiniões emitidas pelos colunistas não necessariamente refletem as de O Antagonista e Crusoé

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Josias Teófilo

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Comentários (3)

Carlos Renato Cardoso Da Costa

2024-10-07 17:46:59

A adaptação de obras clássicas para "audiências modernas" é, na verdade a audiência de 1, o autor militante. Tal como muito bem dito, se houvesse honestidade no anúncio do conteúdo da ópera, no teatro estariam os artistas, a autora idiota, meia dúzia de bocós e moscas a valer.


Luis

2024-10-05 08:36:36

Imensa falta de respeito


Marcelo Tolaine Paffetti

2024-10-04 16:58:03

Que b... kkkkk


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Carlos Renato Cardoso Da Costa

2024-10-07 17:46:59

A adaptação de obras clássicas para "audiências modernas" é, na verdade a audiência de 1, o autor militante. Tal como muito bem dito, se houvesse honestidade no anúncio do conteúdo da ópera, no teatro estariam os artistas, a autora idiota, meia dúzia de bocós e moscas a valer.


Luis

2024-10-05 08:36:36

Imensa falta de respeito


Marcelo Tolaine Paffetti

2024-10-04 16:58:03

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