O presidente Lula e o ministro da Fazenda Fernando HaddadLula e Haddad: o "favorito" do presidente foi desmoralizado - Foto: Reprodução

E agora, querido?

Fernando Haddad paga o preço da submissão a Lula ao ver sua defesa do déficit zero desacreditada
02.11.23

No dia 27 de outubro, durante um café da manhã com jornalistas amigos, Lula passou uma rasteira em Fernando Haddad. Do nada, ele avisou que o governo não vai zerar o déficit público em 2024, ao contrário do que vinha afirmando há meses o seu ministro da Fazenda – e ao contrário do que está previsto no arcabouço fiscal.

Depois de um fim de semana em silêncio, Haddad convocou uma coletiva de imprensa na segunda-feira, 30. Fazendo força para demonstrar que tudo está sob controle, ele insistiu que o propósito de controlar as contas públicas não foi abandonado. Mas chamou a meta fiscal de “sua”, o tipo de deslize verbal que Sigmund Freud adoraria analisar. Assim como em janeiro deste ano, quando mandou um jornalista “se informar melhor”, Haddad também perdeu a fleuma durante a sessão de perguntas e respostas, disparando um “querida, vai fazer seu trabalho” para uma repórter, seguido de um “querido, se você quiser me entender, bem, se não quiser me entender, bem”, para outro jornalista.

Desautorizado, irritado e sem ter o que mostrar após dez meses à frente do Ministério da Fazenda, Haddad precisará encontrar uma estratégia de desembarque da meta fiscal que preserve o pouco que lhe restou de capital político. Entre traições internas e a crescente dificuldade com o Congresso Nacional, em razão das frequentes quebras de acordo promovidas por Lula, o “favorito” do presidente está encurralado. A tal ponto que seu principal aliado, neste momento, é o presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), segundo apurou Crusoé. Na terça-feira, durante reunião com Lula, Lira alertou sobre as insatisfações do Congresso com emissários do governo, mas poupou o ministro da Fazenda.

Em Brasília, no mercado financeiro e em outros setores da economia, ninguém achava que a ideia de zerar o déficit sobreviveria por muito mais tempo. Em agosto, mais de cem economistas ouvidos pelo boletim Focus, do Banco Central, já haviam deixado evidente essa expectativa. Em setembro, o deputado Danilo Forte (União-CE), relator do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias, o PLDO, alertara publicamente o Planalto que sem mudança da meta fiscal seria impossível evitar o contingenciamento de gastos em 2024 – algo que nenhum governo aceita fazer em um ano eleitoral. Um déficit fiscal entre 0,5% e 1% do PIB em 2024 é mencionado abertamente no Congresso há várias semanas.

A questão era como a ficção do déficit zero seria abandonada. Poucos métodos poderiam ser piores do que o empregado por Lula, que além de desferir uma canelada sem propósito no mercado financeiro “ganancioso demais”, segundo suas palavras, ainda imolou em praça pública um ministro que sempre lhe foi submisso e que vinha conquistando alguma boa vontade para o governo em ambientes onde petista, em geral, é mal visto.

A resposta do mercado após a despirocada de Lula e a reação passivo-agressiva de Haddad foi clara, com juros futuros e dólar em alta e bolsa de valores em queda.

No Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, que define o nível dos juros básicos da economia, a resposta foi discreta, mas não ambígua. Ao cortar a taxa básica de juros pela terceira vez consecutiva na quarta-feira, 1, o colegiado destacou em seu comunicado “a importância da firme persecução dessas metas (fiscais)” para a “ancoragem das expectativas de inflação e, consequentemente, para a condução da política monetária”. Traduzindo, se o governo indicar que abandonou de vez a responsabilidade fiscal o ritmo de cortes da taxa Selic poderá ser alterado.

Durante a semana, Lula foi alertado por integrantes do núcleo duro do governo como Rui Costa, ministro-chefe da Casa Civil, e Alexandre Padilha, ministro de Relações Institucionais, sobre o desgaste com parlamentares que tomaram para si a responsabilidade por medidas que aumentam a arrecadação e que vinham sendo defendidas com afinco por Haddad, em nome do equilíbrio fiscal. Deputados como Danilo Forte (União-CE) e Pedro Paulo (PSD-RJ), um dos vice-líderes do governo e relator do PL que prevê a tributação de fundos exclusivos e offshores, estão entre aqueles que mandaram sinais de fumaça ao Planalto. Se apertar a cobrança de impostos enquanto o governo assegura que pretende reduzir o rombo nas contas públicas é ruim, fazer isso quando o presidente anuncia gastos é péssimo. Ninguém quer arcar com o desgaste político, enquanto Lula desfila em eventos internacionais.

Além disso, deputados e senadores passaram a se sentir ainda mais legitimados no propósito de tornar impositivo o pagamento de outro tipo de emenda parlamentar, a das comissões permanentes. Por que não ampliar mais um pouquinho o controle do Congresso sobre o Orçamento? A proposta está na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado e deve ser apreciada no início de novembro, após articulação do governo para atrasar a discussão.

No PT, muitos caciques consideram Haddad tucano demais. Mas sabem que o ministro ganhou muitos pontos com Lula por tê-lo visitado semanalmente quando o presidente cumpria pena na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, por envolvimento nos esquemas de corrupção da Lava Jato. As desventuras do titular da Fazenda nesta semana despertaram o chamado schadenfreude – aquela satisfaçãozinha malévola com os problemas alheios.

Gente experiente do Congresso nunca achou que Haddad estava blindado contra traições de Lula. Para três líderes partidários ouvidos por Crusoé, Lula simplesmente deixou escancarado nesta semana o limite do seu respeito por um político que topou disputar uma candidatura presidencial em 2018, com plena consciência de que seria apenas um executor de suas ordens, em caso de vitória. “Haddad conseguia passar alguma tranquilidade ao mercado, mas nunca deixou de ser um poste”, disse um líder governista a Crusoé, em caráter reservado. O agradecimento de Lula veio na forma de constrangimento público. Resta saber como o ministro se comportará no papel de poste sem luz.

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