A hora da verdade para o maior acordo comercial de Trump
Trump ameaça o acordo comercial que assinou em 2020. Entenda os riscos para EUA, México, Canadá e os possíveis efeitos sobre o Brasil
O acordo de livre comércio entre Estados Unidos, México e Canadá, USMCA, entra nesta quarta-feira (1) em sua primeira revisão obrigatória, prevista para ocorrer a cada seis anos desde que o pacto substituiu o antigo Nafta, em 2020.
O bloco responde por cerca de 1,8 trilhão de dólares em comércio anual entre os três países e integra cadeias produtivas construídas ao longo de mais de três décadas. Canadá e México são justamente os dois maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos.
O resultado, porém, está longe de ser garantido: o presidente Donald Trump afirmou repetidamente que preferiria não ter o acordo que ele mesmo assinou, e chegou a dizer que não sabe se irá renová-lo, embora tenha deixado margem para negociação.
A possibilidade de uma nova negociação faz parte do próprio desenho do tratado. A cláusula de revisão periódica foi incluída durante as negociações conduzidas pelo primeiro governo Trump para permitir que o acordo fosse reavaliado regularmente, em vez de ter que negociar um novo acordo.
Caso os três países não confirmem conjuntamente a continuidade do pacto, ele não é extinto imediatamente, mas entra em um regime de revisões anuais que se estenderia até 2036, quando expiraria definitivamente se nenhum consenso for alcançado antes disso.
Analistas classificam esse cenário de revisões anuais como o mais provável e o descrevem como um obstáculo persistente para empresas que dependem de previsibilidade para investir.
As causas da tensão combinam as prioridades comerciais de Trump com temas previstos para a revisão do acordo. O setor automobilístico ocupa posição central nesse debate, já que suas cadeias de produção dependem da circulação de componentes entre os três países.
Além disso, o governo americano alega déficits comerciais com os vizinhos, entrada de produtos chineses via México e barreiras a exportações agrícolas, como laticínios, ao mercado canadense.
As consequências de uma renovação incerta são importantes. Estudos citam perdas bilionárias em arrecadação adicional para famílias americanas e risco a dezenas de milhares de empregos caso as isenções tarifárias sejam retiradas.
Estados fronteiriços dos EUA, como Dakota do Norte e Michigan, dependem muito das exportações para Canadá e México. Para Ottawa e Cidade do México, que querem manter o pacto, a incerteza já força diversificação de parceiros, em meio a um cenário mundial de fragmentação de blocos regionais.
Para o Brasil, os efeitos tendem a ser indiretos, mas ainda assim relevantes. A manutenção da incerteza em torno do principal acordo comercial da América do Norte reforça o movimento de maior protecionismo dos Estados Unidos, que já atingiu produtos brasileiros, como o aço.
Ao mesmo tempo, eventuais mudanças nas cadeias produtivas entre EUA, México e Canadá podem alterar a competitividade de setores como autopeças, siderurgia e manufaturados, abrindo oportunidades em alguns mercados e fechando outras.
Diante desse cenário, ampliar o acesso a novos parceiros comerciais, como por meio do acordo Mercosul-União Europeia, ganha ainda mais importância para reduzir a vulnerabilidade às decisões unilaterais de Washington.
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