ReproduçãoBiden com operários em fábrica de caminhões: plano prevê 2 milhões de empregos

Biden abre o cofre

Com um pacote de 1 trilhão de dólares, os Estados Unidos apostam na expansão da economia no pós-pandemia. Como isso pode ajudar o Brasil?
06.08.21

O Senado americano deve aprovar nos próximos dias um pacote de 1,2 trilhão de dólares para investimentos em infraestrutura. Proposto pelo presidente Joe Biden com frases superlativas como “realizar o maior investimento federal no transporte público até agora”, o programa inclui gastos em estradas, pontes, portos, aeroportos, trens, ônibus, túneis, estações de carga para carros elétricos, sistemas de transmissão de energia, redes de saneamento básico e internet de banda larga para áreas rurais. Sua versão final, elaborada por democratas e republicanos, soma 2.702 páginas. Segundo estimativas da Casa Branca, cerca de 2 milhões de empregos serão gerados. Para economistas, no entanto, o grande mérito do plano será melhorar a produtividade da economia americana no longo prazo.

A inspiração de Joe Biden é o ex-presidente Franklin Delano Roosevelt (1882-1945). Com o plano New Deal, influenciado pela teoria do britânico John Maynard Keynes, Roosevelt ergueu a economia após um tombo de 40% no PIB e de taxas de desemprego que chegaram a 20%, causados pela crise de 1929. Assim como Roosevelt, Biden compartilha a ideia de que o investimento público deve ser o motor da economia. As cifras são astronômicas. Em março, o presidente aprovou um pacote de estímulo de 1,9 trilhão de dólares, que incluía transferência de renda e seguro-desemprego. O atual plano de infraestrutura foi calculado inicialmente em 2,7 trilhões, para depois ficar em 1,2 trilhão. Biden pretende aprovar ainda outro pacote, de 3,5 bilhões, para o que chama de “infraestrutura humana”, com gastos em creches, escolas e programas de saúde.

O que mais aproxima o plano de Biden do keynesianismo de Roosevelt é sua ênfase na criação de “empregos bem-remunerados, sindicalizados”. Democrata das antigas e nascido em Scranton, na Pensilvânia, uma cidade conhecida por suas minas, indústrias e sindicatos, o presidente americano quer reaproximar seu partido dos trabalhadores organizados — os mesmos que votaram no republicano Donald Trump, em 2016. O lançamento de seu programa de recuperação econômica, inicialmente batizado de Plano de Emprego Americano, foi feito no Centro de Capacitação para Carpinteiros em Pittsburgh, também na Pensilvânia, para uma plateia de trabalhadores organizados em sindicatos.Essa é uma visão que não se vê de Wall Street ou de Washington, mas através dos olhos das pessoas que trabalham duro, como as pessoas com as quais eu cresci, trabalhadores sindicalizados como os do Centro de Capacitação para Carpinteiros”, disse Biden. “Meu Plano de Emprego Americano colocará centenas de milhares de pessoas para trabalhar.”

O presidente em centro de capacitação para encanadores
O enfoque de Biden na geração de empregos, contudo, não é o que os economistas mais destacam. Até porque, com o PIB dos Estados Unidos crescendo 6,5% este ano, o desemprego que hoje está na casa de 6% entrará em tendência de queda. Os Estados Unidos estão em uma situação bem melhor daquela que encontrou Roosevelt nos anos 1930. Segundo o governo federal, a recessão causada pela Covid-19 acabou em maio do ano passado. Já estamos em recuperação econômica e a queda do PIB já foi compensada”, diz o economista Michael Walden, professor da Universidade Estadual da Carolina do Norte. “Mesmo que nada seja feito, o país chegará perto do pleno emprego no ano que vem, com desemprego entre 3,5% e 4%.

O principal resultado do plano de Biden será melhorar a infraestrutura que proporciona a circulação de produtos, pessoas e serviços. O país tem sido descuidado nessa área, segundo um relatório anual da Sociedade Americana de Engenheiros Civis. A cada dois minutos, um grande duto de água é rompido. Cerca de 43% das estradas estão em condição ruim ou medíocre. Entre as pontes, 7,5% apresentam problemas estruturais. Uma em cada cinco crianças não tem acesso à internet de banda larga.

Entre as críticas mais frequentes ao plano está seu possível impacto na inflação americana. Sempre que um governo gasta demais, os preços sobem. O índice atual está em 5,4% ao ano, mais do que o dobro da inflação das últimas duas décadas. Mas existe a desconfiança de que muito do aumento dos preços esteja mais ligado à dificuldade na oferta de produtos, causada pelas interrupções na cadeia produtiva, em decorrência da pandemia de Covid. A situação, assim, tenderia a se normalizar em breve. Biden e diversos economistas argumentam, ainda, que o plano de infraestrutura poderia na realidade ajudar a diminuir a inflação. “Sempre que a economia se torna mais produtiva, capaz de gerar mais riqueza com menos custos, isso contribuiu para manter os preços baixos”, diz o economista Michael Walden.

No longo prazo, espera-se que esse ganho de produtividade geral ajude a encher os cofres do governo por meio da arrecadação de impostos. “Sabemos que o investimento público deixa todos os setores mais produtivos, o que aumenta os incentivos para que as pessoas trabalhem mais”, diz o economista Jonathan Huntley, que traça cenários para a economia americana de Wharton, a escola de negócios da Universidade da Pensilvânia. No plano de infraestrutura que está sendo discutido, o aumento na arrecadação tributária no futuro é que financiará o investimento dos próximos meses. Não será necessário, portanto, aumentar os impostos corporativos, como se estudava anteriormente.

DivulgaçãoDivulgaçãoO setor ferroviário também será beneficiado pelo plano americano
O keynesianismo de Biden poderá repercutir de diversas maneiras no Brasil. Caso a inflação aumente além do esperado por causa da gastança federal, isso levaria o Banco Central americano, o Fed, a elevar a taxa básica de juros. Uma medida assim atrairia para os Estados Unidos os investidores que hoje estão em países emergentes. A saída do capital especulativo do Brasil teria um impacto no câmbio e poderia levar o Copom a elevar os juros ainda mais para evitar uma debandada. É um cenário pouco provável, mas possível.

Por outro lado, há possíveis consequências positivas. A mais evidente é que as empresas privadas que irão levar adiante as milhares de obras terão de comprar aço, petróleo, produtos químicos e cimento, o que em grande parte terá de ser importado. A geração de empregos e o aumento da renda também devem elevar a demanda por carnes e grãos. O Brasil tem condições de fornecer para o mercado americano vários desses itens, o que pode ampliar o superávit nas contas externas e animar a Bolsa de Valores. Empresas brasileiras que exportam commodities, como Gerdau, CSN, Usiminas e Vale, já se beneficiam da expectativa gerada pelo possível boom americano.

O Brasil também poderia se beneficiar se seguisse o exemplo dos Estados Unidos, levando adiante um plano ambicioso de infraestrutura. A perspectiva de que algo assim ocorra por aqui não existe, contudo, por dois motivos. Primeiro, por falta de dinheiro – neste momento, embora esteja com os cofres escancarados para os aliados no Congresso, o governo planeja até uma espécie de calote nos seus credores, ao retardar o pagamento de precatórios. No ano passado, as contas do setor público brasileiro tiveram um déficit primário de 9,3% do PIB. Foi o sétimo ano seguido no vermelho. O segundo motivo a impedir que algo ao menos parecido com o plano de Biden seja repetido por aqui é que não há visão política grandiosal.Enquanto o presidente Jair Bolsonaro estiver só preocupado em gastar com o Bolsa Família com fins eleitorais, será muito difícil ter investimentos para deixar a economia brasileira mais produtiva”, diz o economista Simão Silber, professor da USP e da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, a Fipe. Para não falar, é claro, dos apetites fisiológicos da base parlamentar que o sustenta.

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  1. Reportagem “chapa branca”. Já li várias críticas ao plano de Biden: fico com as crítica (em resumo: é ruim, gera incentivos ruins e não dará certo). No mais, aqui não haveria qq “plano” de mega investimentos MESMO se aparecesse dinheiro do nada: a burocracia “atrasa” tudo e não há mão de obra, fornecedores, produção de matéria-prima, etc. em quantidade suficiente para um plano de tamanha envergadura. Um plano desse aqui teria de ser de longuíssimo prazo: 10 anos no “canteiro total de obras”...

    1. E isso se a burocracia deixar... Belo Monte levou 30 anos para começar a ser construída..

    2. “10 anos para atingir ‘o canteiro total de obras’ (a “força total do plano”)”. Do contrário, vai até importar areia..

  2. Biden tem cultura, quilometragem rodando por diversos cargos públicos e aprendendo com a vida. Diferente do imbecil q nos governa, ignorante, desinformado, desumano, corrupto. Não tem formação. Não temperou seu caráter trabalhando duro, p/ valer. É do baixo clero e da baixa moral. Precisamos nos livrar dele o mais breve possível. Quando Bolsonaro pensou em gerar empregos, lutar pela melhora da educação e da saúde? Aliás, quando Bolsonaro pensou em algo positivo p/ o Brasil? Quando ele pensou?

  3. O império americano está (ainda) tão bem fundeado que os gastos enormes do gov federal com a pandemia e agora com esse plano econômico do Biden, com incremento enorme no défice e dívida pública, não desestabiliza o dólar, o verdadeiro sustentáculo desse mesmo império.

  4. O Brasil poderia se beneficiar reduzindo o tamanho do Estado, privatizando, cortando gorduras e fazendo reformas tributária, política e administrativa decentes, em vez de meter a pata sempre pesada e a goela sempre insaciável na economia.

  5. O problema desse tipo de estímulo, é o resultado de longo prazo: aumento da participação do estado na economia e a dificuldade de percepção dos custos de oportunidade do investimento privado. Isso aconteceu no pós guerra e acontecerá de novo.

  6. A boa perspectiva da economia americana é um bom sinal para o Brasil. O problema é que estes bons ventos podem soprar quando Lula ou Bolsonaro estiverem no poder e em qualquer um dos casos... é muito ruim para nós.

  7. Triste Brasil! Aqui nos Estados Unidos,na Flórida onde estou, as escolas são de qualidade, a segurança não é preocupação, as rodovias são ótimas, a cidade está sempre ampliando estradas e viadutos… muito diferente do Brasil, infelizmente!…

  8. Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” O Brasil finalmente terá Um Governo Fundado no “IMPÉRIO DA LEI!” Não seremos LUDIBRIADOS com o “Velho Truque de MELHORAS na ECONOMIA!” Triunfaremos! Sir Claiton

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