Os obstáculos da vida artística
Uma obra de arte às vezes parece o Projeto Manhattan, que criou a bomba atômica: os técnicos sabem apenas sua parte, mas não conseguem visualizar o todo
Não é fácil ser artista no Brasil. Na verdade, nunca foi em canto nenhum do mundo.
Quando um artista concebe uma obra, ele tem a capacidade de visualizá-la pronta. Claro que muitas coisas surgem no percurso, mas o artista consegue visualizar o tipo de obra, as linhas gerais, o começo e o fim. Já as outras pessoas não conseguem ver o que o artista está vendo.
Aí a primeira grande dificuldade: convencer os outros (que potencialmente vão financiar ou comprar a obra, ou publicá-la, dependendo da linguagem). Por mais que o artista seja hábil, as pessoas não têm o repertório que ele tem para compreender ou visualizar o que vai ser feito.
Quando eu fiz o meu primeiro curta, Quarteto Simbólico, o cinegrafista que o filmou admitiu, quando viu o filme pronto, que não tinha a menor ideia do que eu estava fazendo. Só entendeu quando viu o filme pronto no cinema.
Uma obra de arte às vezes parece o Projeto Manhattan, que criou a bomba atômica: os técnicos sabem apenas sua parte, mas não conseguem visualizar o todo.
Só o diretor ou o artista sabe o todo, e o tem na cabeça. Mas é preciso convencer os outros que vão trabalhar no filme, vão financiá-lo ou exibi-lo.
Todos os filmes que fiz, tenho a impressão de que só eu os visualizava, e ninguém mais. Por mais que eu explique, dê o roteiro para a pessoa ler, mostre referências... Quando o filme está pronto, as pessoas veem o que você viu alguns anos atrás, quando o concebeu.
Suponho que seja o mesmo na literatura, nas artes plásticas, na música, e por aí vai.
A maior dificuldade de fazer cinema é financiar os projetos, uma vez que o cinema é uma arte muito cara. Quem termina por financiar o projeto o faz não por motivos artísticos, mas por confiar no diretor, ou por esperar alguma coisa em troca — como ter a marca exposta, ou obter algum resultado político/ideológico.
Geralmente, até para quem financiou e trabalhou no filme, o resultado final é uma completa surpresa.
Quando fiz o filme sobre Olavo de Carvalho, O Jardim das Aflições, o próprio personagem ficou completamente abismado quando viu o filme pronto. Ele não tinha a menor ideia do partido que eu estava tomando, uma vez que eu filmei dezoito horas, e o resultado final foi um filme de 1h21.
Outra dificuldade, que contrasta com a anterior, é que não há garantia nenhuma de que vai conseguir terminar a obra com sucesso. Um engenheiro tem certeza de que pode terminar a obra. Um artista, não.
Quando conheci o pintor tcheco Milan Dusek em sua casa em Brasília, ele me disse algo como: “Muitas vezes o quadro evolui diretamente para o lixo”. Pode acontecer a mesma coisa com filmes, com o agravante de que tem dinheiro alto envolvido.
Outra grande dificuldade é a instabilidade: artistas podem provocar grande comoção popular e serem esquecidos logo em seguida. Muitos grandes artistas foram esquecidos, ou hostilizados, e perderam tudo.
É por isso que artistas tendem a ser de esquerda ou anticapitalistas, segundo Ludwig von Mises. Eles acabam buscando o apoio do Estado, em vez de ficarem submetidos ao livre-mercado.
Hoje, na era da internet, existe uma dificuldade suplementar: o artista precisa ficar se expondo em rede social para ser visto. Não basta apenas produzir suas obras e lançá-las.
Só que expor a si mesmo demais leva a uma banalização da presença. Eu não sei como resolver esse dilema. Na real, acho que ninguém sabe ao certo.
Outras dificuldades não são de ordem exterior, mas interior. O processo de tornar-se artista envolve aguçar a sensibilidade e o gosto. Porém, o mundo exterior continua sendo barulhento, agonizante, claustrofóbico (principalmente nas grandes cidades).
Quem passa o dia ouvindo música clássica e percebendo nuances musicais específicas sofre muito com o barulho da rua, barulho de celular, pessoas falando alto. O mesmo em relação à luminosidade, olfato, até gustação — a sensibilidade fica aguçada para tudo isso, e a vida nas grandes cidades continua sendo um ambiente brutal.
Por fim, artistas lidam com emoções, não raro com emoções fortes e intensas. E isso contamina as outras atividades: vida social, familiar.
Notei essa questão vendo, no ano passado, no Festival de Veneza, o filme La Duse, sobre a grande atriz italiana, dirigido por Pietro Marcello. Lá tem uma cena em que a atriz, já idosa, está contando uma história para os netos e termina por assustá-los terrivelmente, o que provoca mais uma briga com a filha.
Aprendi a lidar com isso mantendo uma vida calma para além do turbilhão de emoções da produção e fruição. Talvez tenha aprendido com Flaubert, que disse: “Vive como um burguês para que possas dedicar toda a tua radicalidade à tua arte”.
Josias Teófilo é escritor, jornalista e cineasta
Instagram: josiasteofilo
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