Adorni, braço direito de Milei, renuncia após crise
Milei aceita renúncia de Adorni e nomeia Diego Santilli para tentar estabilizar o governo após meses de escândalos e pressão no Congresso
A Argentina viveu neste fim de semana uma crise política de grandes proporções: Manuel Adorni, chefe de gabinete do presidente Javier Milei, apresentou sua renúncia após crescentes pressões de integrantes do próprio governo, da oposição e de parte da sociedade.
A queda foi precipitada por meses de questionamentos sobre gastos incompatíveis com seu salário público. As dúvidas começaram a se intensificar depois que Adorni viajou com sua esposa no avião presidencial a Nova York e, posteriormente, investigações revelaram viagens de avião particular a Punta del Este, no Uruguai, com custo próximo a 9 mil dólares, pagos por uma produtora ligada a um amigo seu que trabalhava na televisão pública.
Somaram-se a isso a compra de um apartamento de quase 200 m² por 230 mil dólares e reformas em uma casa de campo avaliadas em 245 mil dólares, pagos em espécie, valores difíceis de justificar com seu contracheque mensal.
Adorni admitiu recentemente ter omitido cerca de 500 mil dólares em suas declarações juradas patrimoniais, justificando o montante com ganhos em investimentos em bitcoin e possível herança familiar, o que intensificou a apuração judicial por enriquecimento ilícito ainda em curso.
O episódio, que se estendeu por mais de três meses, contribuiu para a erosão da imagem do governo nas pesquisas de opinião, com taxas de desaprovação de Milei acima de 50% em vários levantamentos, alimentando críticas até mesmo entre parte da base libertária por contradizer o discurso anticorrupção que marcou a chegada de Milei ao poder.
Em sua carta de despedida, Adorni negou qualquer irregularidade e afirmou que decidiu sair para proteger sua família de "ataques intermináveis". Milei, por sua vez, mesmo tendo declarado poucos dias antes que manteria o funcionário até que a Justiça se pronunciasse, acabou aceitando a renúncia.
Depois de mais de 100 dias de desgaste crescente, com a Justiça investigando possível enriquecimento ilícito e o Congresso disposto a votar sua destituição, Adorni deu o passo que muitos no governo já esperavam.
Para substituí-lo, Milei escolheu Diego Santilli, até então ministro do Interior. Santilli chega à chefia de gabinete com poderes amplos, mantendo também o controle sobre a pasta do Interior para negociar com os governadores das províncias. Trata-se de um político de longa carreira, que passou pelo peronismo e depois pelo PRO, de Mauricio Macri, conhecido pela habilidade de construir acordos, o oposto do estilo confrontador de Adorni.
A designação de Santilli representa, pela primeira vez, que a chefia de gabinete não seja ocupada por um militante de origem mileísta, mas por um representante inequívoco da velha política, a mesma "casta" que Milei combateu durante anos.
Essa mudança é fruto da necessidade, não de uma estratégia deliberada, após quase quatro meses de desgaste que corroeram poder e credibilidade do governo. O novo ministro assume com o desafio de recompor a relação com o Congresso e as províncias, garantir aprovação de reformas-chave e preparar o terreno para as eleições presidenciais de 2027.
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