14yMedioMais de 600 foram detidos desde os protestos de 11 de julho

A nova revolução cubana

Os cubanos que foram às ruas em julho não têm nada a perder, nem mesmo a liberdade. Esperançosos por um futuro melhor, eles voltarão a desafiar a ditadura no próximo dia 15
05.11.21

A mãe de Yunieski disse que terá de “amarrá-lo em casa” para que ele não saia às ruas em 15 de novembro, dia em que organizações independentes farão um protesto cívico em várias cidades de Cuba. Será a primeira grande mobilização desde as manifestações de julho, quando milhares de cidadãos saíram em passeata para exigir liberdade.

Yunieski tem 35 anos e mora no centro de Havana, uma das áreas mais pobres da capital cubana. Sua mãe teme que ele acabe na prisão. Pelo menos dois de seus melhores amigos estão no cárcere há mais de três meses. Eles fazem parte dos quase 600 detidos durante os protestos de 11 de julho que ainda estão atrás das grades ou sendo processados. A promotoria pede sentenças de até 27 anos de privação de liberdade para alguns dos manifestantes.

Naquele domingo, que parecia um dia como outro qualquer, a dezenas de quilômetros da casa de Yunieski, os moradores do povoado de San Antonio de los Baños saíram às ruas porque estavam cansados dos seguidos cortes de energia, da má gestão da pandemia e da falta de liberdade. A centelha daquele protesto, transmitida pela rede social Facebook, espalhou-se por todo o país.

Os ecos da ação popular chegaram à capital e surpreenderam o oficialismo, que em princípio acreditou ser algo fácil de controlar. O presidente Miguel Díaz-Canel, em quem nenhum cubano votou nas urnas, foi para San Antonio de los Baños para tentar apaziguar o descontentamento. Mas, enquanto ele estava na estrada, milhares de pessoas se reuniram em volta do prédio do Capitólio, em Havana, criando imagens de dissidência e de coragem popular inéditas na história recente desta ilha.

A explosão social chegou quando parecia que a ditadura cubana poderia estender seu controle por muitos anos mais. Aquela falsa máscara de unanimidade popular que o partido governante construiu durante décadas foi rompida em um dia. A Praça da Revolução respondeu com uma onda repressiva que levou as imagens de agressões e excessos às primeiras páginas de todos os jornais do mundo.

Nesse dia, o regime mostrou que estava disposto a usar toda a força para evitar perder o controle do país. Os protestos de 11 de julho foram seguidos por réplicas de manifestações que também foram severamente reprimidas. O governo cortou o acesso à internet dos celulares para tentar impedir que os cubanos vissem imagens de pessoas nas ruas.

14yMedio14yMedioCubanos reclamaram de cortes de energia, falta de comida e de liberdade
A repressão não foi apenas contra os cidadãos e os que participaram dos protestos. A imprensa independente também sofreu o ataque oficial com uma fúria particular. Serviços de telefonia cortados, prisões domiciliares, ameaças a famílias, intimações policiais, multas e retaliações aumentaram desde aquele dia, ainda mais com a aproximação do próximo protesto cívico.

Mas a repressão desproporcional e o endurecimento do discurso oficial nos últimos três meses não conseguiram apagar as causas que levaram milhares de cubanos às ruas. A falta de liberdade, o desejo de uma mudança democrática e de abertura econômica foram o principal combustível desses protestos e continuam sendo objetivos a serem conquistados.

No bairro de Yunieski, as pessoas se sentem asfixiadas. Os aposentados não podem pagar a comida de todos os dias, muitos jovens constroem clandestinamente balsas para tentar atravessar o estreito da Flórida e chegar aos Estados Unidos, enquanto o regime cubano convoca suas tropas de choque para redobrar a vigilância e enfrentar todos os dissidentes.

A crise econômica chegou ao fundo do poço e o país perdeu mais de 13% de seu PIB nos últimos dois anos. As populações vulneráveis, como os idosos que recebem apenas uma pensão paupérrima, os cubanos que não têm acesso a moedas estrangeiras, comunidades de maioria negra e os residentes de pequenas localidades com menos oportunidades de empreendedorismo, vivem um dos piores momentos da ilha no último meio século.

Há mais de um ano, o regime abriu uma rede de lojas que vende apenas em moeda estrangeira e oferece alimentos que há anos não se viam nas lojas que vendem em pesos cubanos. Quando ocorreram os protestos populares há três meses, esses lugares foram alvo da fúria popular, pois muitos cubanos consideram que há um apartheid econômico entre a população que recebe remessas do exterior e a que só vive de seu salário.

Os amigos de Yunieski que foram às ruas nasceram com a dolarização da economia que Fidel Castro impôs após a queda da União Soviética nos anos 1990. Eles cresceram sentindo-se cidadãos de segunda classe em um país onde um turista pode se hospedar em um hotel, alugar uma linha de telefone celular e navegar ao longo da costa de iate, enquanto esses direitos lhes eram proibidos.

WikimidiaWikimidiaPovoado de San Antonio, em Cuba: a centelha dos protestos
Apesar das tímidas reformas econômicas promovidas por Raúl Castro, depois que seu irmão Fidel ficou doente, e dos novos ventos que o degelo diplomático com os Estados Unidos e a visita do então presidente Barack Obama a Havana trouxeram para a economia, a vida para esses jovens continuou muito difícil. A situação piorou com a pandemia e a falta de expectativas.

Foram eles, os menores de 35 anos ou adolescentes, os principais protagonistas dos protestos e potenciais participantes do protesto cívico planejado para meados deste novembro. Eles não têm nada a perder, nem mesmo liberdade, porque no dia-a-dia se sentem presos a controles, proibições absurdas e a impossibilidade de escolher um partido, de se expressar sem mordaça ou de acumular riquezas.

Eles nunca estiveram tão livres quanto naquele dia de julho, em que cantaram nas ruas a música “Pátria e Vida”, que se tornou o hino da mudança em Cuba. Naquele dia, eles gravaram com seus celulares os outros que, como eles, querem uma transição democrática na ilha. Eles acreditaram que a ditadura estava acabando naquele exato momento. Por 24 horas, eles habitaram o futuro.

Eles também são a maioria dos que foram detidos nessas manifestações. Jovens tentando mudar o país onde vivem — mas o regime, em vez de ouvi-los e de implementar imediatamente um programa abrangente de reformas políticas e econômicas, preferiu se entrincheirar numa retórica agressiva e militante.

O discurso oficial não parou de culpar os Estados Unidos pelos protestos, apelando para a retórica vitimista de que quem saía às ruas cubanas era pago por potências estrangeiras ou eram cidadãos ludibriados, influenciados pela propaganda do império. A mídia controlada pelo Partido Comunista tentou apresentar as manifestações como algo orquestrado fora de nossas fronteiras.

As principais praças e ruas do país estão fortemente vigiadas pela polícia, os organizadores que convocaram o protesto de 15 de novembro estão recebendo todo tipo de pressão e o regime cubano está preparando suas tropas para espancar e intimidar os potenciais participantes. As autoridades estão enviando uma mensagem pública de que não permitirão qualquer forma de dissidência.

Os jornalistas também estão no olho do furacão repressivo, porque o governo cubano sabe que a informação livre e aberta afeta seu poder totalitário sobre a ilha. Assim, é possível que nos próximos dias se multipliquem as ações repressivas, os cortes no acesso à internet, as prisões arbitrárias e outros excessos.

Mas a ditadura está chegando ao fim. Esses são os estertores agonizantes de uma criatura anacrônica que não pode sobreviver. Os hierarcas de verde-oliva sabem que o seu sistema constitui uma anomalia política, econômica e social, e estão apenas tentando ganhar tempo. Esse tempo está sobrando para jovens como Yunieski, mas está faltando ao castrismo.

Jornalista cubana, formada em filologia hispânica. É diretora do site de notícias 14yMedio e autora do livro De Cuba com Carinho, baseado em seu blog Generación Y. Mora em Havana com a família.
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  1. Oxalá o que escreve no último parágrafo se torne verdade e não se quede por esperança vã. Há já demasiado que esse povo cubano é escravo do regime que não quer (ouso dizer que nunca o quis, de fato).

  2. Meu médico é um cubano boa praça que veio com os pais para o Brasil em 1965 .. me disse algo triste o sonho dos cubanos é voltar a ser como eram o prostíbulo da América e parte de Havana já é . voltou lá com os pais já cidadãos brasileiros e me confessou que não deveria ter ido para ver o que viu . dois de seus tios foram fuzilados sumariamente por Castro . o crime? eram fazendeiros e suas terras confiscadas como inimigos do povo . a terra segundo ele hoje nada produz.

  3. A esquerda retrógrada brasileira elogia essa ditadura infame que já dura uma eternidade! Democracia já! Nem ditadura de esquerda e nem de direita!

  4. enquanto isso, a esquerda modorrenta rançosa embolorada do brasil diz que aquilo é progresso. a esquerda chique europeia ri do subdesenvolvimento da esquerda latina.

  5. Eu visitei Cuba. Um médico me serviu como motorista particular. Vi e presenciei o desconforto do povo cubano. Aprendi sobre como não se deve administrar um país. Um gerente do hotel chegou a me oferecer a irmã para noites de prazeres, em troca de tirá-la da Ilha. Isso é Cuba, Isso é esquerda

  6. Mentira, tudo mentira. Os meus amigos esquerdistas disseram que é tudo mentira. Cuba é um paraíso e é pleno de democracia. Quem é essa Yoani Sánchez para falar da sua terra. Nós, brasileiros, e esquerdistas, é que sabemos, não é senhor Gilberto de Carvalho? “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”.

    1. No que difere da Venezuela ? Mais horrores pela frente.

  7. A ditadura cubana não tem nenhuma chance. Cuba -Libre não será somente uma bebida, será uma realidade para o povo cubano. Existe no momento uma assimetria no uso das tecnologias, em favor dos jovens cubanos. Chega de criaturas velhacas, caquéticas e regimes totalitários. Lá os cubanos lutam para terem liberdade. AQUI NOSSA LUTA CONTRA O LULA E O BOLSONARO, É PARA NÃO PERDER A NOSSA LIBERDADE. "Um Brasil justo para todos." Mor🇧🇷 Presidente.

    1. Totalmente de acordo!!! #MoroPresidente2022

  8. Enquanto isso os professores e universitários brasileiro farão de tudo para criar uma retórica para fazer o regime cubano passar de bonzinho nisso

  9. as algemas um dia serão rompidas .. serão agora? o que não dizem é que uma minoria que vive como seres humanos controlam os miseráveis de Cuba .. é exatamente isto que os comunazistas querem pro Brasil.

  10. Estarei torcendo para que a Ditadura Cubana chegue ao fim, bem como para que a ditadura brasileira seja definitivamente enterrada, bem como seus representantes!

    1. o Chico Buarque o KaRetano Verboso e o Zecusp'abreu já estão lá?

  11. Tomara que os cubanos se livrem dessa praga ditatorial com um mínimo de vítimas e possam construir um país digno de um povo digno.

  12. Pena Yoani que a grande (sic)imprensa brasileira, mesmo com o exemplo de quase 60 anos de seu país ainda não se convenceu desta realidade, que a todo custo quer trazer para o Brasil ...

  13. F....-se cubanos de la p..a m_erda. 60 años de ditadura e ainda choramingando para o mundo......¡a La guerrilla compañeros perezosos!...😘

  14. LULA: os EXEMPLOS EXECRÁVEIS que uma SOCIEDADE tão CORRUPTA é capaz de produzir! São DEGENERADOS MORAIS que IMPEDEM o BRASIL de AVANÇAR! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

    1. KEDMA acorda fia LIVRE é quem come escargot e não merda.

  15. ... Parabéns, Yoani Sánchez!! ... Tomei conhecimento de sua luta desde 2004/06 quando tinha de entrar em fila para acessar a Internet para fazer um Post em seu Blog. ... Das vezes que já enfrentou os Brutamontes da ditadura. ... Se não me engano, já fez uma visita ao Bananão quando o ex-presidiário era o mandatário. ... Go ahead!!!

    1. Lembro bem. A ativista foi escurraçada pelo pela esquerdalha imunda.

    2. Acho que foi em 2013. Na época a esquerda DEMOCRATICAMENTE tentou silenciá-la. Afinal, quem não segue a cartilha do ESQUERDISTICAMENTE correto é condenado ao "paredón" (metafórica ou literalmente).

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