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A bandeira na Paulista e a vassalagem simbólica

O mais grave não é o uso da bandeira dos Estados Unidos em si, mas o que ela simboliza: o abandono da autocrítica e da autoconfiança

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Dennys Xavier
5 minutos de leitura 08.09.2025 13:07 comentários 6
A bandeira na Paulista e a vassalagem simbólica
Bandeira dos Estados Unidos na Avenida Paulista no 7 de setembro. Foto: Beto Barata/ PL
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Quando um grupo de cidadãos ergue, em plena Avenida Paulista, uma bandeira dos Estados Unidos da América como símbolo tortuoso de sua identidade política, não está apenas praticando um ato de apoio internacional.

Está, sobretudo, protagonizando um gesto de capitulação simbólica: uma renúncia à própria soberania cultural, moral e política. Trata-se de um sintoma alarmante de uma nação que perdeu a confiança em si mesma, em sua história, em seus princípios e em sua capacidade de se conduzir por sua própria razão.

Esse tipo de manifestação revela algo mais profundo que simples alinhamento ideológico.

É a expressão de um mimetismo político no qual se tenta incorporar o modelo estrangeiro como se ele fosse o único caminho possível para a ordem, a liberdade ou a salvação nacional.

Ao fazer isso, alguns brasileiros substituem a construção interna de um projeto político por uma adesão estética a símbolos externos; como se bastasse vestir a fantasia de outra pátria para herdar sua força e virtude ... ou para extrair dela algum resto de simpatia.

Mas liberdade não é um adereço. Não se herda, não se importa, nem se cola na testa.

Liberdade exige formação. Exige responsabilidade individual, consciência histórica e um senso claro de pertencimento à própria realidade. Quando um povo troca seus próprios símbolos por bandeiras alheias, está dizendo, ainda que silenciosamente, que não sabe mais como ser ele mesmo.

A situação se torna ainda mais paradoxal quando se observa que o atual governo Trump, com sua política externa centrada em interesses exclusivamente norte-americanos, não é senão aliado de si mesmo.

Não importa o entusiasmo com que seus apoiadores brasileiros agitam bandeiras e slogans: manifestações de vassalagem explícita não transformarão esse autointeresse essencial em solidariedade real. O nacionalismo americano, como qualquer outro nacionalismo coerente, não está à disposição de projetos políticos estrangeiros, nem mesmo daqueles que o reverenciam.

Esse tipo de gesto denuncia a fragilidade de uma identidade política que, em vez de ser construída a partir da experiência nacional, da cultura local, do debate interno, prefere encontrar abrigo em modelos prontos, sedutores por sua força, mas alienígenas por sua lógica.

No fundo, há aqui um desespero mal disfarçado: a esperança de que alguém de fora venha resolver aquilo que já não se acredita poder resolver por dentro.

Curiosamente, essa devoção a símbolos estrangeiros se assemelha, em sua estrutura, aos mesmos erros cometidos por correntes políticas que idolatram regimes de outros tempos ou de outros continentes. Em ambos os casos, a solução é sempre externa, a autoridade é sempre importada, o modelo é sempre outro.

Essa repetição revela um padrão de fuga: a incapacidade de encarar de frente a complexidade da própria realidade nacional e de assumir o dever moral de reformá-la a partir de dentro.

O mais grave, porém, não é a bandeira em si, mas o que ela simboliza: o abandono da autocrítica e da autoconfiança.

Um país que precisa se apoiar em bandeiras alheias para justificar sua luta política é um país que não aprendeu a lutar por si. Um povo que busca fora o que deveria cultivar dentro corre o risco de transformar sua liberdade em dependência e sua identidade em caricatura.

Ainda mais alarmante é perceber que muitos dos que se declaram patriotas, aqueles que bradam “Brasil acima de tudo” como lema de fidelidade nacional, aceitam com naturalidade que um líder estrangeiro utilize instrumentos de guerra tarifária para tentar influenciar decisões soberanas do Judiciário brasileiro.

Isso não é apenas contradição: é delírio. Um patriotismo que se curva diante da ingerência externa, quando esta favorece seus próprios interesses ideológicos, revela-se vazio de substância e carregado de servilismo. Questões internas devem ser enfrentadas por quem as causa: os próprios brasileiros.

O problema do STF é um problema brasileiro, a ser resolvido (ou não resolvido) por um povo responsável pelo seu próprio destino. Transferir a resolução de nossos impasses para potências estrangeiras não é patriotismo, é abdicação. É a negação mais elementar da autodeterminação, substituindo a difícil virtude da responsabilidade política pela tentação infantil da tutela alheia.

A resposta para esse fenômeno não está em mais reatividade, nem em condenações morais superficiais.

Está na reconstrução paciente da cultura política, na valorização da educação, no cultivo da liberdade como responsabilidade. Está, sobretudo, no reencontro com a própria história, com os próprios símbolos, com as ideias que fizeram, e ainda podem fazer, do Brasil um lugar digno de sua própria bandeira.

 

Dennys Xavier é escritor, tradutor e PhD em Filosofia

X: prof_dennys

Instagram: prof.dennysxavier

 

As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e O Antagonista

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Dennys Xavier

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Comentários (6)

Luiz Filho

2025-09-09 21:53:45

PhD também fala muita bobagem. Se tivesse uma bandeira de Israel, do Brasil e dos EUA seria vassalagem?


Gabriel Cajaty

2025-09-09 16:05:56

Brilhante a análise de DENNIS XAVIER! Nos mostra com muita clareza que ainda gostamos de ser tutelados pelo grande vovó da casa grande indicando os caminhos a serem seguidos sem discussão pelos seus agregados! É efetivamente o complexo de vira lata que desde sempre permeia por todos os estamentos da nossa sociedade!


Márcio Roberto Jorcovix

2025-09-08 19:39:28

O grande problema é que uma boa parte da população se jogará de um prédio de 50 andares se este cidadão chamado Bolsonaro disser que temos que fazer Isto para um Brasil melhor e para eliminar o PT. Agora os caras estão apoiando os Estados Unidos por taxarem nossas exportações. É uma maluquice sem tamanho. Enquanto isto, a popularidade do sapo barbudo, que continua gastando como se não houvesse amanhã, não só parou de cair como se recuperou um pouco. Não dá para acreditar


Carlos Renato Cardoso Da Costa

2025-09-08 17:23:07

No Brasil até o patriotismo é de 5ª categoria.


ANDRÉ MOURA MOREIRA

2025-09-08 14:41:01

Parabéns! Disse tudo.


Sandra

2025-09-08 14:01:56

Excelente análise. Foi chocante ver uma bandeira estrangeira tendo protagonismo numa manifestação de assim chamados "patriotas". Muita falta de noção.


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Luiz Filho

2025-09-09 21:53:45

PhD também fala muita bobagem. Se tivesse uma bandeira de Israel, do Brasil e dos EUA seria vassalagem?


Gabriel Cajaty

2025-09-09 16:05:56

Brilhante a análise de DENNIS XAVIER! Nos mostra com muita clareza que ainda gostamos de ser tutelados pelo grande vovó da casa grande indicando os caminhos a serem seguidos sem discussão pelos seus agregados! É efetivamente o complexo de vira lata que desde sempre permeia por todos os estamentos da nossa sociedade!


Márcio Roberto Jorcovix

2025-09-08 19:39:28

O grande problema é que uma boa parte da população se jogará de um prédio de 50 andares se este cidadão chamado Bolsonaro disser que temos que fazer Isto para um Brasil melhor e para eliminar o PT. Agora os caras estão apoiando os Estados Unidos por taxarem nossas exportações. É uma maluquice sem tamanho. Enquanto isto, a popularidade do sapo barbudo, que continua gastando como se não houvesse amanhã, não só parou de cair como se recuperou um pouco. Não dá para acreditar


Carlos Renato Cardoso Da Costa

2025-09-08 17:23:07

No Brasil até o patriotismo é de 5ª categoria.


ANDRÉ MOURA MOREIRA

2025-09-08 14:41:01

Parabéns! Disse tudo.


Sandra

2025-09-08 14:01:56

Excelente análise. Foi chocante ver uma bandeira estrangeira tendo protagonismo numa manifestação de assim chamados "patriotas". Muita falta de noção.



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