RuyGoiaba

Inimigos do povo

10.04.20

Nestes tempos de quarentena, três coisas se espalham com quase a mesma velocidade das infecções pelo coronavírus: aquele meme dos carregadores de caixão dançantes, “lives” pela internet (já virou lugar-comum aquela piada do “estou com medo de abrir a geladeira e encontrar alguém fazendo uma ‘live’ lá dentro”) e dicas de livros, filmes ou séries para você não virar o personagem do Jack Nicholson em “O Iluminado” e sair querendo matar geral.

(Tem também a história viral, e certamente verídica, do “primo Antônio Carlos curado com cloroquina no hospital Unimed da Barra” — a julgar pelas redes sociais, o país tem hoje mais primos Antônio Carlos do que discos vendidos pelo Roberto Carlos em, sei lá, 200 anos de carreira. Resta saber se esse Antônio Carlos é o Jobim, o Magalhães ou o Mussum. Fecha parêntese.)

No capítulo das dicas de livros — aqueles troços com muita coisa escrita –, tenho visto sempre as mesmas sugestões pandêmicas: “A Peste”, de Albert Camus, e o “Decameron”, de Giovanni Boccaccio. São dois ótimos livros, e Camus é um dos meus autores favoritos. Mas acho curioso que não se cite uma peça de teatro muito pertinente na “atual conjuntura” do Bananão: “Um Inimigo do Povo”, escrita em 1882 pelo norueguês Henrik Ibsen e encenada no mundo todo, inclusive por aqui. E é um livro curtinho, nem tem tanta coisa escrita.

Resumindo a trama: o personagem principal, o médico Thomas Stockmann, descobre que os banhos públicos de um balneário — cujo prefeito é seu irmão, Peter — estão infectados. Os banhos são a principal fonte de turismo e renda da cidade. Peter, que se recusa a fechar o lugar, entra em confronto aberto com Thomas, e a situação evolui para um ponto em que o prefeito consegue a adesão da imprensa e dos homens mais poderosos da cidade para desacreditar o médico. Assim, Thomas torna-se o “inimigo do povo” do título: ele e a filha perdem os empregos, e a casa da família é apedrejada.

Não é à toa que “Um Inimigo do Povo” era uma das peças preferidas de Nelson Rodrigues: o dramaturgo brasileiro via no texto de Ibsen um dos seus temas favoritos, que era a luta do homem solitário contra a “unanimidade burra” da manada de zebus (o termo “zebus” é do Nelson, não meu). Não vou dar spoiler aqui, mas a peça tem uma espécie de “final feliz” que parece forçado e destoante demais do pessimismo – isto é, realismo — do que veio antes.

É fácil detectar os Thomas Stockmann no Bananão de hoje: em geral, eles estão por aí defendendo o isolamento social, que vai “sufocar a economia”, ou pedindo cautela e mais testes clínicos para o emprego da cloroquina. E é mais fácil ainda identificar os Peter Stockmann, seus aliados e a população apedrejadora — que hoje ainda tem a comodidade de atirar pedras pelas redes sociais, sem nem precisar sair do sofá. Não consigo vislumbrar um final feliz aí, a não ser que o meme dos carregadores de caixão dançantes conte como “feliz”.

Mas prometo NÃO fazer uma live sobre o assunto.

***

A GOIABICE DA SEMANA

Deve haver alguma coisa no Estatuto do Idoso que permita prender Paula Lavigne por fazer bullying em Caetano Veloso durante a quarentena, filmando o velho baiano – e jogando nas redes sociais — toda vez que ele está numa boa comendo sua paçoquinha no canto dele. Há quem diga que os dois se merecem, mas não estranharei se Caetano fugir correndo porque prefere um banho de coronavírus a coabitar com a mala sem alça por mais um minuto. (Pode também ser um golpe de marketing; vai que daqui a pouco os dois aparecem em alguma live cantando “eta-eta-eta, é a lua, é o sol, é a luz de Mandetta-etta-etta”.)

Reprodução/redes sociaisReprodução/redes sociaisNove anos depois de estacionar carro no Leblon, Caetano come paçoca em casa

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