Adriano Machado/Crusoé

Em busca da identidade profunda

A advogada Karina Kufa ganhou de Jair Bolsonaro a missão de organizar o desembarque do presidente do PSL e de estruturar a criação do partido Aliança pelo Brasil. Ela diz que o objetivo é formar uma agremiação que seja "verdadeiramente de direita"
15.11.19

O primeiro contato pessoal de Karina Kufa com Jair Bolsonaro foi em agosto de 2018, em São Paulo, na convenção do PRTB que confirmou Hamilton Mourão como candidato a vice-presidente. Naquele dia, a advogada, que trabalhava para o partido de Mourão, pediu para tirar uma foto com o então candidato a presidente. Ela já tinha ajudado o diretório paulista do PSL a resolver imbróglios jurídicos que poderiam ter impedido a legenda de disputar as eleições daquele ano no estado. Depois de aproximar-se Eduardo Bolsonaro, o filho 03, aos poucos ela foi ganhando a confiança da família inteira. Não demorou para que passasse atuar inclusive nos processos que envolviam a campanha presidencial. Passadas as eleições, Karina Kufa foi promovida: ganhou o posto de advogada do próprio Bolsonaro para assuntos eleitorais.

Nos últimos meses, ela recebeu a incumbência de auxiliar o presidente em seu processo de desfiliação do PSL. Em paralelo, ganhou a tarefa de trabalhar na criação, do zero, de um novo partido, batizado de Aliança para o Brasil. Na última terça-feira, 12, estava ao lado de Bolsonaro na reunião em que ele anunciou oficialmente a deputados federais aliados que deixaria a sigla pela qual se elegeu e embarcaria em outro projeto, decisão antecipada na véspera pelo Diário de Crusoé. Na entrevista a seguir, Karina Kufa conta detalhes do conturbado processo que levou Bolsonaro a abandonar o PSL, revela a estratégia para obter as 500 mil assinaturas necessárias e diz que a ideia é criar um partido verdadeiramente de direita, diferente de todos os que existem hoje.

O presidente Jair Bolsonaro conseguirá criar o partido a tempo de a legenda participar das eleições municipais de 2022?
Esse na verdade é um objetivo que temos: o de criar esse partido em tempo recorde. Ninguém está sonhando aqui. Estamos trabalhando com bases sólidas. E um exemplo que a gente tem é a criação do PSD, que foi defendida na época pelo (ex-ministro do TSE) Admar Gonzaga, que hoje também faz parte da equipe jurídica de formação do Aliança. Com o presidente Bolsonaro, com a popularidade dele, acredito que a gente vai conseguir num tempo muito menor. Vai depender simplesmente de organização.

Qual é o maior desafio nesse processo de registro do novo partido?
Eu não falaria em desafio. Falaria em realização. Está sendo muito estimulante fazer parte de um projeto importante, que é a criação de um partido que vai defender os ideais hoje pautados pelo presidente Bolsonaro, trabalhar essas bases da direita. É um partido que vai ser verdadeiramente de direita, porque hoje até os de direita são considerados mais de centro-direita.

A coleta das 500 mil assinaturas vai ser possível?
Não vejo dificuldade. Apesar de serem 500 mil assinaturas em nove estados, se a gente levantar a proporção das assinaturas, tem estado que com menos de 300 assinaturas já cumpre a meta. A maioria é mil e poucas (assinaturas). Então, se a gente conseguir mil e poucas em sete, oito estados e concentrar os esforços, por exemplo, em São Paulo ou no Rio de Janeiro, a gente conseguirá bater essas assinaturas.

Não é um contrassenso a dita “nova política” criar mais um partido em um país que já tem 35 partidos?
De forma alguma. Acho que o problema não é quantidade de partidos. O problema é a falta de identidade dos partidos. Hoje, se você for ver, qual partido representa a direita? O DEM tinha esse propósito, mas hoje talvez seja um partido mais de centro-direita. Não vejo problema em ser mais um, em ser um partido diferente, trazer uma ideologia que não existe. O problema não está na criação de mais partidos, na quantidade de partidos, mas na qualidade. E essa é a proposta.

Por que foi descartada a ideia de o presidente migrar para um partido já existente ou outro já em processo de registro?
Partido já formado a gente avaliou que acabaria não tendo uma identidade profunda. Não tem um partido hoje que representa essencialmente a direita. E, se fosse para ir para qualquer partido hoje existente, a gente ia esbarrar nesse problema. Seria trocar seis por meia dúzia. A gente também fez um levantamento dos partidos que estavam em formação, e a maioria não tinha condições de prosperar. Então, seria muito mais fácil criar um do zero do que pegar um já com pessoas, com grupos e também com deficiências na coleta de assinaturas. Apareceu um partido com 150 mil assinaturas. Mas essas 150 mil assinaturas já têm mais de dois anos. Então, teria a discussão se aquelas assinaturas estariam válidas ou não.

Adriano Machado/CrusoéAdriano Machado/Crusoé“A gente evita atender pessoas que vão no escritório para tratar de temas do governo”
Quanto ao PSL, a sra. e o próprio presidente disseram que havia suspeitas de irregularidades. Também foi dito que seria preciso adotar um processo de compliance. O que havia de mais grave?
Posso não responder? Prefiro não falar de PSL. Não vou falar de suspeitas, mas uma insatisfação grande foi a questão de tentar transformar o PSL num partido de direita, que atendesse (aos requisitos de) uma boa gestão. Quanto ao compliance, até na sua casa tem que ter compliance. Você tem que tomar cuidado com tudo que você faz, ter regras de boa gestão. Teve uma eleição em que 70% dos votantes não apareceram, mas outras pessoas apareceram com procurações para votar em nome dessas pessoas. É inadmissível o presidente da República ficar num partido em que ele não pode nem saber quanto tem na conta bancária. Nunca foi apresentado um extrato, nunca deram uma satisfação porque contratava “A”, porque contratava “B”. Teve uma resistência de meses para dar essa transparência. Basicamente, foi isso.

O presidente do PSL, Luciano Bivar, diz que a sra. chegou a sugerir a contratação de uma empresa de compliance por 2 milhões de reais.
Mentira. Completa mentira. A princípio, sugeri compliance, porque hoje eu presido a comissão da OAB nacional de compliance eleitoral-partidário. Eu acredito muito que esse é um mecanismo para tornar a administração pública e as empresas privadas também mais éticas, não propensas à corrupção. Então, reputo isso como importante, e o presidente Jair Bolsonaro também entende assim.

Tendo conhecido de perto uma estrutura partidária, que problemas enxerga no modelo brasileiro?
Acho que teria algumas formas de mudar no sistema partidário criando regras simples. O TSE já tentou, por diversas vezes, implementar a obrigatoriedade de diretórios no lugar de comissões provisórias. Porque a comissão provisória é precária, traz aquela instabilidade para quem está fazendo um bom trabalho. Acho que é importante trabalhar com diretórios permanentes. Esse seria um ponto. Poderíamos também pensar em mudar o sistema para que os diretórios municipais tivessem uma gerência na formação dos estaduais e os estaduais, na executiva nacional. Começar um processo de baixo para cima. Outro problema: os partidos nacionais geralmente concentram os recursos públicos na executiva nacional. Se os partidos desconcentrassem os recursos, passando para os diretórios estaduais um porcentual maior, e isso sempre foi defendido pelo presidente Bolsonaro, isso tornaria a administração melhor.

O que mudou na sua vida depois de virar advogada do presidente da República?
Acho que não mudou muito, não. Sempre tive uma vida corrida, sempre fui de trabalhar muito. É meu perfil, eu gosto de trabalhar. O trabalho para mim nunca foi obrigação. Exposição eu sempre tive, mesmo antes de trabalhar para o presidente. Tinha semana em que eu dava cinco entrevistas. Mas, na época, como professora. Agora, as entrevistas são essas: sobre o presidente, sobre o partido.

A sra. também passou a ser alvo de críticas, algumas até de cunho pessoal, por parte de parlamentares do PSL ligados a Bivar.
Isso me torna mais forte porque tento buscar sempre um perfil técnico. Estou aqui para ser advogada, não sou política nem pretendo ser. Mas quanto a essas ofensas, como não são verdadeiras, simplesmente não me importo. E elas me tornam mais fortes. Se eu for dar atenção a tudo que falam e pensam de mim, não vivo. Então, como trabalho muito e tenho uma vida ocupada, a vida segue e  tenho mais a fazer do que ficar dando ouvidos para parlamentares que não estejam satisfeitos com qualquer coisa.

Adriano Machado/CrusoéAdriano Machado/Crusoé“É inadmissível o presidente da República ficar num partido em que ele não pode nem saber quanto tem na conta bancária”
A sra. acaba de inaugurar um escritório em Brasília. A ligação com Jair Bolsonaro ajuda a abrir portas ou atrapalha?
As duas coisas. A gente tem regras dentro do escritório para evitar atender qualquer cliente. A gente evita atender pessoas que vão no escritório para tratar de temas do governo, porque isso não me interessa.

Existem pessoas que vão ao seu escritório para tentar resolver assuntos do governo? Pode citar exemplos?
Tem, mas a gente tem uma gerente lá que bloqueia tudo. O telefone fixo é público, está lá no site, então todo tipo de gente liga. Tivemos que criar regras mais precisas, mais blindagem na questão de atendimento de clientes.

Ajudou a abrir portas nos tribunais de Brasília?
Sempre fui respeitada nos tribunais. Claro que, antes, mais no TRE, no TJ em São Paulo, porque era lá minha atuação. No TSE eu já conhecia alguns ministros, já tenho uma atuação boa e, querendo ou não, o TSE tem ministros do STJ ou do STF. Hoje eu sou vista como uma cidadã brasiliense, como uma pessoa do meio. Talvez isso aproxime mais. Mas não acho que venha a fazer tanta diferença. Para mim a vida continua normal, só mais cautelosa.

A sra. se definia como militante feminista. Como foi aceitar advogar para um presidente que é acusado de machismo pelos adversários?
Ele não é machista. Não enxergo ele como machista e, convivendo com ele, posso afirmar isso com total tranquilidade, porque ele é uma pessoa extremamente respeitadora. E ele acaba dando oportunidade para as pessoas não em decorrência do sexo, mas em decorrência da competência. Eu não sofri nenhuma discriminação por parte dele ou de qualquer membro da família por ser mulher. Ele não é o que foi apresentado na campanha. Lembro, na época da campanha, que via aqueles vídeos da propaganda eleitoral, principalmente do (Geraldo) Alckmin (ex-governador paulista e candidato do PSDB à Presidência da República em 2018), que era quem batia mais, e dizia: gente, que absurdo, ele não é assim. Mas, quando ele me chamou, fiquei preocupada com a questão mesmo da minha identidade como feminista. Fiquei realmente preocupada. Mas depois, conversando com amigos, conversando em casa, onde todos são eleitores do Bolsonaro, vi que era um desafio profissional interessante e que eu deveria aceitar. Aceitei e vi que foi a melhor coisa que fiz porque eu estava errada em relação ao que dizem dele. E foi uma grande oportunidade profissional, porque, de fato, trabalhar para o presidente da República é um privilégio que não é para todo mundo. É muito gratificante ser advogada do presidente.

A sra. ainda se declara feminista?
Eu continuo me declarando feminista. Se as pessoas querem dar outro nome, que deem. Mas continuo defendendo as mesmas pautas, como a defesa das mulheres no mercado de trabalho, que é desproporcional. As mulheres têm uma maior dificuldade, por conta de preconceitos da sociedade, de alcançar altos postos. Fui uma das pioneiras, na área jurídica, a defender a maior participação da mulher na política. E tem ainda a questão da violência contra a mulher, tanto dentro de casa como no ambiente público. O homem sai e a preocupação dele é com a carteira. A mulher, além da bolsa, tem a preocupação de não ser estuprada. A violência contra a mulher, tanto dentro de casa quanto nas ruas, é um foco que acho importante para mim e também para o governo.

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  1. Até para criar um partido político o Bolsonaro se inspira na trágica ditadura militar. Quem se lembra do engodo que foi a tal da Aliança para o Progresso entre os EUA e os países da América Latina, incluindo o Brasil?

    1. José Carlos Lins Calma aí Marcone, acho que vc está misturando as coisas. A Aliança para o Progresso foi uma tentativa dos EUA de aumentar sua hegemonia na América do Sul e que não prosperou apesar sua ajuda ter sido muito bem vinda. Não cabe aqui ficar comentando isso só porque talvez não goste dos americanos. A ALIANÇA PARA O BRASIL (acho que deveria ser PELO BRASIL) e bem vinda sim porque o nome da legenda implica TUDO PELO BRASIL.

  2. Parabéns, Cruzoé! Parabéns Gadelha! Excelente e esclarecedora matéria sobre o novo partido do presidente.

  3. as pessoas brilhantes tem luz própria e ela na entrevista mostra bem isso. E mais uma vez confirma que o Presidente Bolsonaro sabe escolher bem seus assessores e por isso se mostra competente.

  4. Um novo partido para dizer „meu“. No Brasil não tem partido, tem „donos de partidos“. Candidaturas no Brasil poderiam ser avulsas, haveria menos promiscuidade.

    1. Maria, o próprio presidente já falou sobre candidaturas avulsas, inclusive citando a situação dele na busca por sua candidatura em 2018.

  5. Parabéns advogada Karina, por sua posição em defesa da mulher, pela entrevista, sem ódio ao homem, pois os atos errados entre homens e mulheres e, vice versa, já ocorrem em significativo números de pessoas! Também, pela desmitificação de algumas nódoas em relação ao presidente Bolsonaro, tanto pela baixeza da política, como por algumas declarações infelizes dele próprio!

  6. Agora o partido será criado e vai dar certo, porque contrataram uma mulher competente pra trabalhar. Ainda bem que não escolheram um político safado e ladrão.

  7. Muito boa reportagem, parabéns a Cruzoé e parabéns a doutora Karina Muda, boa sorte a ela em seu trabalho de levar avante o novo partido do presidente e que o sucesso do processo se já o caminho para o sucesso do Brasil!

    1. Acho que deve ser ser vc, pq a fonte que paga os outros não deve?

  8. A reinvenção e inovação do Presidente Bolsonaro é incessante. Sua luta contra a corrupção e todos os sistemas cartorais do Brasil é constante. Este esforço para a criação de um novo partido político tem a intensão de funcionar de forma diferente de como são os partidos no país. Penso que precisa ter uma DOUTRINA DECLARADA embasada nos princípios republicanos, democráticos e de direita. Compliances em todos os atributos deve ser mandatório, não somente no financeiro. Boa sorte!

    1. Otima entrevista. Agora, convenhamos, a Crusoé da uma materia de capa a este ladrão este delinqüente, psicopata que se não se dispõe a fazer uma auto critica!!! São piores que o ditador da Venezuela.

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