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A estética da captura e a ilusão da ruptura na Venezuela

Transições mal conduzidas frequentemente resultam em vácuos institucionais, disputas internas e prolongamento do sofrimento da população

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Magno Karl
5 minutos de leitura 16.01.2026 09:34 comentários 0
A estética da captura e a ilusão da ruptura na Venezuela
Nicolás Maduro. Foto: Casa Branca
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A imagem de Nicolás Maduro capturado por uma operação americana correu o mundo como um símbolo de ruptura de um regime atroz.

Para parte da opinião pública internacional, a cena parecia anunciar o fim de um dos governos mais longevos e repressivos da América Latina. O impacto visual foi imediato. O efeito político, no entanto, foi mais limitado do que a estética da operação sugeria.

Passado o choque inicial, o fato central permanece: o regime chavista não caiu.

A estrutura de poder segue intacta, a repressão política continua ativa e presos políticos seguem encarcerados.

O comando do Estado foi reorganizado internamente, com a ascensão de uma vice-presidente eleita em um processo amplamente questionado, sem que tenha havido qualquer transição democrática efetiva. A captura produziu imagens, mas não ruptura.

Essa dissociação entre símbolo e realidade revela um problema recorrente na análise de intervenções externas: a crença de que a remoção de um líder autoritário equivale, automaticamente, ao colapso do regime que ele encarna.

No caso venezuelano, essa leitura esbarra em mais de duas décadas de erosão institucional, captura do Estado e destruição sistemática de freios e contrapesos. O chavismo não é um governo ou um ditador, é uma engrenagem de poder profundamente enraizada.

A crise venezuelana é, antes de tudo, um colapso fabricado internamente.

Não foi causada por guerras, catástrofes naturais ou invasões estrangeiras, mas por escolhas políticas: autoritarismo, estatizações predatórias, corrupção sistêmica e destruição dos mecanismos de mercado.

O resultado foi uma derrocada econômica sem precedentes e uma crise humanitária expressa no êxodo de milhões de venezuelanos.

Nesse contexto, a operação americana tampouco pode ser interpretada como um projeto de redemocratização.

O discurso de Washington deixa claro que não há, ao menos no curto prazo, uma estratégia de reconstrução institucional ou de “nation building”.

A ação se insere em uma nova lógica de política externa, marcada por interesses estratégicos, energéticos e pela reorganização de zonas de influência no mundo.

Isso não significa ignorar o caráter autoritário do regime de Maduro ou relativizar os crimes cometidos.

O regime venezuelano acumula denúncias robustas de violações de direitos humanos e investigações em instâncias internacionais.

A questão central, porém, é outra: a substituição de uma liderança autoritária, sem um plano claro de transição, tende a produzir instabilidade sem necessariamente resultar em reconstrução da democracia — por vezes, o que acontece é ainda mais repressão.

A experiência comparada mostra que transições mal conduzidas frequentemente resultam em vácuos institucionais, disputas internas e prolongamento do sofrimento da população.

Democracias não emergem por decreto externo. Exigem reconstrução institucional, eleições livres e verificáveis, coordenação internacional e capacidade mínima de governança — elementos que ainda não estão dados na Venezuela.

Do ponto de vista regional, a operação também gera inquietação. Ao sinalizar disposição para intervenções diretas em países soberanos com base em justificativas de segurança ou interesse econômico, os Estados Unidos reforçam incertezas já elevadas na América Latina.

Para países da região, isso implica a necessidade de recalibrar políticas externas, diversificar alianças e lidar com um ambiente internacional cada vez mais orientado pela força, e menos por normas compartilhadas.

Para o Brasil, o episódio expõe contradições adicionais. Ao mesmo tempo em que não reconheceu a legitimidade eleitoral de Maduro em momentos recentes, o país passou a reconhecer politicamente os efeitos desse mesmo processo ao aceitar sua sucessora.

Essa ambiguidade enfraquece a posição diplomática brasileira e contribui para normalizar a continuidade de um regime ilegítimo.

Nada disso apaga um dado essencial: para muitos venezuelanos, a captura de Maduro teve um significado profundamente humano.

Não como solução, mas como sinal de esgotamento de um ciclo de autoritarismo que parecia interminável. O desafio, agora, é impedir que esse momento se esgote na estética da ruptura e seja seguido por mais um ciclo de frustração.

A Venezuela não precisa de símbolos vazios nem de tutelas externas permanentes.

Precisa de instituições, legitimidade política e condições concretas para que sua população volte a viver com dignidade.

Sem isso, a captura de um homem corre o risco de se tornar apenas mais um episódio espetacular em uma longa história de continuidade autoritária.

 

Magno Karl é analista político e diretor-executivo do Livres

Instagram: @magnokarl

X: @omagnokarl

 

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